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segunda-feira, maio 04, 2015

l' libertango malédiction

Tenho pouco mais do que breves minutos para condensar num gemido o que aconteceu, mas tu vais-me entender. Ou não, porque somente a memória permanece deste lado e com a tensão de um elástico velho que já sem cor se deixa imiscuir.

Ontem fui interpelado pelo desafio da memória quando o animal que em mim habitou me seduziu a ver o Saint Lauren. O não autorizado, sempre. Nada a declarar de especial. O meu gosto hoje é bem mais sofisticado do que uma interpretação demasiado vaidosa e francesa que deixa de parte o mais importante daquela criatura, a beleza que emergia da mais belo dos feios e recriava o mundo com um toque de luz que só mais tarde vim um fazer. Suicidou-se entretanto e a multidão cega continua sem perceber ao certo a enormidade do seu desaparecimento.

Deitei-me contudo cansado e com alguma saudade. Mas deixei-me dormir.
Levanto-me mais cedo do que o habitual e fui para a torre onde agora não habito.
Saí à hora de almoço para ir a casa fechar uma janela e esbarrei com ela. Joana.
A mulher que nos venceu a todos enquanto dormíamos sobre a nossa própria vaidade.
Ela segurou-te daquela imensa que outrora fazia jus à força do seu nome original. Defendeu-te de ti mesmo e trouxe um vocabulário seguro nas palavras que naquela altura te arranquei de noite.
Chamou-me com aquele ar doce inigualável e a primeira coisa que ouvi dentro de mim foi o “não a subestimes” – nunca mais esqueci esta frase quando, numa noite em Paris, o meu telefone tocou e ao desligar daquela voz senti o estalo de uma jogada perfeita que me paralisou toda a noite.

Eu estava vestido com um casaco nórdico cujo forro revela a ironia do meu último divórcio no tempo. Não te cheguei a falar dele condignamente. Nem a ela lhe contei mais um falhanço.
Visualizei-a entre as crianças e um casamento demasiado imperfeito para ser infeliz.

Olhei para o relógio e resumi o encontro em menos de nada. Entrei no carro e de repente o rádio cuspiu-me, com aquele que era o perfeito batimento para embalar a memória. Um velho tango, claro. O vosso tango. Soltei uma gargalhada e senti-me nefastamente vivo outra vez. Como se das entranhas emergisse em urgência o animal reluzente e boémio que era no nosso tempo.

Depois fiz o que tinha a fazer e, já ao final do dia, deixei-me levar pela vulgaridade do cansaço e um vida comum as nós os três. Temos tudo sempre. Mas já nada tem o mesmo sabor, nem nenhum vinho voltou a ter o mesmo corpo.

Gosto de ti assim como estás. Gosto dela assim como se recriou. Mas às vezes sinto a falta do que fomos porque no reflexo, acho que me via melhor.

sábado, fevereiro 21, 2009

Let’s dance tonight


photo by Tiago Veiga
at Hotel Farol Design // Cascais

"Move your body
Get me from across the floor

Everybody’s watchin’
But I just wanna give you more
"


Uma tarde absolutamente perfeita.
O calor exacto, a brisa moderada. O mobiliário sofisticado. A paisagem absoluta. O Mar.
Saiu do quarto de hotel e entregou-se à esplanada.
Recosta o pescoço e fecha os olhos para que aquele ar puro lhe invadisse a cara.
O sol aquecia-lhe as pestanas.

- Boa tarde, vai desejar alguma coisa senhor?
- Sim… um copo de vinho branco, por favor.
- Concerteza.

O empregado, vestido de branco, parecia a única pessoa para além dele naquele imenso continente de água.
Quando regressa com o copo informa-o:

- Tem uma visita na entrada. Devo dizer que está a descansar ou acompanho-o até aqui?
- Quem é?
- Disse apenas que era o seu advogado.

- Meu advogado, que disparate. Hum… Ele que venha, obrigado.

- Concerteza.

Nem foi preciso mais do que um segundo para saber de quem se tratava. As formas estúpidas que as pessoas inventam para passarem despercebidas. Ridículo.
Avista então a personagem a chegar, acompanhado pelo homem de branco sempre simpático.
- Bom dia. Não será um pouco cedo para beber?
- Boa tarde e já passa do meio-dia. Senta-te.


O empregado interrompe para perguntar ao “advogado” se desejava alguma coisa.
Uma estúpida garrafa de água, tão previsível.
- Como é que sabias que eu estava aqui?
- Usas-te a conta da minha mãe.
- Ai foi?…como eu estava embriagado. Já passo na recepção para repor isso. Se bem que ela bem me deve isto e muito mais.

- Talvez não tivesse sido necessário vires acompanhado.

- Uhh… cíumes? Não te parece um pouco tarde para isso?

- Não estúpido, a questão é que, para variar, ela ficou a pensar que tinha sido eu.
- E poderias de facto… Mas não terá sido por tão pouco que aqui vieste.
- Foi, porque não é pouco. Como querias que não viesse cá? Tens noção da confusão em que me meteste?
- Porquê?

- Porque “a companhia” foi um homem. Um homem. E já deverias saber que até isso iriam dizer.
- Sim, eu sei.

- Sabes? Então porque o fizeste? Tu estás-te completamente a cagar para tudo, não estás? Não passas de um menino mimado que nunca tem que pensar nas consequências dos seus actos.
- Achas mesmo? Apesar de embriagado, meu caro, garanto-te que “as consequências” não me passaram de todo ao lado.


Bebe mais um pouco do fabuloso vinho que, de tão fresco, o fazia saborear cada molécula da sua vaidade.

- Com quem é que vieste?
- Queres mesmo saber?


E um sorriso verdadeiramente saboroso apodera-se do seu rosto. A vida tinha, de facto, momentos gloriosos de perfeição em si. O momento era tão emocionante que quase sentiu um arrepio na pele. Era a beleza da vida em si.
Era a realidade que finalmente se materializava depois da montagem da fantasia.
- Claro. Já agora gostava de saber com quem é que eu, supostamente, vim. Eu conheço?
- Sim…claro que conheces. Aliás, como te disse, poderias ter sido mesmo tu e não haverá forma de suspeitar que tenha sido eu se perceberes a naturalidade do momento.

- Não estou a perceber.

- Meu querido… na verdade, até poderias ter sido tu mesmo, porque eu trouxe o teu namorado.


O terror apoderou-se do cobarde que, mesmo envolto em pseudonimos, não consegui esconder o choque.
Matthew volta a recostar-se e termina o seu vinho.
Sorri e levanta-se abandonando o corpo petreficado no sofá.

- Vou ter que ir caríssimo. E não devias ficar desapontado comigo meu querido. Eu avisei-te. Mas olha, vou ter que te deixar. Deves estar a precisar de pensar e eu tenho que me preparar para mais logo. Hoje apetece-me dançar. Tem uma boa vida e, já agora, agradece à tua mãe por mim. O serviço aqui é fantástico.

sábado, setembro 13, 2008

Electric Feel

Às 20h já no vintage bar, chega Piaf deslumbrante que rapidamente se juntou ao vinho que já Kat e Harry partilhavam. Os veludos e as peles, os tons fortes e apaixonados de uma época dividida, aperfeiçoavam o toque do imenso tabuleiro de xadrez onde se debruçavam à gargalhada e tantas vezes em indignação.

Foram jantar e Piaf conduz os corpos já elaborados até "ao inferno".
Cocktails e brindes, música e jogos de sedução. Gestos e histórias. Gargalhadas e confissões.
No "comboio do mal" o três celebravam de alguma forma a imensa juventude que lhe corria nas veias de prazer.

Harry afasta-se da pista de dança e dirige-se à casa-de-banho já aflito de tantos líquidos.
Na escadas, ele...
Já se conheciam, sabiam perfeitamente quem eram, nunca se cumprimentavam. Mesmo depois daquela "festa fúnebre" onde foram oficialmente apresentados.
Avança e decidido fita-lhe o olhar estendendo a mão. A cortesia era um gesto que ele, sem saber porquê, esperava daquela personagem.

- Olá, tudo bem? É a fila?
- Olá, é sim...
- Fuck, ainda te tenho à minha frente.
- Troco o meu lugar por uma bebida.
- Que bebida?
- Cuba-libre.
- Aceito.


Uma agradável surpresa, uma noite "fucking fabulous" como gostava de dizer. Mas já no taxi rumo a casa deu consigo a pensar: "Hum... quem diria."

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

AMADORES



Depois de um dia cheio de trabalho dois amigos encontram-se para beber um bom vinho e, com o seu veludo, respirar sobre a vida.
O salão nobre daquele colossal edifício teatral encontrava-se a sós com eles.
As cadeiras barrocas forradas de veludo vermelho amparavam-lhes o cansaço, e o cheiro a talhas de madeira orientava-os pelas memórias.


- Às vezes perdemos tanto tempo com pessoas que não merecem assim tanto a nossa atenção e esquecemo-nos de tantas outras coisas e pessoas nas nossas vidas que nem percebemos o que é fundamental!

- ...é mesmo.

- A sério meu querido... ele não merece mais nada de ti. Tenta elevar-te sobre a tua pessoa e a tua própria vida e tenta perceber o que realmente é importante para ti. Vais ver que não o encontras na lista depois de tudo o que ele ja te mostrou!

- Mas sei que talvez não vá durar muito!Acima de tudo gostava de tentar ser amigo dele! Mas pelo menos por enquanto não quero falar com ele!

- Ser amigo de ex-qualquer coisa é uma tarefa só para gente adulta. E se tiveres a mesma sorte que eu tive...esquece! Não valerá a pena o esforço...

- Pois, também já pensei nisso.

- Olha, muito sinceramente, observa bem o meu filme e vê bem o que não deves fazer. Aprende com o meu exemplo que à coisas e pessoas que, por muito que queiras ver nelas até um pessoa fantástica, com a qual gostarias de contruir um relação de amizade quanto mais não seja pelas memórias e respeito do que viveram em comum, elas nunca o irão permetir. Porque isso é uma fantasia só tua. Eles só sabem desempenhar um papel no palco de cada peça, porque não têm maturidade para saber ser mais do que isso.
Vais insistir num "actor" que só sabe ser e sentir-se de uma só forma?...não... esse é o tipo de "profissional da vida" com quem não deves perder nem mais um segundo porque sairás sempre defraldado.
Escolhe bem o teu elenco e rodeia-te de gente profissional. E como a peça é a vida, o profissionalismo será portanto aquilo que nunca verás neles, maturidade.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

sexta-feira, janeiro 12, 2007

I´m Back



A noite começa a cair, e nela sinto a vertigem de um delírio de morte, de uma sede de crime e uma vontade de sangue que me recordam quem sou.
Onde pousaste tu sobre o meu corpo e como o conseguiste fazer parar no tempo?... O cheiro da terra molhada daquele cemitério onde adormeci regressa-me o olhar sobre as estrelas e galhos escuros.
Morre-se tanto de uma forma tão inútil... Reserva-se tanto o siêncio e a solidão sem perceber absolutamente nada do que é viver.
Hoje a ironia rebenta, mais uma vez, na perfeição de crença de vida em mim.
Cansei-me dos trapos e saltos rasos... cansei-me dos clichés e das demandas de ódio que, no fundo, só encondem a cobardia de um grito contido, de um afecto retido, de uma vida com medos. Morre-se tanto no amparo desse substantivo tão confortável mas tão igualmente sombrio,...é a cobardia... é a morte.
Seja como for, a mim só me resta o reconhecimento da viagem em mim... só me resta tirar dela o melhor, e com ela esculpirmais um diamante do meu colar.
E que saudades sintia eu das minhas roupas de veludo e seda, das minhas cores escuras e intensas, dos meus perfumes fortes, dos meus diamantes esculpidos...de mim.
Hoje, adormeço o sangue com o vinho da virtude. A virtude de ser delirante, e infinitamente felíz.
Hoje regresso às luzes daquela cidade e brindarei com os corpos que comigo o palco partilharam... hoje regresso aos cabeçalhos de todos os jornais, e a todas a bocas húmidas de lascívia.

Hoje afundo... hoje mergulho o esquecimento, e elevo o tango a solo que em tempos perdi.
Hoje a noite trará de volta todos os brilhos e gemidos...hoje o odor a carne forrará o meu veneno... hoje mato-vos e esculpo estáuas de gelo...
Hoje parto...
Hoje regresso!

I´m Back again... ;)

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Maps


Acho que fui muito antes de partir e sinto o desiquilíbrio do tempo agora sobre o meu corpo.
No fundo é disso que se trata… de uma despedida anunciada, de um âmago passado e de um futuro por escrever.
É tudo uma questão de tempo se tivermos a sorte de nos encaixar-mos nele.

Hoje acordei de uma forma estranha.
Uma dor de cabeça matinal anunciava uma morte mais do que prevista.
Nos últimos tempos tudo tem andado a mil à hora dentro dos meus dias em que a velocidade cria marasmos.
Nos últimos tempos os acidentes e as colisões teem sido uma constante entre este meu corpo e as muralhas do meu castelo.

E surges tu… tu que sempre respeitei e a quem sempre protegi com a minha distância.
Tu que reinas em terras de loucos e mantens marés de sangue ao som de tambores.
Tu cujo tango deixa, no ar, um perfume a morte, dor e prazer… delírio, combustão e pranto.

Terás sido, para sempre, das pessoas mais perto da felicidade de sucumbir na loucura que algum dia conheci.
Eu, por saber como aí se vive, talvez seja daqueles que mais resistiu a esse reinado.
Mas seremos, por mais que lutemos contra, eternamente reis desse mesmo veludo.
Seremos, por mais que rebentem mil imagens sobre nós, os melhores espectadores de nós mesmo. Os esternos perseguidores da nossa maior fragilidade, o belo.

Depois de horas a fio em que regurgitava a grande custo tudo e todos os que em mim viveram…
Depois de em cada espasmo reconhecer o o meu papel em cada fragmento…
Depois de horas de dores confusas e diagonósticos perdidos…
Depois de tanto em tão longas horas, sinto o silêncio de Toquio, o abismo daquelas escalas, o infinito daquele vazio tão cheio.

E surges tu, ao de leve, sempre baixinho…
Conduzindo, cambaliante, sobre esses saltos-altos, que nunca riscaram o meu chão em xadrez.
Sinto o perfume desses teus sapatos vermelhos e prevejo um magia nas tuas mãos.
Nelas trazias um caixa de música que, de uma forma nobre, procurei saber receber.

E não era preciso mais nada… estava lá tudo!

"Wait! They don’t love you like I love you."
Lá estava contido o teu grito que era a única coisa que eu realmente precisava ouvir.

Hoje altera-se então o rumo de muitas histórias.
Hoje, a noite brindará comigo aos novos tempos.

Hoje decidi que jamais te roubarei a vida como tantas vezes planeei.
Hoje, troco todas as lápides que sempre evitei por cada segundo de verdade a solo neste meu chão já tão riscado de tantos tangos só meus.

Hoje percebo onde existes e assumo que também aí terei sempre um canto… porque quero, porque já não o rejeito, fez parte de mim, e porque, como tu mesma disseste um dia “a morte fica-nos tão bem.”

E ver a nossa vida a coagular é, sem sombra de dúvida, o pior dos espectáculos em nós, e hoje agradeço-te infinitamente, por me o relembrares.
Por me mostrares o onde tinha eu o meu mapa escondido, por me o trazeres de volta, e sobretudo, por me recordares de mim.

E assim acho que fui muito antes de partir.

sábado, dezembro 16, 2006

Venus as a Boy


His wicked sense of humor
Suggests exciting sex
His fingers focus on her
Touches, he's venus as a boy
He believes in beauty
He's venus as a boy
He's exploring
The taste of her
Arousal
So accurate
He sets off
The beauty in her
He's venus as a boy
He believes in beauty
He's venus as a boy

by Bjork

quarta-feira, novembro 29, 2006

Bela Lugosi's Dead


White on white translucent black capes
Back on the rack
Bela Lugosi's dead
The bats have left the bell tower
The victims have been bled
Red velvet lines the black box
Bela Lugosi's dead
Undead undead undead
The virginal brides file past his tomb
Strewn with time's dead flowers
Bereft in deathly bloom
Alone in a darkened room
The count
Bela Logosi's dead
Undead undead undead


Autor desconhecido, mas "n" vezes reproduzido e cantado por vários tipos de artistas.
Fica a nota e o saber que existe algure um grupo, que sem saber eu como, veio parar à minha playlist, e me surpreendeu com a composição feita com este "mantra" (não sei porquê, mas soa-me a mantra).
Bauhaus
(a banda)

Aquele Cheiro... II


- Lembras-te daquele cheiro?
- Sim… naquela altura até me lembro do quanto me fizeste pensar.
- Sinto novamente aquele cheiro…
- Não!
- Sim, sinto-o.
- E sabes de onde vem?…de perto novamente?
- Oxalá não venha nem seja como eu o espero… Oxalá não corresponda aquilo que vi formar-se mesmo em frente aos meus olhos. Oxalá a minha viagem não me reserve essa grande surpresa no regresso.
- Não percebo… começas a deixar-me nervosa com essa conversa.
- Não fiques… eu não estou. Que seja a grande gargalhada da vida a rebentar em veludo e vinho sobre o meu horizonte. Que venha de tão perto como será suposto. Que traga o silêncio preso por um fio que, no que pressinto, o silêncio contido no frasco que me preparam é um ingrediente a explodir. Que seja, que viverei felíz de qualquer forma.
- Então desta vez não é tóxico?
- Não, desta vez o tóxico serei eu.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Pasión


E hoje revivo o corpo perante a minha própria morte
O Inverno chegara e no silêncio do frio os meus ossos procuram resguardo na carne.

À dias que tento escrever… à dias que ando a pensar em voz alta com tanto por dizer.
Ontém passei mesmo ao lado do João, o para sempre “homem que diz adeus” o para sempre “pão para a multidão”.

Hoje o sangue que me rebenta na boca deixa-me o corpo à deriva de hora a hora.
O cansaço desta viagem que tem sido viver sob esta forma de pele, sentidos e dores, a que doravante graçejo de “carcaça” retoma-me a mim hoje mesmo.
As drogas relembram-me o espaço, a vida de outros tempos. O alcool liberta-me dessas mesmas memórias e o tabaco adormece-me o compasso de todos os ponteiros.

Amanhã será Lua-nova, dizem.
No sorriso travado revejo o espelho de toda a antiguidade naquela madeira.
Alguém sabe o que sei? Saberei eu alguma coisa que alguém saiba? É o devaneio…é o gesto do corpo embriagado que continua pesado na sua própria leveza.

Abro o armário e entre a roupa decubro o teu vestido. As marcas do baton permanecem até hoje entre a minha pele e o meu sangue. O veneno que injectaram dão-me o mote para a felicidade destes picos de insanidade.
Doi-me tudo… estou cansado.

E volto a sentir que não será agora, mais uma vez. Que te falo do atropelo. Da surpresa, da festa…das coisas que se vivem lá fora.
O cheiro da madeira húmida deixa-me assim, a querer terra molhada.
Aflito por gente desesperado pelo cheiro a vazio.
E a solidão onde mora?… a solidão é só um bom espaço de férias, mais do que isso é uma morte. Uma morte que nem te dás conta ser toda ela patrocinada por ti mesmo.

Que saudades do vermelho daquele tecido sobre o teu corpo. Do contraste entre o chão e o teu pisar. Danço em vertigem e recordo-me felíz. O abraço em aperto, gemido e som de mim, por mim, para mim, comigo, nunca me fez tanto sentido como ao som desta música e ao ritmo deste vinho.
O veludo deste líquido perfuma-me os desejos, as razões e as certezas.
Vou ter saudades vossas, claro.
Mas terão muito mais vocês saudades minhas.
Eu tentei… Mas agora já não me apetece mais.

Elevo a música naquele quarto, levanto-me e ergo o corpo apoiado na parede. Levanto o olhar e sinto que a pele estica o meu pescoço. O sangue surge com vida e, com a força de mil homens, escala-me a carne e os ossos.
Abro os olhos e sorrio para mim mesmo.
Elouqueci, mas vou.
Dou o primeiro passo e marco o novo compasso daqueles gestos.
O tango enche aquele espaço e eu encho-me de mim.

ao som… Pasión by Rodrigo Leão

sexta-feira, novembro 17, 2006

sexta-feira, outubro 20, 2006

Vampires


E hoje agarrem-se aos crucefixos, aos amoletos, aos dentes de alho, a tudo o que puderem!
Eles vão jantar juntos e cair na noite desta cidade.
Corpos sedentos aguardam os seus dentes, veludos cavernsosos aguardam a sua benção.

Mr.Slut fará o jantar que será servido com todos os afrodisíacos, e soltará a habitual puta de si...
Mr.Glam trará todo o seu charme e o seu perfume arrasadores, e introdizir-nos-á à sua presa...
Mr.Sparkling soltará toda a lascívia e veneno dos seus poros, e, modesto como sempre, não fará nada se especial (lol)...
e LadyBeringela cagará bem de alto para os corpos pendentes e brindará até com o senhor do bengaleiro! LOL

Segurem-se porque o "furacão do Entrocamento" é um brisa perto destes 4!!!!
LOL

Até logo...até que a calçada nos junte a todos e solte o perfume do sexo em veneno por toda a cidade!
;)

sábado, julho 22, 2006

FuckMeHard


A Campainha toca e o silêncio da manhã é ferozmente interrompido por todos os sons.
O perfume atrás da porta anunciava a identidade que, com raiva, fazia deslizar sangue por debaixo da porta.

- Já passaste pelas bancas hoje?
- Não, achas que sim…acabas de me acordar.
- Tens que escolher melhor os sítios onde vais e as pessoas com quem te divertes.
- Tenho?
- Deves…
- Poupa-me… se te incomoda o que lês porque continuas a contribuir para o lucro sobre mim?Não faz sentido, no mínimo, torna-te incoerente, não achas?
- Leio para te poder mostrar o que fazes. Leio para te fazer ver a vida que levas...
- Lês, porque, como todos os outros, vives presa a um só olhar. Lês, porque como todos os outros acreditas em tudo o que vês sem sonhar sequer que é tudo apenas e somente aquilo mesmo. Nem mais nem menos. Lês porque, como aos outros, aquelas palavras ignorantes alimentam-te a fantasia e a saliva nos lábios quando julgas saber de mim. Ridículo, no mínimo…
- Pára!
- Porquê?Eu tenho que acordar para te ouvir dizer isso e tu não podes, acordada, ouvir o que tenho para dizer?
- Não precisas de te defender…
- Aí é que te enganas. Não me defendo. Tento apenas defender-te a ti… da minha raiva e desprezo quando me apercebo do que pensas.
- Já pedi para parares…
- Eu também já pedi para pensares.


A campainha toca e no silêncio ficam mil conclusões a flutuar.

- Quem era?
- O carteiro.
- Alguma notícia?
- Não, apenas as revistas e os jornais que alguém, como tu, se deu ao trabalho de me enviar.
- E vais ler?
- Não, vou apenas ver as imagens para recordar o que tinha vestido e não me repetir!

domingo, julho 09, 2006

Gente Gira


Conversa entre amigos giros num local igualmente giro:
- Enfim... somos giros.
- Isto de sermos giros da que pensar...
- Como assim?
- Já pensaste que todos os feios e gordos têm namorada/o desde os 14 e nunca mais vivem dramas existênciais de solteirões encalhados?
- É verdade... Mas isso é assustador.
- Ah pois é "babe"... mas que é certo é.
- Sim, de facto, agora que penso nisso...
hummmm...
Mas acho que prefiro ser giro e encalhado do que feio e "acasalado"...!!!LOLOLOL
- Pois é.... e tens tanta razão!LOLOL
- Enfim, somos giros e as crises existênciais caiem-nos sempre bem!LOLOL"


No dia em que, ao bater das 8 badaladas nocturnas, eu vir alguém a servir-me sopa de ervilhas com um ar maternal e isso não for uma surpresa... Seria a minha morte.

LOL :)

segunda-feira, julho 03, 2006

Floating


"Era a calma daquele silêncio que morava no prazer de estarmos sempre em nós.

- Que silêncio...
- Xiu, não estragues... tenho tudo aqui.
- Ficas?
- Xiu...
Lá porque "os mortos não falam" não significa que não contem para o esforço de nos fazer ainda flutuar.

Era a calma daquele silêncio, o sabor daquela água, a leveza daquele estar. Era a saudade, a eterna saudade dos tempos que tardavam a rergressar."

sexta-feira, junho 30, 2006

No Regresso...


...entre cenas de prostituição, entre estradas de asfalto húmidas de salivas devassadas, entre gemidos e gritos... entre o silêncio de uma boleia profissional.
Ao fundo a cidade. Sempre a cidade...não fosse ela a maior puta de todos as boleias.

Três Em Seco


Três pancadas em seco no corredor…
O chão geme por suores frios de lascívia e dedos famintos por sangue quente.
A sangue frio dirige-se até à porta e sinte aquele respirar da madeira.

Entre os espaços entram os raios do crepúsculo, que anunciam a morte, em dança, daqueles animais perdidos.
Lambe o pêlo e ergue o pescoço.
De negro cobre o ombro e de veneno inunda a boca.

São os tons de vermelho que o aguardam do lado de lá… são as roupas de linho que irá desfiar.
É o arder do peito que, à deriva num carrocel de asfixia, sente o calor do sangue no chão de azulejos antigos.

Olha para o chão e sente-se em contacto. O chão que pisa, de azulejo xadrez, preto e branco, anuncia na perfeição a arena para onde se dirige o dia.
Percorre os lábios com a língua… e sente já o prenuncio da morte suculenta do seu corpo, nos outros que aguardam como se de animais feridos se tratassem.

Pancadas sonoras, agudas e graves, ritmadas ou ao acaso palpitam sobre a sua forma de pensar.
Cheira a sexo e a calçada desnivelada desta cidade prepara, em orgia, com as luzes dos animais nocturnos, a morte de que precisa para o desfile de amanhã.


16.Junho.2006