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quinta-feira, outubro 02, 2014

Kimono

Sempre soubemos de onde vimos, sem precisar de tantas certezas assim em relação ao tão expectante “para onde vamos”.

Somos como filhos de pedras parideiras de ónix, que se predestinam ao um destino contrastante. Mas seguros de que, no fim, teremos recolhido as melhores tonalidades do mundo.

O que acontece é que somos e seremos eternamente os príncipes do tudo. De "tudo" faremos qualquer coisa. Sempre. E dançaremos sobre o "nada" com os bolsos cheios de coisas, em kimonos onde se escondem, nos forros, as mais extravagantes estampas, que discretamente nos descrevem crimes com a arte do outro lado. Perseguiremos a visão de Hokusai, quando nos tentamos consolar com os detalhes de Murakami.

Mas esse allure tem um preço. Que adoramos, ainda assim, por puro masoquismo. 

A estação fria torna-se fundamental para que todos os cenários se alinhem com o luto do vinho e coreografia em nós. Tudo se assume e se organiza na mais perfeita órbita natural, todos os anos. É sempre assim. E não nos cansamos. Por vezes não somos mais aquilo. Não queremos ser. Mas ao repararmos bem onde estamos, percebemos a inevitabilidade da estação quente e de repente afinal... é só o Verão. O que também faz todo o sentido. Naturalmente.

Há um expressão orgânica que prolifera no nosso passo. Mudam-se as estações, mudam-se as vontades, os desafios e mudamos de casas. De espaços, de músicas. Tudo muda e nós assistimos a esse crescimento em nós de plateia. Sempre de plateia. O palco torna-se apenas e só um agente embaraçoso, para o qual deixamos o lugar a quem de direito. Os menos complexos. Os que, afinal de contas, só precisam de dizer ou fazer.

Nós não. Nós fazemos e dizemos sem precisar. Nós construímos a ação e o verbo ao sabor da nossa própria vontade naquele exacto momento. Provocamos a vida, e adoramos abanar toda e qualquer coluna que se assuma como vertebral por perto. Abanamos por saber que não cede. A vibração é afinal necessária para quebrar monotonias. Ou simplesmente porque afinal queremos revelar a nós mesmos, o que já suspeitávamos à muito de cada uma daquelas vértebras.

E depois viramos as costas e vamos fazer outras coisa qualquer. Vamos descobrir um restaurante novo que nos possa bajular com sabores, ou simplesmente ser leves sobre uma paisagem bonitinha qualquer. Eu ainda ontem dei comigo profundamente entretido a passar as mãos pelas cadeiras nórdicas que namorava online.

E dizer que isto é complexo é pura descrença no seu reconhecimento próprio de inteligência. É ser-se o mais aborrecido que possa existir. Porque não há na verdade nada de complexo aqui. É tão simples.

Ainda não me decidi ou encontrei entre o casamento e o divórcio, mas estava aqui a pensar... O que é que vamos vestir para a festa na terça? Apetecia-me um kimono novo. Preto, com estampas douradas e verdes. Mas vamos cedo por favor. Na noite anterior terei a estreia do Diogo no seu primeiro número de travesti e, sendo importante para ele, não poderei faltar.
Aquilo começa só pelas 3 da manhã. Ou seja, não dormirei nada nessa noite, vou trabalhar morto, e na noite seguinte lá estaremos nós.

A ver se hoje à noite penso nisso. Apetecia-me mesmo um kimono novo.

Mas bem... Olha meu amor, vou-me embora que tenho que ir buscar os sapatos que encomendei e ainda dar um pulo no lançamento de óculos da Joana.

sábado, abril 12, 2014

Les Mauvais Garçon x La Grande Belleza


Tinhas tanta razão Mrs.Dalloway. Como sempre. Tinhas a razão e perspicácia do teu lado.
Estava um sol inacreditável e uma temperatura que nos rasgava da pele o inevitável. A vista sobre Lisboa tinha a mesma cota que aquele banco de jardim na Villa Borghese, lembras-te? Ironicamente ele também se sente em casa lá.

Tinhas razão. Fui encontra-lo no meu lugar, no meu velho cadeirão. Naquele irremediável Salão Pombalino vazio onde o som cheira a silêncio. Onde a vista pela cidade é soberba. Onde os azulejos azuis se deixam reflectir no chão de tábua corrida, e as paredes brancas fazem deslizar a luz até ao topo do pé direito alto.

A cadeira já não era a mesma. Era agora mais simplificada e forrada a cinza, com os braços a madeira envernizada. Era uma versão qualquer anterior à que todos usam do Van der Rohe. E não, não estávamos na vulgaridade de Barcelona. O tempo tinha passado e não deixava de ser irónico voltar a entrar naquele espaço.

Ele ouvia a mesma música que eu. Para além dos mesmos álbuns, ele ouvia a mesma rádio. Sentia a mesma sensibilidade ao passar-lhe mão na nuca. Usava um perfume com os mesmos ingredientes base. Era calado por opção. Quando eu não tinha opção. Era bonito mas fazia-me sentir que o devia fazer-se sentir ainda mais bonito do que já era. Tinha o traquejo e a malha certa. Usava as mesmas cores que eu. Tinha os dedos finos e gostava de se imaginar mais forte do que era naturalmente. Era gélido mas nos seus lábios derretia-se uma imensidão de ilusões cinematográficas. Fechava os olhos quando o beijava e transformava-se numa criatura frágil mas realista. Não gostava que eu sorrisse quando me beijava porque sempre entendeu que eu me estava a rir. Era delicado mas ágil. Falava a nossa linguagem e percebia até a minha cadência pelo náutico em nós. Não iria dar trabalho nenhum. Ansiava pelo Verão. O Inverno tinha sido rigoroso para todos e ele não escapara a um atropelo que tentava esconder por uma só razão. Desta vez fora ele a vítima. Tinha o humor negro e a acutilância dos nossos momentos mais criativos.
Tinha igualmente um sentido de observação cirúrgico e nada lhe escapava entre os dedos como gostava de imaginar. Cheirava bem. Tinha um som ensurdecedor misterioso por detrás do seu silêncio. Era bonito e tinha um nariz torto num ângulo que só eu repararia. Gostava dos mesmos filmes que eu. Dos mesmos jardins. Era do dia e não da noite. Mas desde o início que sempre te disse: "para além de todos os factos óbvios, ele tem qualquer coisa de errado que ainda não percebi bem".

Sentei-me perfeitamente consciente que do que estava ali a fazer. Como me ensinara a Piaf, vamos sempre preferir o fim ao feio.
Deixei-o por breves instantes ganhar fôlego e encher o ar com palavras cuja temática poderiam até abordar o tempo. Servi-me de mais um copo e recostei-me como quem se prepara para simplesmente ouvir.

Ele ganhava tempo e eu senti que não haveria nem mais um segundo a perder.
O que é que eu estou aqui a fazer afinal Matthew?” perguntei em voz baixa.
Ele percebeu exactamente ao que me referia e, com o jeito de uma criança com uma agulha nas mãos deixou-me o tempo para ser eu a atalhar caminho.

Estou aqui porque acabou e me vais querer explicar de alguma forma o que aconteceu. Estou aqui e não será na verdade por mim que me convidaste, mas sim por ti. Para que no fim, e apesar de tudo, eu guarde uma boa imagem tua e uma elegância no trato que paralisem qualquer possibilidade de te denunciar como um comum vulgar que tanto temes vir a ser. Não é?

Essa é uma forma muito resumida e bruta de colocar as coisas, não achas?

É esta a verdade e só esta. Não consegues dar mais um passo em frente porque ainda estás paralisado na história que trazes contigo. É normal, não tem mal nenhum. Tentaste mas afinal ainda não o esqueceste. Nada disso tem mal. O único erro foi teres-te dado conta disso a semana passada e desde então me teres deixado em banho-maria sem saber o que fazer. Nisso esperava outra coisa de ti. Sempre preferi o fim ao feio e devias tê-lo denunciado antes mesmo de surgir o vulgar.

Seguiram-se então as horas da tarde e a honestidade em paz entre dois homens. Seguiu-se o reencontro que faria sentido e nesse momento dei comigo perplexo com a ironia de tudo ali.

E não era a ironia fácil. Os factos irónicos de, afinal de contas, mais uma vez e sem saber, os homens de camper e bigode egobust se fazerem sentir nas pontes marcadas desta vida em Lisboa.
Não. Não tão pouco a ironia de ele mesmo não saber que conheço o seu objecto de amor-ferido muito melhor do que ele possa pensar.

Talvez um pouco o rever de camarote todo aquele ballet rose que noutros tempos patrocinei. Mas ainda assim não.

A ironia soberba que ele não se deu conta, e que me escorre até então pelos lábios, é a o contraste das cores do crepúsculo que repentinamente se tornaram visíveis em mim, ao aperceber-me de que o que estava a acontecer era uma repetição mas agora em papeis contrários.

Dá-se o arrepio da constatação e ouve-se as cordas do cello que tinha deixado esquecido lá atrás. Ele era o perfeito reflexo do que fui. Ele vivia aquele momento que obriguei um outro a viver.
Não haveria nada a fazer senão esperar que o tempo naquele corpo, lhe lambesse a ferida a céu aberto e o levasse onde cheguei anos depois. Mas não deixava de ser vertiginoso o assistir aquilo tudo de novo.

Sete anos antes, depois de um jantar no Les Mauvais Garçon em que o David fechou a porta e deixou acabar o vinho sem tempo naquelas poltronas velhas de um cabedal cansado, acordei numa manhã igualmente cheia de calor e tinha uma mensagem que deixaram para mim.
Ontem foi inspirador, tu és inspirador.
Fico assim....com vontade de absorver, de venerar o que é belo sem medo do que é superficial, com vontade de ouvir uma musica bonita e a preferia-la a uma conversa sobre a fome.
Os pormenores da vida devem ser desprezados, são ordinários.
Obrigado por tudo.   R.

O Matthew tinha-me feito regressar sete anos no tempo sem saber. Afinal eu era tão mais novo e ele ainda tinha tanto para aprender. O que nos distinguia agora não era no entanto a idade, era uma só coisa. A liberdade. A liberdade que só se conquista com a vida. E sete anos depois o olhar para trás levou-me numa grande viagem. Que no fim me deixa o travo de toda a La Grande Belleza.

Little Joy - Evaporar


segunda-feira, maio 28, 2012

Smoking Crash


Às vezes tinha a sensação que vivera toda a vida em aeroportos. Conhecia os recantos de tantos quanto os das casas onde fiz vidas cruzarem-se com a minha.
Não entendo a beleza como a entendi. A negação do âmago e da alegria num corpo só, é de uma monstruosidade estética que não consigo aceitar de que possa fazer parte algum dia. 



O medo é uma variante da corrente sanguínea que nos diminui para nos podermos superar em nós mesmos. Com o estalar dos ossos e o esticar da pele, num arrepio de vertigem que nos traz o calor do sangue que ainda nos corre pelas veias, e finalmente sentimos a tão aclamada liberdade. Mas não. Não somos efetivamente todos iguais.

Seria um aparente dia normal. Daqueles que por nos parecerem tão normais nos alertam para uma possível catástrofe. Daqueles cujo equilíbrio não tem qualquer melodia ou cheiro. Daqueles estranhamente vazios.
Mas não. Efetivamente não se veio a revelar um dia normal.

Estava parado no topo de uma das colinas da cidade quando o sol e o silêncio me rasgaram a mente e as vozes inconfundíveis de outrora se fizeram ecoar.
Virei-me e não vi ninguém. Estava ali a sós. Completamente a sós.
O silêncio e o calor na pele não me conseguiram agarrar à terra, e no piscar de olhos que evitei, dei um passo em direção ao vazio.

Poderia ter regressado à pintura. Poderia ter regressado à fotografia e ao desenho, onde o poder da cor transformou durante anos a minha realidade. Mas as mãos estavam imóveis e o olfato sem cor.
Desde aquela noite em que nos vestimos de preto, e usámos as melhores manobras para cumprir todas as expectativas de uma imagem, que não consigo entender o que aconteceu.

Lembro-me de entrar no carro negro e incorporar a personagem com sorrisos e galanteios. Lembro-me do perfume da vaidade que naquela noite não havia meio de me assentar sobre a pele, nem mesmo quando atravessei a passadeira vermelha.

Os flashes e aqueles projetores violaram-me a mente. A cada disparo, mesmo já não sendo para mim, sentia o reerguer da personagem em mim.
Recordo-me da arrogância de um agente que ferozmente garantia o tempo de antena a mais uma desgraçada que mal respirava no vestido que a obrigaram a vestir.
Tudo aquilo, naquela noite, já não era mais o meu mundo. Havia qualquer coisa ali de repetição e desespero que me elevavam a rejeição no estômago.

Entrei e pensei que não te tinha visto chegar. Quando me sentei avistei-te do meu lado esquerdo.
Olhei para o telefone e pensei no quão estranho estava a ser a demora de uma resposta à carta que tinha escrito a nu, àquele outro que cada vez mais parecia não ser quem eu esperava fosse.
Voltei a olhar para ti e elogiei a tua amiga. Estava elegantíssima.
Tu nem reparaste na minha presença nem por um segundo.
De repente viras-te para trás e eu consigo perceber a insólita roupagem que trazias. Não parecias tu. Parecias outro que outrora criticavas sobre a personagem em mim.

A princípio rejeitei a ideia. Não sei se por ciúme ou por pura precaução.
Os pensamentos começaram-me a assombrar de tal forma que ao primeiro intervalo abandonei a sala e vim para a rua.
Chamei o meu carro e sem hesitar afastei-me do daquela noite ali.

No caminho para casa toca o telefone e era o Louis.
- Acabo de chegar a Lisboa e, no aeroporto, cruzei-me com o Ulliel que estava embarcar para Miami.
- Desculpa? 
- Sim, não sabia que ia voltar e ele estava estranho e mal me falou. Como se fugisse de alguém ou de alguma coisa. 

Conheci-o há dois anos numa miragem do Quartier des Enfants Rouges. Mais propriamente numa festa em casa de um desses novos cineastas com a mania que era alternativo mas que na verdade não passava de mais um menino do papá.
Era uma casa fabulosa no 3e arrondissement, que parecia tirada de uma imagem do final do século das lutas pela liberdade entre burgueses abastados mas negligentes pelo apelo a uma cultura maior. Os pais tinham viajado para Lisboa e ele achou que a casa precisava de uma vida lasciva qualquer.
Lembro-me dele a um canto na sala mas perfeitamente intrujado. Não me parecia acompanhado e tive a certeza quando me fitou o olhar.

Naquela noite falámos até amanhecer e eu, como tinha acabado de regressar de Biarritz e decidido mudar de bairro durante as ferias, achei que aquele seria o bairro perfeito. Ele, por sua vez, estava igualmente a viver um divórcio complicado e tinha acabo de chegar a Paris onde procurava um refúgio naquela cidade por tempo indefinido. Levou-me a ver um espetáculo do Alain Platel onde o mundo fazia o mesmo sentido para ambos.
Vivi com ele 7 meses naquele bairro até que um dia, ao regressar de Nova Iorque, cheguei a casa e ele tinha apenas deixado um bilhete.

Um ano depois encontrei-o em Lisboa, no Lux, e ao fugir por entre a multidão mandou-me uma mensagem que só dizia: Desculpa.
Soube por entre amigos que tinha tido uma recaída e que tinha viajado para fugir a um amor pérfido ao qual sucumbia como a morte. Mas até hoje não consegui entender ao certo o que aconteceu.

- Eu também não sabia. Aliás, o estranho é que ainda ontem falei com ele ao telefone e tínhamos combinado jantar amanhã. Não percebo. 
- Pois, que estranho… Mas olha, vou deixar as coisas a casa da Isabelle e posso ir ter contigo se quiseres. 
- Claro, eu estou a caminho de casa também. Dá-me uns 20 minutos e encontramo-nos lá. 

No caminho a imagem que tinha de ti ia ficando mais confusa. Que sentido fazia tudo aquilo afinal?
Se por um lado rejeitava aprofundar por receio de dramatizar, por outro trazia um estranho amargo de boca que não me permitia abandonar as conclusões.

Recebo uma mensagem no telefone.

“Onde estás? Perdi-te de vista e já não me consegui sentar ao teu lado. Temos que falar porque preciso de te contar o que ouvi.” 

O meu estômago deu a volta e pressenti que era sobre ti. Respondi que me tinha sentido indisposto e estava de regresso a casa, desfazendo-me em desculpas e evitando a pergunta.

“Que grande merda! Mas estás bem? Falamos amanhã então.” 

Estava já a chegar à Avenida da Liberdade quando liguei à Mrs. Dalloway a contar-lhe o estranho de tudo aquilo.

- Tens a certeza? Que estranho… Não percebo – disse ela.
- Não te sei explicar, é um feeling. E cheguei a enviar-lhe uma mensagem mas ainda não respondeu. Mas também pode ter o telefone sem som para não interferir com o espetáculo, não sei. 
- Desde o funeral que sinto que não andas bem e que não seria má ideia tirares uns dias e vires ter comigo. 
- Minha querida talvez tenhas razão mas não sei se consigo tirar uns dias agora. 
- Vem, faz-te falta. E é verdade, o outro disse-te alguma coisa? 
- Nada. Quer dizer ligou-me e disse-me que deveria escrever um livro, achas normal? 
- O quê? Mas antes ou depois de ler a carta. Não percebi, não lhe perguntei porque me sinto tão envergonhado com aquilo. Mas pelo contexto ele referiu que tinha estado a ler artigos antigos que publiquei na velha época. 
- Que medo! Isso não pode trazer coisa boa? 
- Pois não sei, mas incomoda-me ter-me exposto tanto e no fim sentir que não há uma palavra do lado de lá, sabes? 
- Claro, percebo-te perfeitamente mas isso também é bom. Assim ele só prova o como funciona aquela cabeça. 
- Pois… 
- Onde está? 
- Estou já na Avenida da Liberdade a caminho de casa. O Louis vai lá ter. Chegou à pouco a Lisboa e sabes que não dorme sem um copo de vinho e um relatório da cidade na sua ausência. 
- Ai que bom. Então vou-lhe mandar uma mensagem para ele te convencer a vir ter comigo a Versailles. E não aceito um não. 
- Vou tentar. Na verdade acho que nada me faria melhor agora nestes dias. 
- Então vá, ligo-te amanhã. 
- Beijo 

Lembro-me de desligar o telefone e estender a cabeça sobre a janela e estar a ver o céu por entre as copas das árvores. De me recordar das gargalhadas que dávamos com as nossas diferenças quando ainda vivíamos em Faubourg Saint-Denis. Daquela noite lembro-me ainda de fechar os olhos e sentir o cheiro forte do teu perfume verde que se entranhava na minha roupa e na minha pele e viajava comigo por onde quer que fosse.

Depois só me lembro de uma súbita travagem em grito e de um embate ensurdecedor. À memória recorro ainda hoje às luzes das sirenes da ambulância, que rasgavam o carro enquanto eu, imóvel, apreciava o silêncio absoluto da sua dança no teto.

Uma semana depois trouxeram-me uma revista social. A imagem. Lá estava a imagem em que anunciavas em surdina a companhia que escolheras para me substituir.

Fiz as malas para ir ter com ela. Efetivamente parecia-me já nada poder fazer aqui, e o descanso era agora imposto pelos especialistas da matéria.

Mas ainda assim ao fazer as malas perguntava-me que sentido teria aquilo tudo e sobretudo, até onde é que me posso ter enganado tanto em relação a ti.

Já no aeroporto comprei um jornal das artes. Li que vais lançar o teu novo projeto em breve. Soou-me tão estranho não estar por perto, soou-me tão mal tão pouco saber.

Sentei-me no aeroporto à espera da minha vez. Liguei-te duas vezes e não me atendeste, não me devolveste a chamada nem me enviaste uma mensagem.
Num resumo forçado espantei-me com a leviandade que com que desapareces.

Sentei-me e fechei os olhos até os segundo virarem minutos, e os minutos cumprirem as horas que me iriam arrancar dali.