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sábado, abril 12, 2014

Les Mauvais Garçon x La Grande Belleza


Tinhas tanta razão Mrs.Dalloway. Como sempre. Tinhas a razão e perspicácia do teu lado.
Estava um sol inacreditável e uma temperatura que nos rasgava da pele o inevitável. A vista sobre Lisboa tinha a mesma cota que aquele banco de jardim na Villa Borghese, lembras-te? Ironicamente ele também se sente em casa lá.

Tinhas razão. Fui encontra-lo no meu lugar, no meu velho cadeirão. Naquele irremediável Salão Pombalino vazio onde o som cheira a silêncio. Onde a vista pela cidade é soberba. Onde os azulejos azuis se deixam reflectir no chão de tábua corrida, e as paredes brancas fazem deslizar a luz até ao topo do pé direito alto.

A cadeira já não era a mesma. Era agora mais simplificada e forrada a cinza, com os braços a madeira envernizada. Era uma versão qualquer anterior à que todos usam do Van der Rohe. E não, não estávamos na vulgaridade de Barcelona. O tempo tinha passado e não deixava de ser irónico voltar a entrar naquele espaço.

Ele ouvia a mesma música que eu. Para além dos mesmos álbuns, ele ouvia a mesma rádio. Sentia a mesma sensibilidade ao passar-lhe mão na nuca. Usava um perfume com os mesmos ingredientes base. Era calado por opção. Quando eu não tinha opção. Era bonito mas fazia-me sentir que o devia fazer-se sentir ainda mais bonito do que já era. Tinha o traquejo e a malha certa. Usava as mesmas cores que eu. Tinha os dedos finos e gostava de se imaginar mais forte do que era naturalmente. Era gélido mas nos seus lábios derretia-se uma imensidão de ilusões cinematográficas. Fechava os olhos quando o beijava e transformava-se numa criatura frágil mas realista. Não gostava que eu sorrisse quando me beijava porque sempre entendeu que eu me estava a rir. Era delicado mas ágil. Falava a nossa linguagem e percebia até a minha cadência pelo náutico em nós. Não iria dar trabalho nenhum. Ansiava pelo Verão. O Inverno tinha sido rigoroso para todos e ele não escapara a um atropelo que tentava esconder por uma só razão. Desta vez fora ele a vítima. Tinha o humor negro e a acutilância dos nossos momentos mais criativos.
Tinha igualmente um sentido de observação cirúrgico e nada lhe escapava entre os dedos como gostava de imaginar. Cheirava bem. Tinha um som ensurdecedor misterioso por detrás do seu silêncio. Era bonito e tinha um nariz torto num ângulo que só eu repararia. Gostava dos mesmos filmes que eu. Dos mesmos jardins. Era do dia e não da noite. Mas desde o início que sempre te disse: "para além de todos os factos óbvios, ele tem qualquer coisa de errado que ainda não percebi bem".

Sentei-me perfeitamente consciente que do que estava ali a fazer. Como me ensinara a Piaf, vamos sempre preferir o fim ao feio.
Deixei-o por breves instantes ganhar fôlego e encher o ar com palavras cuja temática poderiam até abordar o tempo. Servi-me de mais um copo e recostei-me como quem se prepara para simplesmente ouvir.

Ele ganhava tempo e eu senti que não haveria nem mais um segundo a perder.
“O que é que eu estou aqui a fazer afinal Matthew?” perguntei em voz baixa.
Ele percebeu exactamente ao que me referia e, com o jeito de uma criança com uma agulha nas mãos deixou-me o tempo para ser eu a atalhar caminho.

“Estou aqui porque acabou e me vais querer explicar de alguma forma o que aconteceu. Estou aqui e não será na verdade por mim que me convidaste, mas sim por ti. Para que no fim, e apesar de tudo, eu guarde uma boa imagem tua e uma elegância no trato que paralisem qualquer possibilidade de te denunciar como um comum vulgar que tanto temes vir a ser. Não é?”

“ Essa é uma forma muito resumida e bruta de colocar as coisas, não achas?”

“ É esta a verdade e só esta. Não consegues dar mais um passo em frente porque ainda estás paralisado na história que trazes contigo. É normal, não tem mal nenhum. Tentaste mas afinal ainda não o esqueceste. Nada disso tem mal. O único erro foi teres-te dado conta disso a semana passada e desde então me teres deixado em banho-maria sem saber o que fazer. Nisso esperava outra coisa de ti. Sempre preferi o fim ao feio e devias tê-lo denunciado antes mesmo de surgir o vulgar.”

Seguiram-se então as horas da tarde e a honestidade em paz entre dois homens. Seguiu-se o reencontro que faria sentido e nesse momento dei comigo perplexo com a ironia de tudo ali.

E não era a ironia fácil. Os factos irónicos de, afinal de contas, mais uma vez e sem saber, os homens de camper e bigode egobust se fazerem sentir nas pontes marcadas desta vida em Lisboa.
Não. Não tão pouco a ironia de ele mesmo não saber que conheço o seu objecto de amor-ferido muito melhor do que ele possa pensar.

Talvez um pouco o rever de camarote todo aquele ballet rose que noutros tempos patrocinei. Mas ainda assim não.

A ironia soberba que ele não se deu conta, e que me escorre até então pelos lábios, é a o contraste das cores do crepúsculo que repentinamente se tornaram visíveis em mim, ao aperceber-me de que o que estava a acontecer era uma repetição mas agora em papeis contrários.

Dá-se o arrepio da constatação e ouve-se as cordas do cello que tinha deixado esquecido lá atrás. Ele era o perfeito reflexo do que fui. Ele vivia aquele momento que obriguei um outro a viver.
Não haveria nada a fazer senão esperar que o tempo naquele corpo, lhe lambesse a ferida a céu aberto e o levasse onde cheguei anos depois. Mas não deixava de ser vertiginoso o assistir aquilo tudo de novo.

Sete anos antes, depois de um jantar no Les Mauvais Garçon em que o David fechou a porta e deixou acabar o vinho sem tempo naquelas poltronas velhas de um cabedal cansado, acordei numa manhã igualmente cheia de calor e tinha uma mensagem que deixaram para mim.
“Ontem foi inspirador, tu és inspirador.
Fico assim....com vontade de absorver, de venerar o que é belo sem medo do que é superficial, com vontade de ouvir uma musica bonita e a preferia-la a uma conversa sobre a fome.
Os pormenores da vida devem ser desprezados, são ordinários.
Obrigado por tudo.   R. ”

O Matthew tinha-me feito regressar sete anos no tempo sem saber. Afinal eu era tão mais novo e ele ainda tinha tanto para aprender. O que nos distinguia agora não era no entanto a idade, era uma só coisa. A liberdade. A liberdade que só se conquista com a vida. E sete anos depois o olhar para trás levou-me numa grande viagem. Que no fim me deixa o travo de toda a La Grande Belleza.

Little Joy - Evaporar


terça-feira, abril 14, 2009

Le Temps De L'Amour


- Estava a ver que nunca mais chegavas bitch.
- Nem me digas nada, rasguei as collants a sair do metro...
- Uh... Nem quero saber porquê.
- Antes fosse por isso, mas em 3 linhas que apanhei até aqui não vi um único que valesse a pena.
- E este sol? Que merda é esta assim de repente? Doi-me tanto a cabeça...
- De ressaca, pois bem. Eu avisei-te ontém. O que é que estás a beber?
- Nem me lembres, estou-me a sentir as tuas collants rasgadas.
- Cabron!
- Mojito.
- Da-me um cigarro antes que os fumes todos.
- Bem ontém onde foste parar que quando fui tomar o pequeno-almoço já tinhas o telemóvel desligado?
- Estava a contar "raxas do tecto"... Nem me faças lembrar, eu sou mesmo otária e achei que era desta que aquele merdas me conseguia surpreender.
- Eu avisei-te. Mais ou menos quando me avisaste que iria estar de ressaca hoje.
- Foda-se... E estas putas destas collants que foram caríssimas. Acho que ainda passo ali em casa da Isabelle antes de irmos jantar para lhe pedir umas emprestadas.
- Olha, e pede-lhe também o irmão... para mim, hoje bem que dava umas trincas naquilo.
- Vinho no metro e uma anormal de uma velha vinha a falar daquelas balelas à neta. As estações do ano e merdas dessas, o que traz cada estação...
- Já te consigo imginar com vontade de vomitar em cima dela com esse teu look narcótico.
- Não, e o pior é que não se pode fumar lá dentro! É se ao menos eu pudesse fumar aquela agonia passava.
- Meu amor, só te falta mesmo isso...
- Mas bem, a puta da velha não se calava e eu rapidamente comecei a pensar na vida pra ver se não sentia a voz dela cheia a entrar-me pela cabeça. E cheguei a uma conclusão.
No Outono tu apaixonas-te sempre e eu termino relações...
- As relações que começam no Outono estão traçadas ao infortúnio regado de drama de classe B.
-...no Inverno soltam-se os vampiros da noite e esta cidade vira um bordel onde nos encontramos todos. Parecemos animais loucos ou estamos numa relação que vale a pena pelo frio que faz lá fora e o calor que nos faz a companhia;
- E as putas fingem-se santas e as santas revelam-se putas.
- Na primavera está tudo maluco. Tu geralmente acabas as tuas relações de Outono e la vens com a mania de mudar de lugar, mudar de vida. E eu estou a ver se não me deixo levar pela multidão de andorinhas que me agitam as hormonas.
- Tu só podes é ser parva! Desde quando ainda tens alguma relação de jeito na Primavera. És a primeira a dar sinal...
- ...pronto, chega o Verão! É a liberdade total! Ja toda a gente se bronzeou e fez dieta. O mundo pode estar a acabar mas estamos todos super giros e prontos pra todas as festas. As minhas relações vão ao ar e lá embarco na multidão. Toda a gente dorme com toda a gente (que já sabe que vai repetir nas noites frias do próximo Inverno) e acima de tudo está tudo felíz!
- Moral da história?
- Não sei, não tem moral possível mas... quando é que esta merda deste calor e chuva desaparecem pra vir o Verão mesmo?
- Mais dois Mojitos por favor. Vende Lucky Strike?

Le Temps De L'Amour
by Francoise Hardy


terça-feira, janeiro 06, 2009

Crap Kraft Dinner


Olhei para o relógio e reparei que ja estava atrasado. A noite nesta cidade faz-me às vezes perder a noção do tempo e desde que escurecera devo ter abrandado o passo.
Desço a avenida então num ritmo mais firme mudo a música do ipod.
Nada de malas, nada de atrelados.
De membros soltos levava apenas uma garrafa comprada momentos antes.
As pessoas, os carros, as luzes, as árvores, as montras… a cidade.
Gosto tanto de descer a avenida a pé que nunca me canso de o fazer.

3ºesq/ toquei.

Do intercomunicador reconheci algumas gargalhadas e tive logo a certeza de uma noite bem passada.
A Clara recebe-me enquanto o bando já se tinha apoderado daquela que já foi a nossa casa tantas vezes.
Os abraços, os beijos, o reecontros, as histórias, as novidades.

Algures entre a cozinha e a sala de jantar oiço:
- Vens reparar o tecto do corredor?Ela insiste em manter o “traço pombalino” mas esta merda qualquer dia cai-nos em cima da cabeça.
- Não, não vim reparar nada meu amor. Como estás? Não sabia que vinhas. Se soubesse tinha-te trazido o DVD.

- Era para não vir, mas depois comecei a imaginar-me sozinha em casa e vocês aqui… não resisti e vim o mais depressa que pude.

- Pois, realmente costumas aparecer sempre depois de mim.

- Hoje superaste-me meu amor.


E aquele sorriso, aqueles lábios. Ela é das mulheres mais bonitas que conheci. De uma elegância e de um carisma absolutamente apaixonantes. Eu mesmo, quando era mais novo, não lhe resiti. Lembro-me agora. E foi tão engraçado. Naquela altura era de facto tudo tão perfeito.

O jantar tinha decorrido como esperado. O saudosismo de uma vida inacreditável entre um bom grupo de amigos que, por muitos rumos diferentes que tenha assumido, nos manteve sempre com a mesma cumplicidade.
As histórias e os detalhes sórdidos de noites demasiado alcoolizadas, as desilusões de amores perdidos, a recordação de outras paixões já esquecidas. Foi tudo tão bom.
O céu estava incrível lá fora e quando me aproximei da varanda percebo que a Clara estava por ali.
- Então meu amor?À espera de mais alguém? Anda dançar… já estamos todos alegres, não fiques aqui assim.
- Vou já meu querido, vou já. Hoje não me disseste que estava bonita.

- Porque estás sempre e hoje não seria excepção…ora… o que tens?Não costumas ser assim.
- Da-me o teu copo…
- Clara, o que se passa?

- Tens um cigarro?
- Mas tu deixaste de fumar…
- Va, isso é o que digo ao mundo, a vocês não preciso mentir.

- Toma.

- Obrigado.

- Mas queres falar ou queres que eu volte para dentro.

- Não, não vás… ou melhor, vai,..vai querido.
- Tu és linda… e já estava na hora de esqueceres esse gajo.
- Eu sei meu amor, mas se até tu levaste tanto tempo…
- Por isso mesmo, não te quero ver perder tanto tempo como eu perdi.
- Como conseguiste esquecer?
- Esquecer nunca se esquece. Mas muda-se de lugar a lembrança. Acho que o momento decisivo foi quando eu deixei de achar que não seria capaz e passei a decidir que seria.
- Va… vai dançar. Eu já lá vou ter, só estou mesmo a precisar deste cigarro e juro que regresso para os vossos braços.

- Está bem… estarei ali à tua espera.


Beijei-a na testa e voltei para dentro.
Mesmo no meio da improvisada pista de dança não consegui deixar de a vigiar.
A noite era perfeita, a companhia também. Todos a dançar como se o movimento nos atirasse ao esquecimento dos nossos amores fatídicos e só ela, a grande domadora de leões, se deixara levar pela dor.

Vejo-a a entrar finalmente de regresso ao clã e, de copo na mão preso apenas pela ponta de dois ou três dedos, brindou-nos com a sua graciosidade.

A beleza daquele momento era incrível.
Homens e mulheres extraordinários. Não por serem deuses ou deusas gregas mas por serem verdadeiros deuses do mundo em si. A beleza de tudo. O bom gosto, a elegância, o gesto. Tudo.

Deixei-me levar e do meu ipod dediquei esta música a todos nós.
Afinal de contas a beleza, bem como a juventude, tem um preço que sabiamos muito bem ser o denominador comum.
Ainda assim, que se lixem os outros.
Na verdade nunca perdemos nada que tenha sido realmente nosso.
Porque se perdemos, é porque nunca, na verdade, nos pertenceu.

Só nós… nós sim, somos nossos. E não há música que, por isso, não possamos dançar, nem vida que não possamos ter.


Crap Kraft Dinner - Hot Chip

quinta-feira, dezembro 11, 2008

Contar um sonho é proibido.

photo by Ed Viggiani

"Quem contar um sonho que sonhou, não conta tudo o que encontrou…"

A vida dá voltas… ah se dá.

Estou aqui sentado a aguardar em silêncio. Esta sala de conforto tornou-se quente. Já não me lembrava como era à algum tempo…
Olho em redor e reparo nas caras dos estranhos. Uns estão acompanhados, outros, como eu, aguardam sozinhos.
O Inverno lá fora arrasta nos vidros alguma nostalgia.

O meu telefone toca e oiço a Isabelle, com insónias, a beber o seu vinho à janela, e eu nem lhe digo onde estou.
“Estou na minha casa nova. Daqui vejo a torre Eiffel.
Agora sempre que acordar vou-me lembrar que é isto… o sonho.”
- diz ela com a voz arrastada.

A vida dá voltas… ah se dá.

A Laura chega amanhã de Africa do Sul depois de quase 20 anos sem voltar a pisar aquela terra;
A Mrs.Dalloway recolhe-se em casa mantendo o silêncio da sua vontade. Ou a serenidade de quem sabe aguardar pelo momento certo sem que os “dias de entretanto” lhe pareçam pesados;
O Jonh exilou-se em terras distantes onde cozinha a sua procura pelo amor. Desespera e sente-se perdido naquele imenso hotel onde às vezes teme ter perdido o rumo;
A Leonor recosta o corpo no seu já “velho companheiro” e alivia o medo da possibilidade de ter que abandonar Amesterdão;
O Robert, em Londres, prepara-se para mais uma noite de recompensa com o seu novo amante e esquecimento do seu elouquecido noivado;
Também em Londres, o meu querido Lord Henry prepara-se para o embarque desta época em que recebe os abraços de tantos amigos que por cá deixou;
A Sofia divorciou-se;
O Miguel perdeu-se e deixou-se anestesiar na vertigem do demente Mr.Butterfly;
O Mr.Butterfly , depois de se relevar um simples insecto com asas, arrepia-se nos seus lençois enquanto tenta perceber o que fez à própria vida;
O Blue sente saudades dos tempos em que a subtileza das palavras criavam histórias e enredos em seu redor na procura da beleza e degustação da vida tangível;
O Sisley tenta refazer a sua vida a acreditar no amor com este novo rumo a que se entregou;
A Mariana prepara-se para finalmente viver a adrenalina do maior salto que dará sobre si. A vida é tão irónica que até ao ser mais perfeito obriga a trair para que possa ser recompensado de alguma forma;
A Sara adormece sozinha tentando não prestar atenção ao já longo atraso do seu marido;
A Piaf persente que não tarda chegará a hora de partir;
A Joana continua convencida que tudo se irá resolver e que num estalar de dedos voltará a ser o que era;
A Lúcia tenta adormecer a febre de ter regressado ao campo;
A Rita sucumbe aos poucos na imensa solidão a que se condenou pelos seus actos;
A Andreia reune forças para acreditar que chegou a hora de ser felíz;
O Willy adormece-se em mais uma linha de coca na esperança que um dia alguém o leve;
O Le Petit Prince tenta saborear todo o amor que a sua imensa vida consegue gerar;
O Matthew adormece cheio de medo de nunca vir a ter coragem de resgatar a Isabelle;
A Isabelle tenta adormecer no cansaço de tanto pensar nas voltas que a vida dá;

E eu estou aqui, sentado, no aeroporto, também eu a pensar nas voltas que a vida dá… ah se dá.

"Quem contar um sonho que sonhou, não conta tudo o que encontrou.
Contar um sonho é proibido.
"

domingo, novembro 16, 2008

Contra Luz

photo by João Paulo

Junto ao museu da electricidade, 17h.

- Tu estás bem?
- Tu? Aqui?
- Isso pergunto eu, o que estás a aqui a fazer?
- Vim apanhar ar e aguardar o por-do-sol no Tejo.
- O quê? Tens noção?... tu odeias essas coisas...
- Eu preciso destas coisas, não sabias? Mas bem, e tu? O que fazes aqui?
- Vim ver a exposição e até encontrei a Laura lá dentro.
- Ela está aqui?...vou-lhe ligar... ela não chegará a tempo mas assim que escurecer ainda nos resta a noite e tanta coisa...
- Tu estás bem? Já viste bem como estás...simples.
- Eu sou tão mais simples do que aquilo que possas imaginar.
- Hum...ok...mas se precisares de alguma coisa liga. Eu vou ter que ir a Santos mas de qualquer forma estarei por perto.
- Ok, obrigado, mas não será preciso.

O sol afundou-se, por fim, no Tejo. Um espectáculo glorioso a que assistia quando sente uma mão sobre o ombro.

- Laura?
- Sim, seu eu meu querido...mas fala baixo. É lindo não é?
- Incrível, ainda à pouco falei de ti e achei que já não chegarias a tempo...
- Achas mesmo que o deixaria desaparecer sem o contemplar no adormecer?
Existem certas coisas na vida que sabes bem que preciso. Esta é uma delas. E existem momentos perfeitos como este...em que te encontro a ti também aqui.
- Ainda seremos os dois animais feridos que se arrastam no asfalto lambendo as feridas?
- Não... hoje aquecemos assim a pele para que as fendas não demorem muito a fechar.
Sabes que não tiveste a culpa, não sabes?
Sabes que também eu não tive a culpa, não sabes?
- Sim... acho que tens razão.

- Tenho... e agora vamos, já escureceu e estou faminta. Vamos regressar à cidade e procurar os clarões dos candeeiros.

domingo, setembro 28, 2008

The Passenger

E se algum dia acordares e não te recordares de muito mais para além dos últimos anos que passaste na clínica de recuperação?
Perguntou a “bela e perigosa” Julian.

**


Estávamos algures entre o final de um Verão fugaz e o início de um Outono promissor. Num patético domingo em que Pietro se chegara mesmo a questionar se deveria acordar ou deixar que o dia passasse.

Vinham-lhe à memória as conversas e os saltos-altos de Piaf. A erudita inteligência daquela figura que entre linhas soltava um perfume qualquer que lhe nutria a pele com um pacto com o diabo.
A sua companhia era tão agradável e cénica que parecia querer definir o mundo com as teias que descosiam.

Uma das coisas mais extraordinárias naquela mulher era ter a perfeita consciência que, de Pietro, poderia arrancar tudo à excepção da resposta a uma única pergunta que silenciosamente o intelecto os permitiu acordar jamais ser feita. Se algum dia ela o fizesse saberia que a resposta nunca poderia ser totalmente verdadeira e isso iria estragar a verdade entre eles.
Um pacto de inteligência, um rasgo de sensatez.

Entre os corpos naquela mancha de gente já se passeava sozinho na noite seguinte. Ao subir da calçada cheia de gemidos começa a embriaguez da vaidade. Os abraços sedutores, as palavras superficiais, os gestos encenados… a mancha de figurantes que encobre os actores.

Susan tinha chegado à conclusão que o divórcio poderia vir a ser uma realidade. A dupla de amigos que a ladeava para que a colossal imagem não desmoronasse fazia de um tudo para relembrar que é nestas alturas que a superficialidade e o devaneio da vaidade nos serve.
A melhor anestesia de todas é o reflexo da beleza que conseguimos encontrar no olhos dos figurante quando nos desejam a embriaguez.

Dois passos em frente e Pietro Venucci ouve o seu nome a ser gritado ao mesmo tempo que alguém lhe derrama um copo de vinho em cima. Era a personagem com pretensões a aristocrata. Ridículo! As novas-putas estavam la todas. As aspirantes a novas ricas, os travestis e os quase travestis. As lésbicas famintas e os hetero modernos.

Mais um copo no bar de sempre e ao balcão ouve o nome da raposa. A raposa estava na cidade e andava disfarçada por aquelas ruas lembrando-o a ele o risco da parte menos racional de si.
Sai pela porta principal e lança um olhar de reconhecimento entre a multidão. Nada.
O território estava limpo.

Solta uma gargalhada e percebe que já à muito tempo não sentia o vampirismo daquela noite. Cobre-se com a capa e fura aqueles corpos para abandonar o palco sem que ninguém desse conta.
O telefone toca:
- Sim?
- Onde estás?
- A sair da cidade…
- Não saias… estamos a chegar à toca, vem ca ter que temos um saco de moedas douradas.


Ergue a mão e pára um taxi em pleno largo onde centenas de pessoas se rebolavam embriagadas em despedidas e guerrilhas sentimentais. Os tristes, os sós, os felízes, os anestesiados, os reais e os apenas superficiais.
Rouba o taxi à fila que por tantos aguardava e sente-se um marginal.
Voa até à toca e ao entrar sente a dificuldade do seu sangue em manter o equilíbrio naquelas escadas.
A música… o grande Zeus da sua existência… a maldita droga que o comandava desde sempre.
Prevê a malícia e vai de encontro a quem o aguardava.
Uma garrafa em comemoração… Uma qualquer comemoração que ninguém sabia mas isso também nada interessava.
Eram os dandies e os dada, os yupies e os wanna-be, os loucos e os contemporâneos. No fundo, alguns não passavam de retardados modernistas que tentavam a todo o custo imprimir páginas de existência com a ilusão de um charme tão frágil como as colossais expressões deles.

A músicaaaa… a música… e o seu corpo em alta temperatura deixando-se tocar pelo mundo e pelos corpos mundanos que não seguravam a saliva nos lábios.

O sexo.
O alarme.

De repente o corpo que o aguardava ao sono surge preocupado avisando que o William estava a passar mal lá fora.
Merda de amadores que insistem em drogas baratas e engolem um pilão inteiro de MD sem pensar duas vezes.
Lá foi ele ver o que se passava e a decadência imperava naquele beco escuro da velha cidade onde se escondiam dos dois polícias que vigiavam os excessos da toca.
Três corpos regurgitantes e moribundos faziam o maior esforço da vida para se livrarem de “todo o mal” que a infantil gula lhes tinha enfiado no estômago. Ridículos.

- Ed, já não tenho idade nem paciência para aturar estas merdas… eu estava tão bem lá dentro.
- Eu sei, desculpa, mas não sei o que faça. Ajuda-me.
- Chama uma merda de uma ambulância se nalgum momento esta triste cena piorar. Fazem-lhe uma lavagem ao estômago e amanhã já está pronto. Eu vou para dentro que aqui está frio.
- E deixas-me aqui, com eles?
- Sim… qualquer coisa vai ter comigo lá dentro.

Uma hora depois Pietro abandona o local do crime. Procura pelos corpos dramáticos na rua onde os deixara e como não os viu calculou que estava tudo bem.
Dirige-se à rua principal e enquanto espera por distinguir um taxi pára um carro que ostentava todos os clichés da nova burguesia.

- Perdido?…não quer uma boleia para casa?
- Boa noite… não, estou só à espera de um taxi.
- Mas eu levo-o o casa e metemos a conversa em dia. Afinal de contas desde que me deixou especado no Lapa Palace que nunca mais conversámos.


(este era um típico novo rico daqueles que ninguém sabia de onde tinha surgido e que caíra de chapão na cidade. O típico patético que achava que o seu dinheiro era a porta de entrada para a aceitação entre a tribo e que uma noite montou um cenário gigante de mordomias para o conquistar.
Pietro ainda se lembrava dessa noite. Ainda se lembrava da cara do camarero no salão de entrada quando saiu. Do olhar mordaz do jardineiro e roupa de noitada com que saira pela porta principal. No fundo até tinha alguma pena dele… o pobre rapaz era apenas uma pessoa pouco inteligente que só queria ser aceite.)

- Achei que tínhamos acordado não falar sobre isso..
- Tem razão… o que lá vai lá vai e não quero perder a sua amizade por isso. Eu no fundo até compreendi.
- Levas-me a casa então?
- Claro, com todo o gosto.

Estava então ele a rebaixar o corpo para entrar naquele carro rasteiro quando de repente sentiu que não o poderia fazer. O pobre desgraçado iria novamente alimentar uma ilusão de amizade e a queda seria ainda maior.
Mesmo bêbado, encheu-se de dignidade e disse..

- Scott, não posso… Mas um dia beberemos um copo, prometo.

Pára um taxi e atira o seu corpo cansado lá para dentro.
Desaparece na estrada e adormece na anestesia do seu sangue ao som Iggy Pop que o taxista, numa rádio qualquer, insistia em ouvir.
O mundo pareceu-lhe perfeito… o acaso daquele momento fechava na perfeição a bando sonora daquele fim-de-semana.E mais uma vez recordou as palavras de Piaf… e sim… a vida era um grande conjunto cénico.


The Passenger - Iggy Pop

sábado, agosto 23, 2008

O regresso...


Às vezes pensamos que o termo “para sempre”, muito embora o conheçamos apartida como uma fraude garantida entre pedras, nos define a eternidade de uma vida. Nessas mesmas vezes olhamos sobre o ombro e erguemos de seguida a cabeça num olhar forte e directo que contempla apenas o caminho a seguir em frente, ignorando por completo tudo o que ficou para trás.

Escondemos de nós todos os artefactos que nos recordem o passado que decidimos assim chamar no exacto segundo em que decidimos partir.
Nada nos poderá perturbar o ritmo ou a coreografia de um novo desenho no ar a que nos ensinam a chamar de novo.
E é do alto dessa certeza que nos entregamos ao espaço e deixamos que as tábuas de um palco façam do nosso corpo estendido o que bem entenderem.

Descobrimos de facto um mundo novo, uma imensidão de vida em nós que jamais imaginámos existir. Caminhamos pelo nosso próprio pé e assumimos o luto do passado que nos pesa no andar.
Morremos.
Para nascer efectivamente de novo.
***

Numa tarde de Verão ao contemplar o seu próprio disfarce no coração da cidade o telefone toca.
Era um número aparentemente desconhecido mas o indicativo exterior rapidamente o fazia recordar a outra. A outra cidade que por ele esperava. A outra perpétua morte que em tempos lá deixou.

- Hello?
- Sou eu, podes falar em português que já tenho saudades.
- Não acredito…
- Sim, sou eu.
- Isabelle?
- Oui, c’est moi.
- Como estás?…esse sentido de humor e oportunidade…
- Estou óptima meu amor, e tu? Perdido?
- Talvez… Mas porque perguntas?
- Porque ainda não voltaste a Paris e Lisboa já não te reconhece. Como foste capaz? Confesso que me surpreendeste.
- Estava a precisar… sufocou-me o exagero do meu regresso e precisei de ar.
- Sabes que a maioria das pessoas que te rodeava acha que voltaste a fugir. Ninguém te vê, ninguém te encontra. Foi uma jogada de mestre sim senhor. O eterno mito que sai de cena entre o fumo que deixa apenas as tábuas sob a luz.
- Tu e o teu dramatismo… olha foi exactamente esse âmago que me levou a fugir, vou esse mesmo sentimento que me trouxe de volta, e voltou a ser essa a razão pela qual desapareci mesmo sem mudar de cidade.
- Volta para Paris… aqui ninguém te merece.
- Aqui? Onde estás?
- Sim, estou em Lisboa…
- Estás a brincar… onde estás?
- Aqui mesmo, neste largo de Camões onde te sentaste quando atendeste o telefone, olha para o fundo… em direcção ao Adamastor…


E ela estava ali, exactamente ali… em contra luz com a silhueta opulenta e sinuosa de sempre. Os anos não tinham passado por ela, estava mais bela e mais radiante que nunca.
Salto alto vermelho tal e qual como se tinha despedido em tempos.

Desligaram os telefones e aproximaram-se um do outro.
- És completamente louca… o que fazes aqui?
- Vim ontem e amanhã mesmo regresso a Paris. Estava a precisar deste ar, desta dor, desta puta desta cidade. Mas deixa-me olhar para ti…
- Como me apanhaste aqui? Acabo de sair da agência e por mero acaso parei aqui no Chiado para comprar gomas… incrível.
- “Não existem passos divergentes para quem se quer encontrar”, já te tinha dito em tempos.
- Tu não és normal… que estranho… acho que ainda nem estou em mim.
- Va, abraça-me e deixa-me cuidar de ti.

Não demorou muito tempo até sentirem a virtude da força que sempre existiu ali. Não demorou muito mais o encontro e como se no dia seguinte se fossem ver, como se o tempo não tivesse passado, despedem-se à boca do metro deixando os perfumes entranhados entre si.

E nunca mais voltou a ser o mesmo.
Como se de repente senti-se o calor do disfarce e o peso da ausência.
Foi jantar com mais amigas que também não via à muito tempo (à tempo demais, agora sabia-o) e no regresso do vinho e das gargalhadas deu-se conta do quão a vida o tinha feito diferente.

Chegou a casa e não estava lá ninguém…
Afinal de contas tinha voltado a dormir sozinho e o silêncio tinha voltado como na altura em que tinha fugido desta cidade.

Olhou para o chão do quarto enquanto abria outra garrafa. Ergueu o queixo e decidido decide abrir uma das caixas já fechadas. Na aparelhagem recorda uma das muitas músicas do seu “antigamente” ali.
Acende um cigarro e deu-se conta que ao longo daquele ano já passado depois de tudo, o seu bilhete de avião já perdia a cor. Sorriu no reviver de cada momento e fragmento de imagem que guardaria para sempre daquela imensa história vivida.
O momento da notícia, o divórcio, a fuga… o bilhete só de ida. O Inverno mortal, o luto e o abandono. A demência e as promessas. As decisões e os vícios. A primavera e as viagens. A mala nova e os tantos destinos. O cheiro das chegadas a cidades desconhecidas, o sabor das novas refeições e a gargalhada em diferentes línguas. Os corpos amantes e os delírios da liberdade. As paixões e os excessos. O regresso titânico e as extravagâncias de uma nova profissão. A vaidade e a luxúria, e as noites em festa pelo simples prazer de viver. A segunda fuga e o desaparecimento. O disfarce e o esquecimento… as revelações e a verdade. A dor e a realidade.

Pegou na caixa de música e no silver scarf, no alfinete de Versailles e no cálice, na caixa das memórias e no livro. Retirou-os das caixas onde adormeciam à força e espalhou-os pelo espaço como se de quadros de família se tratassem.
Sorriu e olhou-se no espelho.
Recordou-se de todos os tons da luz que e só a ele lhe pertenceram, celebrando o que de melhor conhecera em vida – a felicidade brutal da total consciência da fortuna em si - e simplesmente verbalizou:
I´m back!