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domingo, março 02, 2014

Sortir





Sir. Polignac tinha preparado uma refeição cheia de detalhes e meticulosos prazeres que tanto o caracterizam, e eu tinha chegado apenas com macarons.
Eu estava mais calado do que o habitual e ele reticente em relação a qualquer coisa, até que tomou coragem assim que nós sentámos.
Como estás? - Foi a pergunta que sem necessidade de qualquer contexto me fez perceber imediatamente do que falava. 

- Bem. – E no sorriso que aconteceu ao responder-lhe, dei-me conta que teria que falar sobre o que aconteceu.
- Fico mais descansado mas não consegui deixar de pensar no que me contaste. Sabes, no momento não quis elaborar nenhuma das muitas questões que surgiram na minha cabeça porque estávamos acompanhados e não sabia até onde poderia perguntar. Mas fiquei a semana toda a pensar naquilo. No que é que aquilo terá feito acontecer em ti. No que é que aquilo afinal representa.

- Sim eu percebo. Eu próprio acho que ando desde então a lidar com as mesmas questões. Claro que me questionei sobre tudo a seguir. De onde tinha vindo aquela frase em absoluto descontrolo que ao me sair daquela forma em grito, só poderia estar calada há anos e fazer-se sentir como uma verdade escondia. Questionei-me se afinal era aquilo. Tinha chegado até ali para aquilo? É isto o amor? Afinal ainda o amo? Como.. depois de tudo? Ou será precisamente pelo tudo? Questionei-me sobre tudo o que aconteceu até ali e sobretudo sobre o que era então aquele grito que me saiu pela a boca fora, num impulso que me apanhou desprevenido e nos fez ficar parados a olhar para o som, que já era autónomo no ar e já gerava o impacto nas nossas cabeças.

- Pois imagino. Foi nisso que pensei. Tu és tão pragmático e tens tudo sempre tão em ordem. O que terá acontecido? Quer dizer, eu sei... era aquela data fatídica e tu andas cansado. Mas porque raio te saiu aquela frase e logo com ele ali. Logo quando é ele que está ali no meio e tudo.

- Se calhar por isso mesmo. Por ter sido ele a provocar-me o assunto. Ele estava imparável num acesso de “moralismo” dos dele em que me culpava de toda a pressão em que eu estava, por não desabafar com ele. Por não ter ido dormir a casa dele...

- Pois percebo. Mas quando estávamos em Itália aconteceu alguma coisa que eu não tenha dado conta? Porquê isto agora?

- Não sei... Eu não me ando a reconhecer nos últimos tempos... Não me prevejo ou revejo em nada do que dou comigo a fazer nos últimos dias...

- Fiquei a pensar sabes? A pensar na vossa história, daquilo que conheço em ti e nas voltas que a vida dá. Não te consigo dizer nada em concreto como seria suposto. Um “vai por aqui ou vai por ali”... Não sei. Seja o que for o importante é voltares a estar bem meu querido. Mas não sei como te ajudar porque eu no teu lugar não saberia como estaria a lidar com tudo.

- Eu sei, obrigado. Acho que no fundo se calhar ía-me fazer bem uma viagem.

- Mas vais-te embora?

- Também tu? Não... não me vou embora. Confesso que me passou pela cabeça, tu conheces-me. Mas não. Estava a pensar só afastar-me uns dias e passear, não sei.

- Ia-te fazer bem, sim. Porque não voltas a NY?

- Porque para isso preciso de mais tempo. Estava a pensar numa coisa mais perto, Paris, Londres... sei lá. Uma das nossas cidade de hábitos e memórias. Passear ao sol, comer bem, ficar parado num banco a olhar para as pessoas do velho mundo... por aí.

- Eu vou agora uns dias para Amesterdão. Não queres vir? Fazia-te bem “voltar a casa”.

- Não, obrigado. Acho que preciso de outras casas onde não me esbarre constantemente com as minhas histórias daqueles tempos. Mrs. Dalloway convidou-me para ir uns dias para a casa de campo e eu acho que é o que acabo por fazer. Ar puro e o mais incondicional dos amores regado de bons vinhos e reflexões sobre a arte em nós. A Natalie também vai... devo-lhe também a paz depois do que ela me agarrou naquela noite. É uma mulher extraordinária e gosto tanto de a ter comigo. Vivo rodeado de pessoas cuja dimensão é enorme, e é mesmo isso que vou fazer. Vive-las.

- Pois percebo-te.

Estivemos à conversa num conforto exactamente igual ao que sentíamos quando tínhamos 18 anos e o tempo era apenas um instrumento a nosso favor durante um dia inteiro. 
Ele acompanhou-me pela Avenida acima e ao passar pelo banco de jardim senti a tua falta ali.
Queria ter-me explicado a ti mas tu não me deixaste. Paralisaste-me o momento para que nada nem coisa nenhuma ganhasse uma forma com a qual não soubéssemos lidar.
Mas saberíamos. Como sempre soubemos à nossa maneira.

Desapareci depois daquela noite e retomei o meu corpo a meu favor já longe.
Fui cuspido pela indiferença e a desvalorização que fincaste sobre o que aquelas palavras fizeram acontecer em mim naquelas horas.
Sonhei durante 3 noites com a agonia de te perder e da vertigem de, ao correr para te socorrer, ter sido substituído por outra memoria qualquer.
Ouvi-te a ti e a todos. Retomei o espectável comportamento face às necessidades que a ciência tem sobre os nossos corpos e enchi-me de coragem e voltei aquele quarto gélido e às tantas horas de sala de espera.

Fui viver uns dias para o campo e sentir o sol com as árvores de fruto. Li revistas antigas e livros de histórias que não me conseguiram embalar. Olhei para o céu de olhos fechados enquanto esperava que o sol me aquecesse a cara e me levasse para uma dimensão onde o silêncio não tivesse lugar.
Sonhei com a tua voz a dizer-me que poderia falar e que tinha chegado a hora de, juntos, entendermos o que era aquele lugar estranho onde adormecemos mais quentes.

Voltei para Lisboa e ao sentir as primeiras gotas da chuva corri para a rua. Fui passear à chuva por querer ficar encharcado. Voltei e tomei um banho quente. Enviei-te uma mensagem e, no silêncio, imaginei-te feliz. Estavas apaixonado por uma nova história de amor que nada tinha a ver com a outra.
Sentei-me ao computador e comprei uma viagem. 
Tu saberás onde me encontrar.


quarta-feira, maio 01, 2013

Blood


Tudo o que sabemos somos nós próprios encontra-se numa ampulheta de vidro, à distância de um movimento em que nos deixamos surpreender. 



Naquela noite, entre a massa cujas as caras reconhecia de tantas histórias, dei contigo em presença no meu corpo. Passou alguém com o teu cheiro que activou nos meus sentidos o calor do acordar ao teu lado.

Sentei-me num sofá rodeado de amigos que discutiam as diferenças entre a arte nos nosso dias, e as massas que visitam a exposição da Joana Vasconcelos.
Não me chateia nada, antes pelo contrário, que seja assim. Uns são os pseudo-eleitos eleitos pelo grupo minúsculo de “artistas” conceptuais, que escolheram uma contra corrente que se irá sempre debruçar sobre estados depressivos. Outros podem ser os eleitos pelas massas que, com todo o mérito, encontraram uma linguagem que comunica uma mensagem que e chega de forma eficaz às ditas multidões. E então? Não há espaço para todos? Lembro-me de há uns 12 anos atrás discutir isso mesmo com uma professora de história de arte, e impor-me numa posição democrática da arte e do real valor do artista enquanto comunicador. Venci a batalha naquela tarde. Mas não venci a guerra 12 anos depois naquele sofá.

Ao abstrair-me da conversa levantei-me e mergulhei na pista do Purex. Os corpos fundiam-se com o meu e as pessoas dançavam sedutoramente sem qualquer objectivo para alem do serem felizes no ali mesmo, no agora.

Semi-serrei os olhos e senti a força de uma vida que ainda me corria nas veias, e as células de memórias que davam consistência ao meu sangue. Estavas-me por toda a parte. Como se tudo tivesse sido desenhado para convergir naquela sala, naquele momento.

Aquilo era a arte em mim, que substituía a saudade que tinha de materializa-la pelos meus dedos. Aquilo era eu, sem tirar nem por. O prazer alucinado do sabor que as histórias me deixaram, o perfume carnal que evaporava da minha pele, o sabor do gin que me lambia os lábios e o orgasmo da felicidade de ter vivido tudo aquilo numa só vida.

Um dia, em minha casa, disseste-me: “se morresses amanhã serias uma daquelas pessoas que toda a gente recordaria como alguém que viveu bem, que teve uma vida cheia, e isso já ninguém te pode tirar.”

Ainda te amo, como irei amar para sempre, e no sempre viverá a forma como amo incondicionalmente todas as pessoas que amo ou amarei. Mas agora vou ter que ir ali ao lado, vou só ali para ser feliz.

segunda-feira, maio 28, 2012

Smoking Crash


Às vezes tinha a sensação que vivera toda a vida em aeroportos. Conhecia os recantos de tantos quanto os das casas onde fiz vidas cruzarem-se com a minha.
Não entendo a beleza como a entendi. A negação do âmago e da alegria num corpo só, é de uma monstruosidade estética que não consigo aceitar de que possa fazer parte algum dia. 



O medo é uma variante da corrente sanguínea que nos diminui para nos podermos superar em nós mesmos. Com o estalar dos ossos e o esticar da pele, num arrepio de vertigem que nos traz o calor do sangue que ainda nos corre pelas veias, e finalmente sentimos a tão aclamada liberdade. Mas não. Não somos efetivamente todos iguais.

Seria um aparente dia normal. Daqueles que por nos parecerem tão normais nos alertam para uma possível catástrofe. Daqueles cujo equilíbrio não tem qualquer melodia ou cheiro. Daqueles estranhamente vazios.
Mas não. Efetivamente não se veio a revelar um dia normal.

Estava parado no topo de uma das colinas da cidade quando o sol e o silêncio me rasgaram a mente e as vozes inconfundíveis de outrora se fizeram ecoar.
Virei-me e não vi ninguém. Estava ali a sós. Completamente a sós.
O silêncio e o calor na pele não me conseguiram agarrar à terra, e no piscar de olhos que evitei, dei um passo em direção ao vazio.

Poderia ter regressado à pintura. Poderia ter regressado à fotografia e ao desenho, onde o poder da cor transformou durante anos a minha realidade. Mas as mãos estavam imóveis e o olfato sem cor.
Desde aquela noite em que nos vestimos de preto, e usámos as melhores manobras para cumprir todas as expectativas de uma imagem, que não consigo entender o que aconteceu.

Lembro-me de entrar no carro negro e incorporar a personagem com sorrisos e galanteios. Lembro-me do perfume da vaidade que naquela noite não havia meio de me assentar sobre a pele, nem mesmo quando atravessei a passadeira vermelha.

Os flashes e aqueles projetores violaram-me a mente. A cada disparo, mesmo já não sendo para mim, sentia o reerguer da personagem em mim.
Recordo-me da arrogância de um agente que ferozmente garantia o tempo de antena a mais uma desgraçada que mal respirava no vestido que a obrigaram a vestir.
Tudo aquilo, naquela noite, já não era mais o meu mundo. Havia qualquer coisa ali de repetição e desespero que me elevavam a rejeição no estômago.

Entrei e pensei que não te tinha visto chegar. Quando me sentei avistei-te do meu lado esquerdo.
Olhei para o telefone e pensei no quão estranho estava a ser a demora de uma resposta à carta que tinha escrito a nu, àquele outro que cada vez mais parecia não ser quem eu esperava fosse.
Voltei a olhar para ti e elogiei a tua amiga. Estava elegantíssima.
Tu nem reparaste na minha presença nem por um segundo.
De repente viras-te para trás e eu consigo perceber a insólita roupagem que trazias. Não parecias tu. Parecias outro que outrora criticavas sobre a personagem em mim.

A princípio rejeitei a ideia. Não sei se por ciúme ou por pura precaução.
Os pensamentos começaram-me a assombrar de tal forma que ao primeiro intervalo abandonei a sala e vim para a rua.
Chamei o meu carro e sem hesitar afastei-me do daquela noite ali.

No caminho para casa toca o telefone e era o Louis.
- Acabo de chegar a Lisboa e, no aeroporto, cruzei-me com o Ulliel que estava embarcar para Miami.
- Desculpa? 
- Sim, não sabia que ia voltar e ele estava estranho e mal me falou. Como se fugisse de alguém ou de alguma coisa. 

Conheci-o há dois anos numa miragem do Quartier des Enfants Rouges. Mais propriamente numa festa em casa de um desses novos cineastas com a mania que era alternativo mas que na verdade não passava de mais um menino do papá.
Era uma casa fabulosa no 3e arrondissement, que parecia tirada de uma imagem do final do século das lutas pela liberdade entre burgueses abastados mas negligentes pelo apelo a uma cultura maior. Os pais tinham viajado para Lisboa e ele achou que a casa precisava de uma vida lasciva qualquer.
Lembro-me dele a um canto na sala mas perfeitamente intrujado. Não me parecia acompanhado e tive a certeza quando me fitou o olhar.

Naquela noite falámos até amanhecer e eu, como tinha acabado de regressar de Biarritz e decidido mudar de bairro durante as ferias, achei que aquele seria o bairro perfeito. Ele, por sua vez, estava igualmente a viver um divórcio complicado e tinha acabo de chegar a Paris onde procurava um refúgio naquela cidade por tempo indefinido. Levou-me a ver um espetáculo do Alain Platel onde o mundo fazia o mesmo sentido para ambos.
Vivi com ele 7 meses naquele bairro até que um dia, ao regressar de Nova Iorque, cheguei a casa e ele tinha apenas deixado um bilhete.

Um ano depois encontrei-o em Lisboa, no Lux, e ao fugir por entre a multidão mandou-me uma mensagem que só dizia: Desculpa.
Soube por entre amigos que tinha tido uma recaída e que tinha viajado para fugir a um amor pérfido ao qual sucumbia como a morte. Mas até hoje não consegui entender ao certo o que aconteceu.

- Eu também não sabia. Aliás, o estranho é que ainda ontem falei com ele ao telefone e tínhamos combinado jantar amanhã. Não percebo. 
- Pois, que estranho… Mas olha, vou deixar as coisas a casa da Isabelle e posso ir ter contigo se quiseres. 
- Claro, eu estou a caminho de casa também. Dá-me uns 20 minutos e encontramo-nos lá. 

No caminho a imagem que tinha de ti ia ficando mais confusa. Que sentido fazia tudo aquilo afinal?
Se por um lado rejeitava aprofundar por receio de dramatizar, por outro trazia um estranho amargo de boca que não me permitia abandonar as conclusões.

Recebo uma mensagem no telefone.

“Onde estás? Perdi-te de vista e já não me consegui sentar ao teu lado. Temos que falar porque preciso de te contar o que ouvi.” 

O meu estômago deu a volta e pressenti que era sobre ti. Respondi que me tinha sentido indisposto e estava de regresso a casa, desfazendo-me em desculpas e evitando a pergunta.

“Que grande merda! Mas estás bem? Falamos amanhã então.” 

Estava já a chegar à Avenida da Liberdade quando liguei à Mrs. Dalloway a contar-lhe o estranho de tudo aquilo.

- Tens a certeza? Que estranho… Não percebo – disse ela.
- Não te sei explicar, é um feeling. E cheguei a enviar-lhe uma mensagem mas ainda não respondeu. Mas também pode ter o telefone sem som para não interferir com o espetáculo, não sei. 
- Desde o funeral que sinto que não andas bem e que não seria má ideia tirares uns dias e vires ter comigo. 
- Minha querida talvez tenhas razão mas não sei se consigo tirar uns dias agora. 
- Vem, faz-te falta. E é verdade, o outro disse-te alguma coisa? 
- Nada. Quer dizer ligou-me e disse-me que deveria escrever um livro, achas normal? 
- O quê? Mas antes ou depois de ler a carta. Não percebi, não lhe perguntei porque me sinto tão envergonhado com aquilo. Mas pelo contexto ele referiu que tinha estado a ler artigos antigos que publiquei na velha época. 
- Que medo! Isso não pode trazer coisa boa? 
- Pois não sei, mas incomoda-me ter-me exposto tanto e no fim sentir que não há uma palavra do lado de lá, sabes? 
- Claro, percebo-te perfeitamente mas isso também é bom. Assim ele só prova o como funciona aquela cabeça. 
- Pois… 
- Onde está? 
- Estou já na Avenida da Liberdade a caminho de casa. O Louis vai lá ter. Chegou à pouco a Lisboa e sabes que não dorme sem um copo de vinho e um relatório da cidade na sua ausência. 
- Ai que bom. Então vou-lhe mandar uma mensagem para ele te convencer a vir ter comigo a Versailles. E não aceito um não. 
- Vou tentar. Na verdade acho que nada me faria melhor agora nestes dias. 
- Então vá, ligo-te amanhã. 
- Beijo 

Lembro-me de desligar o telefone e estender a cabeça sobre a janela e estar a ver o céu por entre as copas das árvores. De me recordar das gargalhadas que dávamos com as nossas diferenças quando ainda vivíamos em Faubourg Saint-Denis. Daquela noite lembro-me ainda de fechar os olhos e sentir o cheiro forte do teu perfume verde que se entranhava na minha roupa e na minha pele e viajava comigo por onde quer que fosse.

Depois só me lembro de uma súbita travagem em grito e de um embate ensurdecedor. À memória recorro ainda hoje às luzes das sirenes da ambulância, que rasgavam o carro enquanto eu, imóvel, apreciava o silêncio absoluto da sua dança no teto.

Uma semana depois trouxeram-me uma revista social. A imagem. Lá estava a imagem em que anunciavas em surdina a companhia que escolheras para me substituir.

Fiz as malas para ir ter com ela. Efetivamente parecia-me já nada poder fazer aqui, e o descanso era agora imposto pelos especialistas da matéria.

Mas ainda assim ao fazer as malas perguntava-me que sentido teria aquilo tudo e sobretudo, até onde é que me posso ter enganado tanto em relação a ti.

Já no aeroporto comprei um jornal das artes. Li que vais lançar o teu novo projeto em breve. Soou-me tão estranho não estar por perto, soou-me tão mal tão pouco saber.

Sentei-me no aeroporto à espera da minha vez. Liguei-te duas vezes e não me atendeste, não me devolveste a chamada nem me enviaste uma mensagem.
Num resumo forçado espantei-me com a leviandade que com que desapareces.

Sentei-me e fechei os olhos até os segundo virarem minutos, e os minutos cumprirem as horas que me iriam arrancar dali.

A carta que não teve resposta.



"A morte em duplicado num dia faz-nos parar e respirar fundo. 
No fôlego fica preso o todo o ar que resta depois da notícia. 
No estômago fica a vertigem do medo e de tudo o que não dissemos. 

Hoje morreram duas pessoas que conheci. 

Uma era o talento e a alma da beleza na ponta dos dedos, a outra era a crença e o sentido de humor que enchia uma sala e nos lembrava a importância de viver feliz.

No medo mundano da possibilidade de nos acontecer, não posso deixar de dizer com medo de olhar para trás e nunca o ter dito. 

Amo-te. Estou em tratamento. Estou a tentar seguir em frente sem ti porque te amo. Se ontem a possibilidade de viver uma nova vida numa casa de praia às escondidas me atordoou, não foi por não te amar. Foi pelo medo de ir e viver aqueles dias secretos de forma igual aos da cidade. Em camas separadas. 

Estou em tratamento. Fiquei sem alpendre e a chave na minha mão já não abre a porta da casa. Sem abrigo a correr atrás de um barco que começou a andar à margem do porto. Tento não olhar para trás mas ficará para sempre “e se”. 

A vertigem, o medo, a morte. Que tento evitar com a defesa pelos bons momentos apenas, pelas palavras leves e os livros otimistas. Pelo amor em mim, de um mundo, para um mundo. Pela vida. "



sexta-feira, dezembro 09, 2011

Red Wine I


- Sabes, não sei como é que aconteceu. - disse.
Sentei-me no sofá a seu lado e deixei-me ficar ali porque senti chegado o momento. Pressentia há semanas que a razão do seu silêncio, e a ausência das suas grandes noites pela cidade, teriam uma razão contida. Sentei-me e limitei-me a ouvir.

- No outro dia que me ligaste e não atendi, estava em casa da Lilly. Doía-me o corpo todo e naquela noite senti que nada me poderia interromper o momento.
Estávamos novamente os quatro como sempre imaginámos. Tínhamos o tempo todo do mundo e estávamos estranhamente em catarse emocional.

De repente, sem sabermos como, nós não estávamos juntos há meses e parecia que o mundo tinha acelerado no entretanto e nos levado para um aeroporto comum.
Como se estivéssemos sentados à espera do voo já definido e estivéssemos em silêncio a olhar para os bilhetes de uma estranha "terra nova".
Cheguei atrasado, para variar. Mais uma vez o meu emprego tinha engolido o meu tempo de vida e mais uma vez provocado a desilusão nos seus olhos.

Cheguei a tempo dos primeiros copos de vinho antes de jantar.

A Mrs. Lilly estava grávida de 8 meses e a viver naquela casa. Nos seus olhos conseguia-se ver a Lilly de antigamente em que o gelo do seu cérebro falha e a pele ganha calor.
A Mrs.Sophia tinha terminado a sua relação horas antes e, agora Miss, com a mesma força com que aguenta o roubo da sua jóia, aguentava-se de pé e de copo na mão, bem na esquina da bancada.
Mrs. Dalloway estava impecável dos pés à cabeça, como sempre, e falava das mudanças para a cidade. Na cara trazia uma expressão diferente quando me olhava nos olhos. Um medo.

De repente a Sophia desata a chorar do nada.
- O que foi? - Perguntei eu de imediato. E instintivamente abraçamo-la em conjunto e em silêncio resolvemos o assunto em segundos. Arrancada uma gargalhada e estávamos prontos a transmitir-lhe a certeza que tinha tomado a decisão certa e que, tal como o amor, a sua vida toda iria melhora.
Mrs. Dalloway, como sabes, sempre foi inigualável em colocar-nos de pé.

Tantas vezes me perguntei como era capaz. De onde vinha aquela força interior inesgotável. Para além da admiração e amor, ela tornou-se uma verdadeira crença na minha vida. E aquilo que tínhamos ali, aquela família como gostávamos de falar, fora construído por ela e era hoje absolutamente vital a qualquer um de nós.

Depois do jantar, em que regressámos às memórias de uma vida em comum e partilhámos a indignação pela ausência dos últimos tempos e o prazer pelo acertar de um passo, ela sentou-se ao meu lado no pátio interior junto ao beiral de plantas.
Senta-se a meu lado e pergunta:

- Tens lume?
- Tenho. Sinto que tens qualquer coisa para me dizer desde que cheguei.
- Tenho.
- Eu sei, tenho andado distante mas eu já te disse, é apenas um Inverno em nós.
- Recuso-me! Lá vens tu com essa história novamente... É isso que não entendo, como é que tu aceitas uma monstruosidade dessas?
- Estou tão cansado meu amor, mesmo...
- Eu sei e é isso mesmo que me assusta. Parece que perdeste a luz. Não me lembro de te ver assim em toda a minha vida. Estás calado, ausente e uma pessoa olha para ti e parece que carregas o peso de mundo às costas.
- Eu sei, é horrível. E eu que sempre odiei pessoas assim... Desculpa. Eu sei que não era o esperado de mim mas nem eu sei como é que aqui vim parar.
- Eu sei. É esse emprego e aquele de quem não se diz o nome.
- Eu sei... Mas, não consigo. Perdi-me de mim, não me reconheço. Lembras-te quando decidi mudar de rumo e aceitei este trabalho? Fabuloso, tudo fabuloso e agora nem me reconheço.
Sempre soube que teria que usar uma capa, criar uma personagem. Mas às tantas, as horas dessa pele foram-se somando e engolindo as horas da minha outra vida, a minha verdadeira vida. Aquilo não sou eu mas não tenho vida, e nas poucas horas que não me roubam, sou aquilo em piloto automático. Aquela personagem cínica e fria. Não tenho tempo para mim, para a minha família, para vocês. E quando consigo ainda venho em personagem.

Já não posso jantar num restaurante qualquer, ir ao bar de sempre, dançar até cair e dizer asneiras bem alto. Não, estará sempre alguém por perto a ver, que tenha que encarar nos dias seguintes num contexto qualquer profissional.

Embruteci. No outro dia, na vossa conferência, dei comigo envergonhado pela sede que tinha de certas palavras, significados e significantes, sabes? Senti-me como se estivesse a olhar para fotografias de uma identidade que já fora a minha. Tive tantas saudades do meu mundo.

- Ainda bem que reconheces, era mesmo isso que te queria dizer. Mas ainda bem que sentes o mesmo. Estás irreconhecível. Faz quaquer coisa.
- Estão aqui à conversa de parte? Tens um isqueiro?
- Tenho, toma. Estava aqui a dizer-lhe que estou muito cansado e daí a minha ausência. O monstro engoliu-me e sinto falta de ar.
- Pois eu percebo-te... E falaste-lhe também da outra história? É que isso também não te tem ajudado.
- Ainda não chegámos aí.
- Sim, mas também era isso que queria dizer-te. Essa pessoa suga-te. É um infeliz por opção e arrasta-te há mais de cinco anos com ele. Por favor, acaba com isso.
- Eu sei, tens razão... mas eu amo-o.
- Se ele te amasse da mesma forma estava ao teu lado e não ignorava a tua existência.
- Eu já lhe tinha dito isso Mrs. Dalloway. Se bem que acho que se ele sente que ainda deve tentar mais uma vez ser humilhado, porque é isso que está garantido, que o faça. Quanto mais não seja para ir ao fundo de vez e se levantar de seguida definitivamente.
- Tinha esperanças... cofesso que até há bem pouco tempo apostei as minhas fichas neste cavalo. Afinal de contas poderia ter sido uma história de amor brilhante com tudo o que tem direito. Mas chega. Estás de rastos, isto não pode durar mais tempo.
- Eu sei... têm razão. Eu só preciso de lhe dizer na cara, a olhar-lhe nos olhos, o que sinto pela última vez.
- Desculpem interromper mas a grávida estáva-se a sentir sozinha na cozinha. Qual é o tópico?
- Eu e Mrs. Dalloway estavamos a dizer-lhe que esta história com aquele de que não se diz o nome tem que terminar. Mas ele sente que precisa de uma conversa final.
- Por favor, isso é mais do mesmo. Se achas que precisas vai. Mas na verdade sabes bem que isso só se resolve quando tu já não sentires necessidade dessa conversa. Tu amas essa criatura, é um facto. Ele não te ama ou pode até amar, mas de uma forma muito infeliz e tu mereces ser feliz.
Tens que decidir seguir em frente sozinho. Por ti. Sem conversas nem desabafos. Simplesmente virar as costas e seguir em frente.

Calou-se por instantes e ficou ali a olhar para a janela. Eu deixei-me ficar imóvel e perguntei:

- E o que tencionas fazer?
- Esta conversa não me sai da cabeça. E sinceramente, não sei o que fazer.
- Vais falar com ele?
- Ele não me deixa.
- Foi por isso que terminaste a relação em que estavas há dias.
- Sim, não é justo. Não sou essa pessoa que deixa que alguém crie expectativas que eu saiba que irei defraldar.
- Percebo...
- Não sei mesmo como é que vim aqui parar. Mas sinto que uma coisa eu sei: isto assim não é forma de viver e tenho que mudar alguma coisa aqui.

segunda-feira, outubro 17, 2011

BERLIM I

Photo by Tiago Veiga
7'Julho'11

"Ontem foi o dia em que percebi que te teria que escrever.
Troquei de hotel para um bem mais simpático na zona nobre da cidade, mas ainda assim faltava-me qualquer coisa.

Quando se viaja sozinho, passados os primeiros dias de liberdade e entusiasmo, falta-nos sempre alguma coisa. Falta-nos sempre alguém.

Fui à Berlim Fashion Week e depois aproveitei para passear e fazer umas compras.
Passei um bom bocado no "Café Cinema", no Mitte.
Estava por lá absorver o quão familiar tudo me parecia, e dei comigo num regresso a Londres, numas das muitas fugas dos 20 anos.
Daquele café respondia ao telefonemas que procuravam soluções para o VFNO, e rapidamente me recordei que não estava ali de férias.

Chegaram dois rapazes com umas guitarras. Eu deixei-me estar a viajar pelos tons quentes daquelas paredes e pelas memórias de uma juventude móvel, somente com um cigarro e um sumo de maçã.
Tocaram três músicas do instrumental de Caetano Veloso e foram-se embora.
Eu fiquei ali. Estático no absurdo de todo aquele momento tão geograficamente improvável.
Na reacção à bagagem que me preseguia, decidi ir cortar o cabelo e levantei-me para que nada falhasse no evento de hoje à noite. Adoptei o corte de Berlim.

Regressei ao Hotel e fui mais uma vez sozinho à procura de um restaurante para jantar.
Sempre achei demasiado deprimente jantar em hoteis onde irei dormir.
Parei finalmente no Lieu - um restaurante Vietnamita com uma comida incrível.

Chega o meu copo de vinho tinto - um sul africano qualquer que passou a ser a minha companhia da noite - e ligam a música ambiente.
"Dance With Me Litle Stranger" pelos Nouvelle Vague, e não consegui evitar o sorriso.
Há de facto qualquer coisa de irónico nesta cidade.
Depois de uma refeição suberba regresso finalmente ao hotel e, pelo caminho, começa a chover. Não acelerei o passo... antes pelo contrário, e soube-me bem.

Hoje comecei o dia com a exposição que muita gente com quem nos cruzamos deveria vir ver.
Escondida na Jebenstrasse, dentro do Museum für Fotografie, está todo um universo brilhante de fotografias do grande Helmut Newton. É incrível o que não sabemos. Os anos 70 e os meados de 80 foram de facto extraordinários.

Agora mesmo, estou sentado na cafetaria da Bahaus Archiv.
Desde míudo que sonhava vir aqui e ainda estou em completo nirvana.
Acho que o dia de hoje trouxe uma nostalgia criativa que pressinto vir trazer-me algo de volta.
Quando te conheci eu ía ser o melhor designer além fronteiras... e de repente apercebo-me que nem sei como aqui vim parar."

domingo, julho 03, 2011

Morder-te o Coração

Fiz as malas e entrei no avião.
Ao topo da mala de mão que fiz à pressa sinto o livro que para ali tinha atirado.
Trouxe-o à tona e olhei para a janela.
Estamos em velocidade cruzeiro e a verdade morava ali.
Recordei-me do incrível que foi quando li aquele livro pela primeira vez.
Estava de luto, igualmente a sós, na Holanda.
Abri a primeira página e decidi mergurlhar-me na memória.

"ELE

Tu já não te lembras. Foi há dez anos, neste mesmo quarto, a olhar o Pico, os barcos, o azul-cinza do mar calmo, a cama por fazer, os livros e as revistas espalhadas, tu à janela, a olhar para fora e depois, sem pressa, num gesto pausado, a camisa de alças a fugir do teu ombro, uma alça apenas, fininha, o teu sorriso a crescer e a frase

Anda, anda morder-me o coração.

Tinhas, naqueles dias, a tranquilidade. como se estivesses bêbada de paz, o teu corpo andava pelas ruelas a dançar numas sandálias de corda e pano, azul-celeste. Comias gelado com cuidado para não sujares as mãos e ouvias-me falar, os teus olhos prisioneiros nos óculos escuros, enormes, de massa preta, anos 50. Eu falava depressa, de tudo, contava-te a minha infância, os dias negros no liceu de padres, a tarde em que rasguei a garganta com o fumo de um cigarro enrolado à pressa no quarto do meu primo Francisco.

Descrevi-te em pormenor as sardas da minha primeira paixão, a curva acentuada do ventre, como se estivesses grávida, grávida de doces, pipocas e rebuçados de papel brilhante vermelho Bolas de Neve.

Disseste que os rebuçados eram bolas de neve e esse reconhecimento comoveu-me, como se fizesse mesmo parte do meu mundo, como se dominasse uma linguagem interdita aos outros, tão natural para nós.

Sentada na esplanada da ilha, com os pés enrolados debaixo das pernas bronzeadas, a ponta do vestido a espreitar a tua coxa, distraída, brincavas com os dedos enquanto eu prosseguia na minha história e, depois de me ter despejado para cima de ti, todas as minhas verdades, todas as minhas mentiras, olhaste com aquele sorriso pequenino. Declaraste-me oficialmente o homem do teu Verão. E cumpriste a tua palavra.

Ficámos os dois a ver os barcos e a comer devagar refeições de pão e queijo, peixe e mariscos. Quando falavas - e tu raramente falavas -, era sobre a tua casa, a planície e o rio. Tinhas inveja da ilha por ter mar, por ter liberdade, mas contavas histórias sobre as barcas nos rios e foi contigo que aprendi que quem navega não sabe conversar porque o rio tece mistérios vedados às palavras. Contaste-me que em Veneza os gondoleiros têm barbatanas nos pés para poderem andar em cima da água.
Riste-te, lançaste a cabeça para trás e os teus óculos caíram na calçada, um barulho de plástico a revirar nas pedras. Foi então que descobri o rio nos teus olhos e comecei a amar-te.

Todos os anos venho aqui. Fico no mesmo quarto e vejo-te, de manhã, enconstada à brisa que te levantava os cabelos, a dizer

Anda, anda morder-me o coração.

*


ELA


A questão não é saber se o amor nos aconteceu. Isso é tão relativo que o silêncio é o melhor. Percebe-se melhor.

Naqueles dias eu achava que não éramos nada, tu e eu.


Podíamos dormir juntos. Podia sentir o teu suor sobre o meu peito, os teus ruídos na casa de banho, a forma como mastigas a pastílha elástica, elegante, por vezes entreabrindo a boca num sopro que se aproxima de um suspiro. Podíamos rir e chorar, contar as deventuras da adolescência, porque nada do que era verdade e, por isso, me poupava nas palavras, para não te castigar com tantas mentiras.


Tudo o que passámos, naqueles dias, não era definitivo, não tinha coordenadas futuras, seria, por fim, o crescendo que iria morrer de repente. Olhava-te no sono e pensava que sabia exactamente a data em que o amor se iria desfazer.


A ilha estava congelada no nosso abraço. Nos teus pensamentos era tudo o que fazia sentido. Eu tinha um prazo. Uma vida à minha espera, um regresso feito de poucas memórias. Ficarias em terra, náufrago de mim, sem perceber os destroços de nós.


Sabia exactamente o vermelho do sangue que te iria escorrer da alma, como uma tinta, como um salpico de dor demasiado forte para o teu corpo magro.


Não tenho coração, pensava nas noites em que ficávamos a olhar o reflexo da lua no atlântico.

Tu contavas a história do duende prateado que tem que acender as luzes todas do mar da tranquilidade. Ele que prometeu ao sol que pode dormir sossegado. Haverá sempre uma luz para espantar as coisas más.


Quando me fui embora, não deixei morada.

Hoje, quero que saibas que não te disse nada e quando te pedi para me morderes o coração era só para me certificar de que ele existia no meu peito. Tu preferiste beijar-me, nunca me mordeste e, assim, fiquei sem saber."





in Morder-te o Coração de Partícia Reis

sexta-feira, junho 24, 2011

To Build A Home



Entrei com a mesma convicção que sempre entrei naquele aeoroporto.
Sentei-me no mesmo banco que me sentei quando, com poucas malas, me larguei em Biarritz.

Ocorreu-me o sabor daquele vício cíclico a que cedo sempre que não consigo entender o amor.

Lembrei-me da fatalidade das palavras da Lea Doval, quando me ofereceu a sua companhia naquela tarde no Hotel du Palais.

Logo de seguida também me lembrei que o tempo era de facto um fenómeno atento na história da minha vida.

Fazia exactamente um ano que o meu corpo vagueava por aquela praia à procura de uma razão para voltar a Portugal.

Pensei várias vezes em levantar-me e dirigir-me ao mesmo balcão.
As caras já me pareciam familiares e o que isso tinha de reconfortante, tinha igualmente de assustador. O significado de estar ali mais uma vez, com a mesma sensação reflectia a fadiga no meu sangue, estimulava a humilhação sobre a minha própria figura.

Deixei-me ficar ali sentado mais um tempo... e o tempo foi passando.
Escureceu lá fora e os sons das chegadas já não se destinguiam das partidas.

Olhei para o telefone e contei as horas do silêncio.
Levantei-me e dirigi-me por fim ao balcão.
Regressei a casa e no caminho apercebi-me que ainda não estava certo do que iria fazer.
Tirei apenas uma mala do armário e deitei-me a seu lado.
Esperei por ouvir o telefone finalmente tocar e adormeci.


"I love you too."

terça-feira, maio 31, 2011

SAVAGE BEAUTY

Met Gala 2011 from Kluk Jeanovej on Vimeo.



"Às vezes ainda precisava de olhar pela janela para ter a certeza que estava ali.
A sua pele ainda trazia a marca que a "A Scent of Intrigue" do Tony Hymas lhe tinha cravado no momento em que ficou estático, numa contemplação absurda, perante a beleza do black duck feathers dress sob o título The Horn of Plenty (AW2009).
Sentia a sede de um corpo desidratado de tanto assistir. Era a beleza no estado mais magnífico e controlado.

Olhou para o chão e viu ainda o seu smoking manchado de uma bebida qualquer.
A caixa negra estava vazia mas no bolso do casaco encontrou o panther que, simbolicamente, usou no dedo na noite anterior.

O concerto e a toda aquela música de multidão repetiam-se infinitamente na sua cabeça.
Ela afinal era mais do que uma performer, era de uma beleza em palco que parecia irreal não fosse todo aquele contexto igualmente perfeito.

Dog Days Are Over by Florence and The Machine

Amanheceu e tratou das malas que ainda nem tinha desfeito. O voo da sua amiga Gabrielle chegava dali a umas horas e ela vinha destinada aigualmente esquecer Lisboa.

Arrumou tudo e saiu do hotel mesmo antes dos amigos mexicanos abrirem as portas da frente.
Parou no Brian Park e sentia-se decido a acabar o malfadado livro que parecia não ter fim.

Estava um dia de Primavera como há muito não se via ali. As pessoas estavam todas sorridentes e disponíveis. Por momentos pareciam até ter esquecido o suposto assasinato que prometia uma vingança mundial e ainda estavam embriagadas com toda aquela beleza que a gala da noite anterior tinha trazido à cidade.

A cada folha que passava lembrava-se das imagens daquela noite. A cada fracção de segundo deixava-se viajar por entre cada detalhe que o seu corpo absorveu. Era mesmo incrível o efeito que aquela noite tinha tido em si.

O dia passou e já ía pela Madison Ave. a caminho do hotel, quando o telefone toca.
Deviam ser ainda umas 5am em Lisboa.

- Tu sabes... as you know, sou do tipo "cara valente"... e sim, sinto a tua falta e tu em NYC.

Deixou cair o telefone no chão como que em câmra lenta e ficou absorvido de tal forma que não havia qualquer tipo de replexo motor na sua sombra. Congelou. Consegui apenas ouvir a sua própria respiração e mais nada.
Segundos depois, mesmo sob a sensação que tinham passado horas, decidiu assumir que tudo não passaria do efeito do alcóol e da música do LUX, naquela catedral dos múrmurios em que se transforma a noite em Lisboa.
Nada mais que o reflexo do alcóol num corpo cansado da vida saudosa a que se condedara anos antes.

Correu em direcção à NY Public Library na esperança infantil de que, rodeado das referências que lhe traziam aquele espaço, o romantismo no seu estômago estaria a salvo.

Surge uma segunda mensagem.

- Deixa-me matar a bebedeira e talvez te ligue. You know... the greatest loves are great but they scare a lot! E sim, estás tu em NYC e a minha cabeça pensou muito. About me, about you, about us... Fuck. Odeito-te!

Seis anos depois de toda uma segunda vida eis que surge o momento. Seis anos de um silêncio insurdecedor que o tinham arrastado precisamente para aquela cidade, e ele nem queria acreditar no que estava a ler.
Lembrou-se do seu cheiro, do seu sabor. Lembrou-se numa fracção de segundos da esperança. Sentiu o medo da vertigem novamente mas fechou os olhos e decidiu saltar.
Agarrou no telefone e repondeu. Perguntou-lhe se queria vir ter ele.
Logo de seguida surge a resposta.

- Not ready yet... Been really bad. Last year was hard and I'm still mending things.
If some day I'll marry you, I wanna be fully ready. We marry, get a house, 4 kids, 2 dogs and 2 cats, and a refugee on mountains for the weekends :)


Chegou ao Hotel e dirigiu-se à recepção:
- Hi, could you book me a flight to Lisbon for today?
- Of course... But it's everything ok?
- Yes, don't worry. I'll be back as soon as I can. But please tell my friend that comes today, that I had to go to Lisbon but I'll call her to explain.
- Sure...
- Thanks.
"

in Posh Las Divinas Palabras
Ao Contrário


quarta-feira, abril 06, 2011

Na cama com Pavlov

Picture from HelloFromLisbon


"Vivo ainda fascinado com esta minha recente descoberta.

Naquela manhã inesperada acordo com o corpo dormente e o meu raciocínio absolutamente silenciado. A imagem daquela luz que rasgava a janela e nos obrigava a fazer daquele um novo dia, tinha de facto uma cor espectacular.

Lembro-me das cores na sua pele, do cheiro do seu cabelo na almofada. Era tudo tão absolutamente familiar.

Já no banho e ainda atordoado, de alguma forma não estava a perceber porque não se juntava a mim e desta vez até fazia alguma cerimónia na aproximação aquela divisão. Eu ali estava, no intitulado "chuveiro de transparência porno para ver tudo e não resistir" a tomar um banho que me arrancava aos poucos da noite anterior.


O dia passou e nem houve muita comunicação.

Chego a casa e nada mais se apoderava do meu pensamento senão uma incisiva anestesia local de seu nome I'll Try Everything Once para não ter que complicar muito.

Foi a forma eficaz que encontrei de simplificar aquela experiência, que me enchera o peito de ar e a barriga de insecto alados cujas cores carnavalescas induziam o meu organismo a electrificar o maior neon do meu silêncio - O AMOR!

Partilhei o telhado com Klimt e ouvi o que tinha para me dizer. Na complexidade de uma vida a dois, aquele companheiro já me conseguia ler o silêncio e faz o favor de me recordar Pavlov.
Pode ter sido isso mesmo. Passados anos e anos duas pessoas dormem juntas novamente. E o reflexo de todos os estímulos condensados durante essa noite provocam uma imagem acolhedora e familiar, aquele sabor, aquele imenso planeta de neons. E se calhar é só mesmo isso. O reflexo a um estímulo antigo porque somos animais e estamos expostos ao sufixo do "condicionado" também aí.

Pavlov descobriu que para além dos reflexos inatos, se podem desenvolver nos animais e nos seres humanos reflexos apreendidos a que chamou de reflexos condicionados.

Isto faz todo o sentido. Condicionados pela memória, também nós podemos reagir da mesma forma a um determinado estímulo que nos reporte de forma perfeita e exacta para o momento a que corresponde essa mesma experiência vivida, e desenvolver em nós um reflexo imediato que nos leva a repetir as sensações e emoções correspondentes à mesma.

Este senhor, se bem me recordo, foi muito representativo neste passo que deu na para que a psicologia experimental se direccionasse para o estudo comportamento humano e animal.

Como é que, passados tantos anos, ainda não temos um neon também no cérebro que se ilumine sempre que estivermos diante de um reflexo condicionado?

Há portanto uma relação directa entre o amor, e/ou aquilo que julgamos serem as suas formas de manifestação e, mais frágil ainda, as nossas formas de um identificar, e este grande senhor que nos mostra que às vezes, a electricidade que chega ao grande neon não é mais do que um reflexo condicionado da pessoa responsável pelo iluminar.

Continuo fascinado com isto tudo e pelo meio tenho a perfeita convicção que afinal poderei mesmo ter dormido com Pavlov."

in POSH, LAS DIVINAS PALAVRAS (AO CONTRÁRIO)

domingo, fevereiro 27, 2011

I'll Try Anything Once

Picture from Hello From Lisbon

Cheguei a casa e senti uma corrente de ar diferente.
Aproximei-me do meu quarto e a janela estava aberta.
O sol rasgava as paredes brancas e todo aquele espaço poderia fazer parte de um cenário realista qualquer a la Coppola.

Chego à janela e subi ao telhado.
A Lisboa com aquela luz incrível e o calor da chegada da Primavera serviam de baloiço a Matthew que estava estaticamente sentado sobre a água-furtada.

"Posso?" Perguntei eu já no telhado.
"Sim." Respondeu ele sem abrir os olhos.

Deitei-me ali a seu lado e aguardei que ele me contasse no momento que achasse que conseguiria.

"Dormi lá. Mas não aconteceu nada. E não consigo deixar de sentir que aconteceu tudo.
Falámos da vida nestes últimos anos desde que voltei. Falámos de amor. Do nosso amor.
Durante o sono os nossos corpos tomaram o controlo das nossas vidas. Lutámos para que nada de concreto acontecesse. Acordei com os primeiros raios de sol com a força do sexo que gemia entre os nossos poros. Senti-me em casa. Como se os anos não tivessem passado e ainda vivesse-mos juntos. Ainda fossemos quem éramos Fingi que nem me passou pela cabeça tomar banho a dois. Fingi que tudo aquilo tinha sido apenas reflexo de uma possível carência afectiva projectada numa pessoa que estava ali. Fingimos que não nos queríamos beijar. Fingi que aquela tosta não me recordou o sabor dos pequenos-almoços dos outros tempos. Segurei-me ao ser adulto e não consigo pensar noutra coisa senão em nós."

Sentei-me e perguntei: "Queres falar sobre isso? Não tem mal se vocês forem efectivamente os..."

Olhou-me nos olhos agora abertos e sorriu. Num tom baixinho disse apenas:
"Não. Vamos voltar a fechar os olhos e continuar a sonhar acordados com tudo isto aqui, pode ser?"


"Sim." Respondi eu e deitei-me novamente a seu lado.



Muzicons.com

***
"when i said ' I can see me in your eyes', you said 'I can see you in my bed', that's not just friendship that's romance too, you like music we can dance to, Sit me down, Shut me up, i'll calm down, and i'll get along with you,"
***
The Strokes

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sometimes


"Às segundas começo a semana cheio de força. Tudo parece pronto a aceitar as minhas alterações.
Às terças sinto a tua falta.
Às quartas sinto que estou a meio da semana e percebo que não vou conseguir cumprir tudo o que agendei mentalmente para tão poucas horas por dia.
Às quintas sinto a tua falta.
Às sextas acho que o mundo pode desabar mas eu quero é dançar.
Aos sábados gosto de aproveitar as maravilhas de, mais uma vez, viver no coração de uma cidade da Europa e poder saborear tudo o que isso tem de mais surpreendente.
Aos domingos sinto a tua falta.
"

in POSH, Las Divinas Palabras

quinta-feira, junho 25, 2009

Agora...

"
- Diz-me... o que me querias?
- Quando?
- À dois anos atrás.
- Agora?
- Sim, agora.
- Tudo.
- Agora?
- Não, agora ... nada.
- Como é que viemos aqui parar? Que forma é esta de nos vermos?... diz-me, estou só.
- Não te sei responder a essa pergunta. E mesmo que faça uma ideia, agora, já não quero.
- Não fazes ideia de como está a minha vida...
- Pois não, mesmo assim.
- Estou na merda, percebes? Agarra-me, da-me atenção.
- Quando?
- Agora...
- Agora?... lamento.
- Tu mesmo disseste que nunca seria tarde demais.
- À dois anos atrás...
- Sim... mas o que mudou?
- Tudo, sabes bem.
- Porque não te desarmas e me abraças de uma só vez?
- Porque nem sequer estou armado. Porque, agora, já não te quero abraçar.
- Continuas cruel... como és capaz? Eu estou aqui! Aqui! Tens noção?
- Tenho a mais perfeita e clara das noções... e nela, também sei que não continuo cruel mas sim real.
- É uma vingança? Diz, eu sei que merceço...mas nao agora... por favor...
- Não. Por muito que te fizesse feliz a ideia, não é de vingança que se trata. Trata-se de amor.
- Eu sabia que ainda me amavas... eu sabia. Então que sentido faz agora não me perdoares e me aceitares?... por favor, estou aqui, aqui.
- Lamento. Trata-se de amor, sim... mas por mim.
- Como te atreves?
- A me amar?
- Não, a não me amares a mim depois de tudo.
- Precisamente... depois de tudo.
- Da-me uma oportunidade, perdoa-me...por favor.
- Estás perdoado à já mais tempo do que possas imaginar.
- Podemos sair daqui então? Vamos até minha casa, afinal de contas ainda não a conheces.
- Podemos. Mas não para tua casa. Nem juntos sequer para lado nenhum.
- É por isso que te odeio... porque é que a nossa relação é assim?
- Chega... já bebeste demais.
- Porquê? Tens vergonha de mim agora? Tens medo que alguém repare?
- Chega... vai ter com os teus amigos...
- Está tudo demasiado vidrado na sua própria vaidade, ninguém repara, não te preocupes. Vem.
- Está toda a gente a olhar discretamente para nós, chega... nunca gostei de cenas em público, sabes bem. Vai-te embora, a sério... não piores as coisas.
- Ainda há qualquer coisa entre nós, eu sinto.
- Há... de facto. Um profundo respeito por tudo o que vivemos em tempos, e uma dolorosa tristeza por aquilo em que te tornaste.
- Odeio-te cabrão. Odeio-te.
- Eu também te amei um dia.
- Quando é que isto acaba? Daqui a dez anos?... daqui a dez meses? Diz-me...
- Já acabou à tanto tempo.... va, já chega... Vai-te embora, por favor.
- Quando?
- Agora. "

quinta-feira, outubro 09, 2008

domingo, fevereiro 18, 2007

Butterfly Effect


...and the color will be pink.

Como cegos



"E hoje percebi que ainda te amo.
Hoje assumiste que ainda me amas.
Hoje percebemos que o amor que afogamos cobardemente ainda subrevive a nós mesmos.

Os corpos que assumimos e os quartos distintos que acolhemos como novos não conseguem calar, a tempo inteiro, os gemidos deste sentimento só nosso.

A voz da consciência tudo nos varre e a força dos nossos braços em tudo se gasta neste suicídio líquido a que entregamos a nossa história.

Todos os filmes parecem falar de nós… todas as músicas parecem cantar-nos.
E só nós, os cegos, empenhados em cumprir o dever, não percebemos que ali existe. Um fragmento a descoberto que um dia, talvez um dia, nos traga de volta aquilo que fomos e nos varra a nós do amor que hoje fugimos, e que nunca deveria ter sido afogado.

Que o tempo nos sare as feridas em aberto. O âmago deste sofrimento tão coberto de mantos de veludo.
Que no regresso todos os diamantes tenham caído por terra… e que brilhem apenas os reais, os que reflectem a força e a vida deste, que embora fora de tempo, o tempo encarregará de nos mostrar ser o nosso amor.

Hoje deito-me sozinho porque já mais nenhum corpo estranho aguento para cobrir a dor.
Hoje deito-me no frio onde morrerei com a esperança de te ouvir acordar-me.

Talvez um dia… sem saber, “talvez”.

Amo-te… e como cego, com dor, nunca te o disse. "

18 Fev.2007

sábado, fevereiro 10, 2007

Last words of the first step


...e ao som
Strange Fruit


"Southern trees
Bear strange fruit
Blood on the leaves
And blood at the roots
Black bodies
Swinging in the southern breeze
Strange fruit hangin'
From the poplar trees
Pastoral scene
Of the gallant south
Them big bulging eyes
And the twisted mouth
Scent of magnolia
Clean and fresh
Then the sudden smell
Of burnin' flesh
Here is a fruit
For the crows to pluck
For the rain to gather
For the wind to suck
For the sun to rot
For the leaves to drop
Here is
Strange and bitter crop"


by Nina Simone

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Help yourself

E terminei hoje a história.
Ao som...

You can't change without someone's shadow
'Cuz then it's gone
when you still shine
You can't change to solve somebody's name
Don't blink until you're made

When all destroyed, broke all in Hell,
and you don't need what you could steal;
I'm feeling like something I don't know that's wrong
And I know the sad in my heart

Help yourself
Help yourself with what you need, yeah
Help yourself when
Help yourself when you don't need it
Help yourself


(...)

Death In Vegas inScorpio Rising
2002

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

in SEM TÍTULO


(...)
"Quem és tu afinal será a questão que levo apenas cravada no meu silêncio…
És uma mariposa ou apenas mais um insecto alado?
É um movimento contínuo, um gesto parado, uma quebra de ar nas tábuas de madeira que, de repente, parecem ter forrado também o teu chão."

in SEM TÍTULO
04.Fev.2007