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sábado, abril 12, 2014

Les Mauvais Garçon x La Grande Belleza


Tinhas tanta razão Mrs.Dalloway. Como sempre. Tinhas a razão e perspicácia do teu lado.
Estava um sol inacreditável e uma temperatura que nos rasgava da pele o inevitável. A vista sobre Lisboa tinha a mesma cota que aquele banco de jardim na Villa Borghese, lembras-te? Ironicamente ele também se sente em casa lá.

Tinhas razão. Fui encontra-lo no meu lugar, no meu velho cadeirão. Naquele irremediável Salão Pombalino vazio onde o som cheira a silêncio. Onde a vista pela cidade é soberba. Onde os azulejos azuis se deixam reflectir no chão de tábua corrida, e as paredes brancas fazem deslizar a luz até ao topo do pé direito alto.

A cadeira já não era a mesma. Era agora mais simplificada e forrada a cinza, com os braços a madeira envernizada. Era uma versão qualquer anterior à que todos usam do Van der Rohe. E não, não estávamos na vulgaridade de Barcelona. O tempo tinha passado e não deixava de ser irónico voltar a entrar naquele espaço.

Ele ouvia a mesma música que eu. Para além dos mesmos álbuns, ele ouvia a mesma rádio. Sentia a mesma sensibilidade ao passar-lhe mão na nuca. Usava um perfume com os mesmos ingredientes base. Era calado por opção. Quando eu não tinha opção. Era bonito mas fazia-me sentir que o devia fazer-se sentir ainda mais bonito do que já era. Tinha o traquejo e a malha certa. Usava as mesmas cores que eu. Tinha os dedos finos e gostava de se imaginar mais forte do que era naturalmente. Era gélido mas nos seus lábios derretia-se uma imensidão de ilusões cinematográficas. Fechava os olhos quando o beijava e transformava-se numa criatura frágil mas realista. Não gostava que eu sorrisse quando me beijava porque sempre entendeu que eu me estava a rir. Era delicado mas ágil. Falava a nossa linguagem e percebia até a minha cadência pelo náutico em nós. Não iria dar trabalho nenhum. Ansiava pelo Verão. O Inverno tinha sido rigoroso para todos e ele não escapara a um atropelo que tentava esconder por uma só razão. Desta vez fora ele a vítima. Tinha o humor negro e a acutilância dos nossos momentos mais criativos.
Tinha igualmente um sentido de observação cirúrgico e nada lhe escapava entre os dedos como gostava de imaginar. Cheirava bem. Tinha um som ensurdecedor misterioso por detrás do seu silêncio. Era bonito e tinha um nariz torto num ângulo que só eu repararia. Gostava dos mesmos filmes que eu. Dos mesmos jardins. Era do dia e não da noite. Mas desde o início que sempre te disse: "para além de todos os factos óbvios, ele tem qualquer coisa de errado que ainda não percebi bem".

Sentei-me perfeitamente consciente que do que estava ali a fazer. Como me ensinara a Piaf, vamos sempre preferir o fim ao feio.
Deixei-o por breves instantes ganhar fôlego e encher o ar com palavras cuja temática poderiam até abordar o tempo. Servi-me de mais um copo e recostei-me como quem se prepara para simplesmente ouvir.

Ele ganhava tempo e eu senti que não haveria nem mais um segundo a perder.
“O que é que eu estou aqui a fazer afinal Matthew?” perguntei em voz baixa.
Ele percebeu exactamente ao que me referia e, com o jeito de uma criança com uma agulha nas mãos deixou-me o tempo para ser eu a atalhar caminho.

“Estou aqui porque acabou e me vais querer explicar de alguma forma o que aconteceu. Estou aqui e não será na verdade por mim que me convidaste, mas sim por ti. Para que no fim, e apesar de tudo, eu guarde uma boa imagem tua e uma elegância no trato que paralisem qualquer possibilidade de te denunciar como um comum vulgar que tanto temes vir a ser. Não é?”

“ Essa é uma forma muito resumida e bruta de colocar as coisas, não achas?”

“ É esta a verdade e só esta. Não consegues dar mais um passo em frente porque ainda estás paralisado na história que trazes contigo. É normal, não tem mal nenhum. Tentaste mas afinal ainda não o esqueceste. Nada disso tem mal. O único erro foi teres-te dado conta disso a semana passada e desde então me teres deixado em banho-maria sem saber o que fazer. Nisso esperava outra coisa de ti. Sempre preferi o fim ao feio e devias tê-lo denunciado antes mesmo de surgir o vulgar.”

Seguiram-se então as horas da tarde e a honestidade em paz entre dois homens. Seguiu-se o reencontro que faria sentido e nesse momento dei comigo perplexo com a ironia de tudo ali.

E não era a ironia fácil. Os factos irónicos de, afinal de contas, mais uma vez e sem saber, os homens de camper e bigode egobust se fazerem sentir nas pontes marcadas desta vida em Lisboa.
Não. Não tão pouco a ironia de ele mesmo não saber que conheço o seu objecto de amor-ferido muito melhor do que ele possa pensar.

Talvez um pouco o rever de camarote todo aquele ballet rose que noutros tempos patrocinei. Mas ainda assim não.

A ironia soberba que ele não se deu conta, e que me escorre até então pelos lábios, é a o contraste das cores do crepúsculo que repentinamente se tornaram visíveis em mim, ao aperceber-me de que o que estava a acontecer era uma repetição mas agora em papeis contrários.

Dá-se o arrepio da constatação e ouve-se as cordas do cello que tinha deixado esquecido lá atrás. Ele era o perfeito reflexo do que fui. Ele vivia aquele momento que obriguei um outro a viver.
Não haveria nada a fazer senão esperar que o tempo naquele corpo, lhe lambesse a ferida a céu aberto e o levasse onde cheguei anos depois. Mas não deixava de ser vertiginoso o assistir aquilo tudo de novo.

Sete anos antes, depois de um jantar no Les Mauvais Garçon em que o David fechou a porta e deixou acabar o vinho sem tempo naquelas poltronas velhas de um cabedal cansado, acordei numa manhã igualmente cheia de calor e tinha uma mensagem que deixaram para mim.
“Ontem foi inspirador, tu és inspirador.
Fico assim....com vontade de absorver, de venerar o que é belo sem medo do que é superficial, com vontade de ouvir uma musica bonita e a preferia-la a uma conversa sobre a fome.
Os pormenores da vida devem ser desprezados, são ordinários.
Obrigado por tudo.   R. ”

O Matthew tinha-me feito regressar sete anos no tempo sem saber. Afinal eu era tão mais novo e ele ainda tinha tanto para aprender. O que nos distinguia agora não era no entanto a idade, era uma só coisa. A liberdade. A liberdade que só se conquista com a vida. E sete anos depois o olhar para trás levou-me numa grande viagem. Que no fim me deixa o travo de toda a La Grande Belleza.

Little Joy - Evaporar


segunda-feira, janeiro 15, 2007

Red Dance



...em contagem decrescente onde os minutos são engolidos entre a líbido e a fantasia de um reinado perfeito.
"A morte fica-nos tão bem."

quinta-feira, outubro 19, 2006

Trying to choose the best way

Persistência


Persistência

s. f.,
qualidade do que é persistente;
acto de persistir;
constância;
perseverança.

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

...e aquilo que me deixa a pensar!
Existem coisas, pessoas, espaços, gestos ou até mesmo conceitos que persistem em não ser arrumados.
E como sai caro pensar e olhar para trás...
Hoje, sinto-me violado pela Persistência das "peças que não se querem arrumar".
Hoje cansei-me de jogar Xadrez, mas com a esta constância vejo-me obrigado a, pelo menos, retomar o jogo.
Ou não... não me apetece mesmo nada.
Aiiiiiiiiiii..............!!!!!
E tão felizes que devem ser os loucos de Lisboa!

segunda-feira, outubro 16, 2006

Sopro em Reflexo


O Inverno tinha chegado com tudo.
Aquela luz de final de tarde, aquele som da chuva a cair…aquele âmago na calçada.
Tudo. Era a inspiração e a felicidade de um Inverno em regresso.

Duas poltronas e um espelho ao fundo da sala.
O espaço, pombalino, cujo alto pé-direito fazia sentir o eco de outras paisagens, estava absolutamente vazio. Somente duas poltronas de veludo e um espelho longo entre elas.

Rouge decide então aceitar o convite.
Entra e senta-se, silenciosamente, numa das poltronas.
Em frente, o seu reflexo, com aqueles olhos e sorriso claros fazem-no sentir-se acompanhado naquele estado de felicidade em que se encontrava.
Estavam ambos felizes, e o Inverno chegou.


- Bleu:
Eu sou o gémeo doce

- Rouge:
… e isso faz de mim o quê?

- Bleu:
O gémeo en vogue

- Rouge:
Porquê " en vogue"??

- Bleu
Porque parece que Deus, o próprio, te escolheu para personificar o estilo, e aí andas tu a desfilar e a deixar rastos de glamour.
Spreading some blink blink…
Sparkling

- Rouge (sorrindo):
Como?...agora eu sou "glamouroso" é isso??...espera que essa é nova!
Va caríssimo, és demasiado inteligente para achar realmente só isso!

- Bleu:
Acho que tens uma casca de glamour a cobrir um interior riquíssimo! deep deep deep

- Rouge:
Foda-se!


E por breves instantes o silêncio congelou aquele olhar. Rouge nunca prevera aquele momento.
Aquele reflexo, no espelho, era acutilantemente real.
Respirou fundo e decide então enfrentar todo aquele momento de frente.
Reposicionou-se na poltrona e, verdadeiramente confortável, retoma no olhar de Blue.

- Rouge:
... pois, e o que devo fazer então com esse interior?
Aproveito então agora, que "me vejo ao espelho" e aguardo uma luz…
Sou todo ouvidos!
- Bleu:
Deves…guarda-lo secretamente.
E a menos que to seja pedido para o revelar, sorrir apenas como se estivesses feliz só por estar ali (onde quer que seja).
Não tenhas medo de passar por tolinho, um tolinho simpatico e doce.

Eu escondo o meu interior secretamente, aposto no factor surpresa.
E como isco age como uma verdadeira puta ? um sex god…
Depois de pescada a atenção do objecto desejado abres os portoes dessa luz imensa e deixa-lo K.O.

- Rouge:
Tu és incrível... assustadoramente "reflexo", mas incrível!

Mas Bleu, se me permites o uso de ti...
Não é o desejo desenfreado que quero para mim. Não é a saliva entre os lábios que cresce quando passo que tenho como objectivo.
Tudo isso tb gosto, e muito. Mas prefiro tê-los como adornos indispensáveis, não como fins a atingir.

O que quero pra mim é bem mais simples.
É o poder "abrir os portões dessa luz imensa" sem que isso seja um prémio para nenhuma presa…mas sim uma consequência de uma reacção espontânea e felíz entre mim e seja lá quem for.


E o silêncio regressou aquela sala.
Pensativo e, talves apreensivo, o reflexo retoma firme…

- Bleu:
hum…
Queres demais.

- Rouge:
Já não me contentam os abutres nem os bajuladores, nem os apenas giros ou desejados. Os prémios ou os oscares.
Esses existem hoje como meras manobras de diversão da minha maldade na dança do "saber viver". No gozo do meu animal apenas.
Na verdade, quero é gente!…mas gente mesmo, não apenas clones ou robots.
Achas que é demais?

- Bleu:
Acho que é dificil, e quanto mais ambicioso fores maior é a probabilidade de nao seres feliz.

- Rouge:
E eu que me achava tremendamente simples nos meus desejos. E eu que achava que queria tão pouco. Apenas aprender com tudo e todos os que me rodeam esperando apenas a verdade das coisas.
Irónico, no mínimo.
Acho que podia esperar ouvir isso de qq pessoa, menos de ti.
Tu que eras, de alguma forma, a esperança no poder acreditar. Tu que,nos olhos, carregas esse imenso mundo onde sempre pensei que vivias a acreditar.

- Bleu:
E acredito… Acredito que vou ser feliz.

- Rouge:
e serás, não duvides.


Eram os ritmos daqueles sangues, os gestos daquelas figuras… o respirar daquelas formas de estar, o grito e o gemido de serem conscientes do estado felíz.
Rouge, sentido o desfecho daquele caminho, ergue a cabeça, e concentrado no outro olhar bem claro ainda diz…

- Rouge:
E posso-te perguntar o que te fará felíz?
Pergunta difícil, eu sei.



Bleu abandona a sala em silêncio encondendo a cara por detrás daquele espelho entre eles.
No fundo Rouge também poderia ser certeiro no seu olhar, e ele sabia-o tão bem como o contrário, o reflexo, de tudo em todos, de tudo nos dois.
Ao abandono ficou então aquela sala e aquele veludo. Ao abandono ficou a noite.
Seria inevitável, ambos sabiam.
Um dia… talvez um dia.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Vanity Fair


O mensageiro chega e, com alguma pressa, anuncia o que o traz.
Da mão, desprende-se de um e envelope em tons pastel neutro.

- Está tudo bem?
pergunta o criminoso à vítima daquele envelope.
- Está, está...
- Se eu puder ajudar...
- Eu aceito...obrigado.
- Será com o maior dos prazeres.
Segue-se um momento de silêncio.
A noite naquele jardim já se aproximava fria. Na verdade estavam todos lá dentro em diversão e só aquelas duas figuras se encontravam no jardim.
O cavalheiro afasta-se e indica que retornará à casa.
A felina e clara figura de olhos azuis, ao perceber, contorna o rosto até ele...
- Antes de ir, posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro.
- Porque me ajudaria o senhor, se, na verdade, mal nos conhecemos.
- Podia até dizer-lhe que seria apenas generosidade da minha parte... mas seria mentira.
Na verdade a vaidade em mim não a comporta a si por perto. A sua fuga, também a mim me dá jeito.
E quem diria não acha... A senhora, logo a senhora, a aceitar a ajuda de um estranho.
A vida dá grandes voltas, mas reconheço-lhe eterenamente o equilíbrio neste "carousel" de feira que produz.


Entre a maldade e a ironia, os dois eternos assaltantes perceberam que ali seriam sempre os criminosos e, naquele momento, se separados, as vítimas.
Anoiteceu e o baile começou.
Dançaram uma última valsa e desapareceram entre a multidão.

quinta-feira, setembro 28, 2006

sábado, setembro 02, 2006

I Can't Escape Myself

Existem dias verdadeiramente especiais em que nada, aparentemente, acontece.
Os tons e os cheiros, a luz e as formas, paracem-nos iguais a tantas outras.
Mas não são.

E a vida sempre nos parecerá eterna…



Hoje parei para mudar.
Hoje sinto o gosto de todos os algodões-doces que provei sem estar apaixonado senão mesmo pela vida.
Hoje revejo a infância entre praias e campos, cores e sabores.
Revejo o depois de tudo isso e o agora que olha para tras.

Tenho saudades de todas as histórias. Mas não se têem erguido para aqui.
Reparo a gaveta que já se encontra cheia e calculo o tempo de escrita em silêncio.
Mas não sei… este Verão, ao contrário das outras estações, não me amparou ao equilíbrio das letras.

Prometo voltar com tudo.


Mas entretanto outras plantas começam a ganhar vida em meu redor.
Acabo de assitstir a uma coisa que me deixou a pensar.

Hoje vou-me “despedir” da cidade e preparar as malas desta nova forma de vida que acabo de perceber.
Os bilhetes já estão na mão e já não há nada que me faça parar o desejo de ser apenas o melhor de mim.

Cansei-me de estar perdido em Tóquio na esperança que alguém me encontrasse.
Hoje vou apanhar um taxi e deixa-lo à deriva pelo mundo.
Se continuarei à espera de ser encontrado?
Talvez… talvez, mesmo que o nege, acabe por socumbir até que algo aconteça.
Não existem pessoas nem identidades perfeitas. Existe sim, e nisso acredito, em momentos que tornam a vida perfeita.
Mas o âmago afasta-se hoje dos meus cabelos, e na minha pele existirá o perfume de um sorriso pleno e um desejo profundo de que tudo, em mim e em vocês, vos corra bem.

Procurem-me ao cair da noite, hoje “despeço-me” de Tóquio.

“I'm sick and I'm tired
Of reasoning
Just want to break out
Kick off this skin

I can't escape myself”

segunda-feira, agosto 21, 2006

(des)equilíbrio

Estranho, dei comigo a pensar.
Entre as muitas arrumações que faço a esta casa, as mil caixas que tenho vindo a encher de coisas supérfulas e gente morta, lembrei-me de ti.

Provavelmente a explicação de tudo e nada, no nós, está no abismo entre as plataformas das nossas vidas.
Eu, desde sempre, a viver numa casa de cimento para me proteger a mim mesmo dos devaneios artísticos que sempre deram nome à minha vida.

E tu, a viver numa casa-de-árvore, para que toda a ciência que te rodeia não te castre os sonhos.
Estranho…mas, no mínimo, curioso.
(merde, sinto uma envenenada possibilidade de equilíbrio aqui…)

Enfim, ocorreu-me agora, e nem sei porquê!
Tinha que o partilhar!
Até já!

terça-feira, agosto 08, 2006

Violação


Que insanidade é esta em que me percorro o meu ser ao teu sabor?
Hoje tudo se revolta nas paredes mais finas de todas as minhas veias.

Quem te julgas tu afinal para poder invadir a minha vida levantando todas as questões e revolvendo todos os espaços?
Que notícia tão cruel foi aquela que a vida decidiu que serias tu a dar?

Não podes, não podes mesmo… não posso.

Sinto que me roubaram o sonho depois de o violar às escondidas. e que a notícia cai em mim da forma mais preversa possível! Mas sinto também que se o gostasse de partilhar teria contigo mesmo, agente invasor.

Sinto o meu altar devastado e roubado por ti e pelo espaço que por lá ocupaste na minha ausência.
Que direito tem a vida de tornar tudo tão bizarro em nós sem me pedir que questione?
Que direito tens tu sobre a minha vida se nela nunca estiveste?

Terás sorrido às mesmas pessoas, sentido os mesmos sabores, chorado as mesmas lágrimas?
O pior nisto tudo é que sinto que o fizeste…em leveza, sem sonhar, e que, sem pensar, me invadiste o descanso.

Que poder tens tu neste xadrez que me apanhas sempre de surpresa em todas as pausas que faço?
Sinto o teu sangue a correr-me nas veias como o olhar que serras em mim.
Se de um jogo programado se tratasse eu assumiria já, pela primeira vez na vida, o lugar de vencido só para voltar à paz que perdi. Mas, movido por uma fé estranha cujo nome desconheço, sinto que, mesmo que tu o queiras, será algo maior.
Será o pior de todos os castigos quando a vida acordar sobre o verbo que levianamente mal tratei.

Oiço o compasso de mil homens em marcha atrás daquela montanha.
Vejo-te no cume e apesar de me parecer que os comandas sei que em ti a vida também será perversa. Reserva-te a surpresa de ser albarruado por eles mesmos até mim.

Se outrora te vi como um fetiche oferecido pela vida nesta cidade hoje, depois das palavras, sinto que possa ser diferente o teu papel.
Assutador é o termo correcto para definir toda e qualquer possibilidade para além dessa.

Somos demasiado semelhantes para não provocar um alterar de movimento na terra.
Somos demasiado nós para que a vida fosse tão justa.
E só sei que somos, não sabendo afinal como o sei.
Se existem perguntas para as quais não encontro resposta essa seria uma dessa
“Como sabes?”
Não sei responder… só sei.

Sinto que ou fujo desse batalhão que se aproxima e adio todo o momento e sentimento para um futuro longínquo ou deixo-me albarroar e tudo vivo saboreando o inesperado em nós.

Acredito cada vez mais, em tudo, na perfeição da vida sobre todos os que nela vivemos.
Se tanto forcei a despedida num exaltar de letras, julgando-te longe agora e livre de mim e de ti… hoje percebo que existem coisas que terão o seu tempo a ser respeitado.
Chegou o tempo de decidir… e basta apenas a decisão mais simples.
São coincidências a mais sobre tanto sangue.
São códigos genéticos demasiado iguais no mesmo virus.

Tenho medo de perceber que és o outro de lado de espelho que não admito poder existir.
Tenho medo de estender a mão e acordar-te em mim atravessando toda a prata líquida durante a noite.

Tenho pena de tudo o que deixei passar.
Tenho saudades de tudo o que já soube e hoje elevo.

Sorri apenas e isso será o prenúncio da minha morte.
Quem és tu para quem nenhuma peça deixo escrita. Quem és tu a quem nada consigo dizer.
Morro ao sentir-te reflectir em mim.

Talvez esteja louco…talvez o mundo esteja coberto de razão e o meu cometa deva levantar outras rotas que não colidam com mais nada aqui.
Talvez.

Talvez a segunda morte esteja a caminho e tudo o que simbolizes seja apenas a mudança.
Ou talvez seja a lição de perder por uso.
Mas se assim for preparem as quatro paredes. Nascerá um assassino.

Prefiro o sangue de mim mesmo a correr-me nas mãos do que uma gota de destino preso no teu olhar.

Ou vivo isso, agora, aqui, hoje… até à exaustão da asfixia… ou não poderei viver sem morrer primeiro.

Preciso de apenas qualquer coisa.
Um igual apenas…
Um igual em ti.

Um espelho…mesmo que seja o mais temido de todos.
Um lugar morto onde reina a vida de todos os corpos em nós.
Um lugar de vida em qualquer uma das nossas mortes.
Um espelho, um reflexo…um gesto… um AGORA.


photo by Andrea Bitesnich

segunda-feira, julho 31, 2006

Bon Voyage

“Acho perfeita a vida nesta cidade…

Aqui vivi tudo… e em tudo a calçada, pela madrugada, me surpreendeu como se descobrisse algo de novo de uma forma infantil.



Ontém falava sobre a morte que nos tráz vida e hoje o verbo rebenta, nas paredes deste quarto de hotel em L.A, com sabor a vida.

Vou ter saudades tuas sem nunca te ter dito aquilo que o chão gravou para leres num pedaço de ânimo qualquer.
Longe vão os tempos em que, entre o barulho e a multidão de flamingos, te tentava perceber na profundidade de toda a simplicidade em ti.

Hoje, sabendo que por perto não estavas… encontrei outro “tu” em “mim”.
E é isto, esta renovação de fetiches consumidos que, ainda assim, esta cidade consegue oferecer num embrulho em surpresa. Afinal os fetiches são isso mesmo, são coisas para nunca serem vividas para além dos nossos cabelos.

Recordo a música e o momento em que te dirigiste a mim… recordo os passos e os gestos de todos os olhares que sempre me rodearam na tua presença. Recordo as palavras que, surpreendentemente em mim, me custavam a sair. Recordo as poucas que saíram… recordo as horas.

Como é estranha esta forma de vida.
Sempre procurei o nome de países em cada corpo… o mundo em cada gente. E um dia, muito antes de te ver ali, solene e na companhia de alguém especial, descobri que, na verdade, já nada me entusiasmava senão o ânimo da autenticidade de todos os corpos que com o meu esbarravam. Na verdade sempre quis muito em cada olhar… porque sempre procurei pelo mais simples de cada coisa. Pelo mais “invisível” de cada gesto e pelo mais “insignificante” de cada perfume.

No teu olhar e na tua forma, reli a história que sempre trouxe como mapa de vida.
As cores e as formas em aguarela mais naifes que tudo explicam com tanta razão.

Posso nunca chegar a ti como devia… mas sentirei sempre um género de saudade do desconhecido que julguei conhecer em ti.
Tudo se levanta no regressar da catedral de todas as fantasias lascivas desta cidade.
Agora, aqui, entre um cigarro e o amanhecer, já de costas para aquele espaço onde te “alimentei”, penso… e a notícia da tua partida, sem tempo, rebenta em mim como o arrancar de um galho. E isto ainda mais estranho me soa outra vez…
A areia que esse oceano arrasta será sempre só em ti. E na areia que ele já arrastou estarei eu, sentado, num género ou forma qualquer, a tentar que a vida não me apague da memória o olhar que, depois de tanto, ainda me surpeendeu.

Gente real de tão invisível…ou real de tão intocável viverá reinados de alguma forma em mim.

Desejo-te uma boa viagem e uma boa vida ao longo dela.
Eu também, porque até nisso a vida surge perfeita aqui, farei a mesma viagem…mas para um país diferente. Perto, mas diferente.

Quem sabe um dia se, no meio da multidão, algures no espaço, ao voar sobre um cometa, não nos venhamos a econtrar outra vez.
Seria bom sinal… seria uma boa imagem da perfeição da vida aqui, em nós.”

segunda-feira, abril 24, 2006

Silence I

No decorrer dos dias e dos acontecimentos, suspeitas e surpreendentes presenças levaram-me a ler coisas que me fizeram recordar outros textos, outros tempos, outras histórias.
Apesar de ter já quase um mês em cima desde a sua data de origem, aqui fica, porque não, mais um fragmento deste espaço.



" Estava ali sentado na minha poltrona branca quando me vejo projectado sobre a cama.
Estava calmo, em silêncio, deitado sobre a cama mas com os pés para a cabeçeira, de barriga para o ar e, num olhar estendido e invertido abraçava o sol que entrava pela janela de chapão na minha cara!
Aquecia-me, como gosto de sentir ao som de uma música qualquer.
Quando consigo estar só gosto de pensar… e tanto melhor, se for de pernas para o ar, com os cabelos a indicar de onde vem a força da gravidade, e a cara aquecida pelo sol.

Estava ali e lembrei-me que do outro lado do vidro há vida em marte. Lembrei-me do que tenho lido e vivido nos ultimos tempos. Do que tenho dito e feito…do que tenho ouvido e sobretudo, do que não tenho pensado.
De alguma forma, e para esta preciso de encontrar resposta, foi na tua história que encontrei o alento que perdera já há algum tempo. Estranho…muito estranho.

Hoje morreu o João…
Acordo e, entre raios de sol e um silêncio feliz oiço a notícia: “Até estou a tremer… Acabo de vir de casa da Rita, o João morreu!” dizia a minha mãe com aquele ar que só ela consegue ter a sentir a dor dos outros.
Não que eu fosse proximo do rapaz… se falei com ele umas 3 ou 4 vezes, entre as naturais saudações de vizinhos, fora muito. Mas era novo, era ingénuo e era mais um filho daquela pobre mártire que já enterra o 2 ou 3 (já nem sei),e era mais um João. Hoje morreu mais um João.

O dia foi estranho…estranho porque chegou a Primavera há uns dias e eu sinto que o meu Inverno não quer partir. Esteve calor mas humido…não choveu mas esteve sempre quase. Esteve aquela luz…aquela luz tão especial.
À pouco, enquanto estava sentado, foi exactamente disso que me lembrei…
Acho que passei o dia a acompanhar esta dança do tempo…do clima…da forma, da cor.

Estou assim, como o tempo…
Sei que a Primavera já chegou mas ainda não a tomo como certa… deixo que o meu Inverno se prolongue por mim abaixo porque é nele que eu me sinto acolhido. Por um lado sei que este Inverno já chegou ao fim e que com ele foi o momento de inércia… terei que respeitar o ciclo e seguir os impulsos da Primavera. Mas não me apetece…não hoje.
Apetece-me tudo e não me apetece nada. Estou assim, estou de outro modo qualquer.

Ao olhar pela janela avistei o possível sabor que a terra, já tão saturada da humidade, poderia assumir.
Apetece-me perceber e confidenciar o que penso às pedras da tua calçada.
Aqui a terra mostra-me que estás longe. Aí as pedras mostram-me que estou perto.
Quem era o tal casal de idosos de que falavas à pouco?
Que histórias carregam aqueles corpos já cansados de viver? Imagino-os baixos e fortes. Com um olhar cheio de morte, cheio de solidão mas bastante compreensivo.
Que corpos somos nós que encontramos a solidão em cada vértice de um qualquer desejo.
Às vezes o frio rasga-nos a pele e deixa feridas abertas.
A dor que elas nos trazem, trazem-nos também o inefável prazer de pensar. A análise do mundo cabe-nos a nós no auge das nossas pretenções.

No fundo da rua está um corpo jovem à deriva. Anda, vagueia, sem se despistar. Os seus ossos já conhecem o caminho e os gestos. Regressa a casa, mais uma vez, mergulhado no pior dos sentimentos.
Está dormente…já não sente os pés, as pernas, os braços…o tronco. Resta-lhe a dor dos pulmões que ainda se enchem de coragem para mais um gesto. Nas mãos procura a memória da última pessoa que as acolheu.
Sente a dor que nos tráz ao mundo…sente o parto de si mesmo.Sente mas, de tão dormente, não o exprime de forma mais entusiasta do que um suspiro, coreografado com um pestanejar dançante.
É a morte.
É a vida.

É o abandono dos nossos ossos, das nossas carnes…do nosso sangue.
Somos aquilo a que nos propomos…e enrolados no fascínio de mil coisas acabamos enliados na dor. Essa teia tão familiar e tão maternal. Na dor podemos mergulhar sem correr riscos porque nada nos será tirado. Morremos assim lentamente, sentindo o prazer que nos tráz a consciência de viver um espectáculo.
Mas ainda não serrámos os olhos, apenas nos alimentamos desta dança de andar sempre perto.
A agonia e a dilatação das nossas cordas vocais enche-nos o peito de ar. Sofremos em silêncio o preço desta felicidade esquecida.
Sabemos bem que estas contrações musculares um dia terão que se tornar noutra coisa qualquer. Sabemos bem que não passamos de mais um bicho que vive de metamorfoses. Sabemos bem muita coisa mas nem para tudo temos a resposta.

A beleza é o pronúncio dos nossos olhos.
Em tempos, à porta de uma muralha, mesmo sentado sobre as pedras, estava um velho.
A sua cara era deliciosamente esculpida com as rugas de muitos séculos. O seu cabelo era de um branco respeitável. “Chega-te a mim rapaz” disse ele.
Eu era uma criança mas jamais me esqueci o que me contara. Nunca o partilhei com ninguém mas no sentir do meu crescimento e na dor desta doença de ser pensante, acredito, cada vez mais, que me revelou um segredo da vida.

Carrego o corpo cheio de mim na esperança que outro corpo o consiga suportar. Estou desmaiado e sigo nos ombros de alguém que já não tem alma.
Sigo e vagueio no delírio tranquilizante de trazer os olhos semi-serrados. É a ausência de sol, é esta a luz… é o calor, é a humidade que se esbate na minha cara e no pouco de braços que trago a nu. Os meus cabelos já não me indicam o norte. Já não tenho diamantes para verter nem vontade de gritar. Estou assim, carregado e conduzido pelo vazio de uma alma que não me quer sequer ouvir.

De que me servem os corpos que trago vincados nas mãos… as cinzas daqueles que faço arder. As danças e jogos difíceis de decifrar… a loucura ou o abalão do erotismo pujante. Hoje estamos sós… por muitos fascínios ou por muitos delírios que estes corpos conheçam…estamos sós.

É a morte.
É a vida.
"


26.Março.2006

segunda-feira, abril 03, 2006

Âmago



“ Vagueando pelas ruas Pietro sabe bem que o tempo escassea. Não corre porque na vida sempre aprendeu que de nada valia correr quando a mesma distância se podia percorrer a um compasso normal. Trazia com ele um mundo de pensamentos sobre os seres a quem ele cedia o destaque no seu cartaz.
Na mão levava um livro em branco porque em branco ele gostava de manter os olhos mais curiosos.
“Mas quem me diz a mim afinal que eu tenho que optar por isto ou aquilo senão eu mesmo?…se para mim não tem qualquer importância o rótulo em mim, porque raio não posso viver bem desta forma?…ora ora caro amigo… para mim já existem demasiadas prisões, como as de não ter asas, quanto mais estar a comprar outras tão mal esculpidas pelos outros que nada sabem.” – dizia ele num tom irónico mas sereno ao seu amigo de grandes assuntos ao caminhar para o café.

Junto à estrada, sempre a pisar canteiros, decidiu parar.
A luz da cidade estava naquele exacto tom que não existe em mais lado nenhum.
O barulho dos carros confundia-se com os dos pássaros que anunciavam o que ali vinha.
Era ele, do outro lado da estrada.

Deserto e petreficado ficou a contemplar a inocência daquela figura. Só um louco estaria naquele local à espera do nada.
Parou um carro e a inocência transformou-se em vinho… o vinho em alcool puro…e o alcool em sangue.
Sorrira-lhe minutos antes de entrar no carro. Aquele sorriso de quem sabia que outros olhos o viam e nada fazia, no encenar do seu gesto, que o denunciasse.

Iria começar a correria…iria mudar o compasso. Ele estava por perto e a viagem aproximava-se da insanidade naquele vinho.
Sorrio, olhou para o seu companheiro de caminho e disse: “Bem, estava a ver que nunca mais chegavamos aqui hoje. Ao que esta cidade nos obriga por um café decente.” …“

sexta-feira, março 24, 2006

yellow line



E se eu fecha-se a mão e, movido pela velocidade assassina do teu cérebro, dirigi-se o punho ao teu estômago?
Aos poucos vais reagindo ao menos provavel dos seres nesse teu universo.
Aos poucos sabes que te observo e que te consigo ouvir.

Subitamente estavas ali… no local mais inesperado, a fazer o menos provavel de ti.
Surpreendente forma de mudança. Admiro-te, admiro-me.
Em tudo e com tudo és um ser bizarro.
Hoje não está sol, mas sente-se o calor, a humidade que insite em se fazer senir na minha pele. Estranhamente isso não me irrita. A Primavera ja chegou e começo a sentir que este tempo vai mudar. Este e muitos outros. Aproxima-se a hora de cometer uma loucura, correr um risco…

Em tempos alguém que me conheceu bem dizia
“Vives permanenetemente sobre o risco amarelo. Danças em bicos dos pés uma dança que te enche de prazer e aos outros seduz. Danças sempre, entre variações de intensidade, correndo todos os riscos de perder o equilíbrio e cair.
E se cais?Para que lado será dessa estrada?Em que sentido fica o teu corpo no asfalto?… Nunca pensas sem agir nem nunca ages sem pensar. Mesmo que o traço não seja contínuo tu percorrers, incansável kms e kms, o traceçado aos pulos para que tunca toques no alcatrão.
Vives sempre sobre o risco. Vives assim um grande circo em que o teu lar é o trapézio.
Pensa bem onde te leva esse risco e pensa bem nos riscos que ele te faz correr.
Não te quero ver parar mas também não te quero ver morrer em bicos dos pés.
Mas que digo eu afinal?…a quem digo eu isto?
Seria a tua morte não é?
Na verdade bem sei que é esta a tua forma de viver e que de outra forma o teu sangue parava nessas veias tão salientes de gastas.
Pois então dança, pula, sempre em bicos dos pés… e se algum dia caires limita-te à imitação de qualquer mortal – levanta-te!”
E hoje sinto que, ao olhar para ti, que não vivo só este meu circo. Tu também o vives, à tua forma, noutra tenda, mas da mesma forma… sempre em bicos dos pés.

BlueFox II


Tornou-se numa boa imagem esta possibilidade de sair do meu espaço e percorrer os alheios.
Não sei onde vou dar mas isso, pela primeira vez, nem sequer é equacionado à partida.
Sinto que, por si só, esta ja será uma viagem inteligente… mesmo que trilhando os caminhos mais suspensos da loucura, mesmo que iluminado pela tua possível demência e, com isso, enaltecendo uma qualquer variação em mim… mesmo correndo os riscos mais estúpidos destes olhares atentos. Ja decidi, vou. Leve isto onde me levar, dure o tempo que durar, sinta o perfume que sentir, aproximando-me do mais ácido ou do mais doce.

És uma personagem estranha… mas observo-te.

Observo-te porque me revejo nesse olhar esguio, nesses lábios sempre húmidos. Nessa expressão de vazio para proteger um mundo inteiro que só tu carregas.
Nesse mundo calculo uma força imensa. Um grito contido que por vezes se solta em estado líquido mas que, ainda assim, raramente conhece público.

Contra tudo e contra todos, contra porcos e casacos de forças forrados a diamantes eu sinto que será uma boa viagem.
Nunca, jamais, eu pensei que iria fazer uma coisa semelhante.
Corpo virtual, que fascínio é este?Que razões ou certezas me trarás tu se, na verdade, o aroma é o da mais confusa e perigosa via-rápida.

sábado, março 11, 2006

BlueFox


Seria hoje a noite perfeita.
Seria talvez a noite para eu dar início ao descortinar dessas tuas texturas. Quantas camadas de pele possuis.Quantas camadas de linho estão cravadas nesses mantos.
Hoje seria a noite perfeita para despir-te no palco de todos os públicos e com isso prender a tua existência nas minhas mãos.

Hoje esbarrei-me com aquilo que me fez prestar-te atenção.
“Girls”, que título tão possivelmente teu.
Há séculos que não ouvia tamanha imensidão mesmo que coberta desse vazio sucular.

Vou contar a história destes solos.

Sempre me fascinou a análise que nós, enquanto seres inteligentes, podemos fazer de tudo e todos aqueles que nos rodeiam sem que, para isso, precisemos de mais nada para além de um estímulo qualquer.
Sempre me considerei uma criatura que, embora por vezes atordoado, tinha o provolégio da consciência ou até mesmo da consciente falta dela quando assim o permanecia. Ou seja, em tudo e para tudo, um ser, uma criatura, extremamente afortunada.
Por muito mal que a vida corresse seria sempre feliz, porque pensava, porque vivia tudo e todos da mesma forma, o mais possível até me intoxicarem as veias.
Viver só fazia sentido quando a adrelanida despara sobre os nossos corpos e nos abala com o bombear de mil veias a intoxicar de tanto veneno sobre tanto sangue.

Porque raio dicidiste sorrir-me naquele momento?
Foi o tiro que rebentou com os meus ossos já há muito solidificados.

“ O que é que a raposa diz?”

E foi exactamente isso.
Eis a pergunta que ninca se faz a uma raposa velha quando, ainda por cima, a resposta será dada por outra raposa igualmente vivida.
Nunca pensamos em encontrar tamanha semelhança de corpos, tamanha semelhança de profundidade deste nosso olhar.
E foi isso, foi isso que nos fez sentir o disparo.

O disparo azul sobre a nossa pele avermelhada.