sábado, agosto 23, 2008

So free..

photo by Paul Bradbury

- Trouxeste o vinho?
- Não! Esqueci-me!...vamos voltar atrás.
- Não é preciso, paramos numa loja qualquer a caminho e compramos.
- Não, vamos voltar atrás.
- Por favor, ela não se importa e já estamos atrasados... que exagero.
- Não, já estou a voltar atrás. Fica no carro que eu vou só lá acima buscar a garrafa.


A mesma sala, o mesmo sofá, a mesma mesa, o mesmo cheiro.
Ao abrir da porta consegui reconhecer até nela o estranho que era voltar a ver aquela imagem de novo a entrar-lhe pela casa a dentro.
Ela tinha um novo look. Uns óculos vermelhos que lhe abriam o sorriso de sempre.
Procurei no olhar da anfitriã o conforto do reconhecimento de que aquela imagem era, ao final de tanto tempo, no mínimo estranha.

A mesma sala, o mesmo sofá, a mesma mesa, o mesmo cheiro.
O chegar atrasado de outros tempos marcava o ritmo da recordação.
O pele de pêssego verde aveludado do sofá serviam de recurso gráfico às histórias recordadas e recontadas ao outros dois corpos sentados à mesa.

A mesma luz, o mesmo café, a mesma chávena.
Restávamos três do passado e os segundos relembravam os outros dois de longe que agora eram substituídos por outros dois mais de perto.
Não nos pertenciam, não faziam parte da parte daquela história.

- Os homens não usam jóias Tiago.

Mais uma vez o “eu ajudo-te a levantar a mesa” e eu ali sentado à mesa a fazer sala a quem fica, a fazer sala a mim mesmo.
Termino o vinho que, invariavelmente, começa e acaba em mim e olho em redor.
Onde estás?... como é que a vida aqui te trouxe depois de tudo?
Suspiro e no ultimo travo do cigarro adormeço o corpo e deixo-o apenas ser guiado.

O mesmo tabuleiro, as peças que restam, novas casas a ser habitadas.
Eu já não moro aqui.
Ainda assim tudo me parece perfeito. As voltas que tudo deu para vir parar exactamente aqui, onde tudo devia ter ficado.

- Os homens não usam jóias Tiago.
Não estes homens deste jantar, mas para sempre os homens de sempre.



So Free (3 Acts)

Love is getting you bored
It's so hard
For me and for you
And everyday
I wake up and say
It's gonna be a brighter day

You left me alone
As you walk out the door
And you broke us apart
You broke us apart

This time is for good
I would cry if I could
It's so hard
But it's better for my heart

Away from me
Away from me now
Now
From me now

You got to be
You got to be so free

Le Petit Trianon

Chovia em silêncio , naquela Primavera senil, quando se despediu pela primeira vez de si mesmo naquela história.

No banco do jardim repetia a imagem e as palavras daquela personagem que partira do palácio.
Estava doente, e o seu corpo denunciava a cada gesto o desiquilíbrio de uma vida demasiado intensa até ali.

Anoiteceu e ali continuava. Com o seu vinho, o seu cigarro, o seu livro e as suas infinitas recordações de detalhe e beleza em tudo o que viveu.
Arrefeceu e com um simples gesto percebe o fim. O manto de veludo negro, que terminava seguro num remate barroco de fio de ouro, estava de regresso sobre si de uma forma tão natural que nem se deu conta. Estava frio e não conseguia deixar de rever os fragmentos da repetição da vida ali. Exactamente ali. Onde um dia, também já para lá daqueles muros, entre as seteiras, se despediu a primeira vez daquele corpo.
Regressara ao luto e na mão guardava o telegrama vindo do outro lado do Oceano, escrito por um amigo hoje mais sereno que lhe perguntava: "Chegou mesmo ao fim, não chegou?Esta na hora de virar as últimas páginas do livro. Percebo que sintas chegada a hora. Parte. "

O silêncio é enterrompido por uma voz:
- A LadyLime chegou. Está pronto para sair? Está tudo pronto para jantare na cidade com a máxima tranquilidade...
- Peça-lhe para aguardar um pouco no salão. Afinal de contas perdi-me nas horas e não será assim que quero recebe-la.

Já não via aquela amiga de longa data à muito tempo. Jantaria com ela e recordaria a saudade que lhe tinha abandonando o palácio e celebrando algures pela cidade.

Amanheceu e a primeira coisa que se perguntara era se iria conseguir passar outro tanto tempo sem ela. Passaram tanto e tão bom tempo juntos que até aquele dia não percebia como a vida os tinha feito não mais viver no mesmo condado. Ficava a esperança do seu regresso e o sorriso que sempre deixa marcado por onde passa. Seria uma irmandade para a toda a vida e isso por si só já lhe dava a certeza do “para sempre” que em poucos lugares encontrou na sua viagem.

Abre as janelas e ao pequeno almoço decide partir.
Recordava o mundo como ele era e abraçou-se em despedida com a saudade do que ele foi.
Fez as malas e partiu.
Em silêncio, ao entardecer, rumo ao exílio de si mesmo, rumo a Petit Trianon.


The Reason Why...

photo by Ghiotti
Lembras-te do dia em que nasceste?
Eu recordo-me como se fosse hoje... eras uma criatura tão pequena que quando te soprei temi rasgar-te a pele.

359 dias... 359 dias depois. E és capaz de respirar no mesmo espaço que eu sem que o segredo se revele entre os teus lábios.
Quando foi a ultima vez que me terás conseguido olhar mesmo nos olhos sem o arrepio da verdade a descoberto?

Queres saber porque é que ainda não disse que hoje sei de tudo?
Porque se o fizesse agora nem o percebias de tão pequeno que é esse mundinho e vidinha em ti.

Queres saber porque é que ainda não te matei?
Porque nem darias conta.


Adore Adore - Yoav

O bilhete...


Um bilhete ao fundo da cama.

A luz de um fim de tarde. Um corpo petreficado no término de um arrepio.


" Apesar de impossível, farei com que apartir deste momento a importância e relevância do que tinha para te dizer morra aqui mesmo, assim... agora.


Que a vida um dia te surpeenda e te faça lembrar a ironia dos factos em ti.


Que numa gargalhada se revele toda a compaixão por estecorpo que rejeitas com demasiada força. E que ao olhares para trás no tempo me revejas o rosto com aquela expressão de felicidade... Que te aperecebas que já não cá estarei, porque um dia abandonei Versailles."

|| Champs Fatais ||


Isabelle:
Como estás amor?

Matthew:
Estou a transformar-me fatal para incendiar aquele Casino, onde levitarei em perfume envenenado até ao amanhecer...

Isabelle:
Eu também me vou passear pelos Champs com umas amigas...

Matthew:
Grita em suspiro o meu nome pelos Champs. Devolve-me à cidade.

Isabelle:
"Pelo suicídio da noite negra consomes o teu próprio sangue...revoltado com a rebuliao de sentimentos que te atravessa nesta hora...é o diamante ensaguentado a mostrar-te outra face, outro reflexo...que afinal somos humanos, frágeis e vulnuraveis...com o sabor a cinza na saliva e um pesadelo de imagens, memorias em chamas, és todo sofrimento e angustia...mas ninguém disse que era fácil, este jogo estúpido do amor, da paixão doentia...da possessão...ninguem disse que era fácil...cansa ser perfeito todos os dias."

O brinde.

Estava Rouge timidamente pelo quarto a pensar exactamente no mesmo... Desce a escadaria, abre a porta de casa e no jardim procura uma carta perdida que não estava presente.
O telefone toca...


Bleu:
Ontem foi inspirador, tu és inspirador.
Fico assim....com vontade de absorver, de venerar o que é belo sem medo do que é supercial, com vontade de ouvir uma musica bonita e a preferia-la a uma conversa sobre a fome.
Os pormenores da vida devem ser desprezados, sao ordinários.
Obrigado por tudo.
"é frequente desencadearem-se as verdadeiras tragédias da vida de uma maneira tão pouco artística que nos magoam com a sua crua violencia, a sua tremenda incooerência, carecem absolutamente de sentido, sem o minimo estilo. Afectam-nos do mesmo modo que a vulgaridade"
(...)
"por vezes porém cruzamo-nos na nossa vida com uma tragédia repassada de elementos de beleza artistica. se esses elementos esteticos sao autenticos, todo o episódio apela à nossa apreciação do efeito dramático. De repente deixamos de ser actores e passamos a espectadores da peça. Ou antes, somos ambas as coisas. Observamo-nos, e todo o encanto do espectáculo nos arrebata"
Um brinde à tua vida!
Rouge:
Um dia, eu menos elegante, tu mais elegante... eu menos aristocrata, tu mais aristocrata... ultrapassadas todas e quaisquer barreiras, olhamos um pro outro de uma forma diferente e casamos!Que achas?
Bleu:
Sim...
Quando as nossas orgias se resumirem a um optimo filme e um bom copo de vinho.
Rouge:
"Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer(Acho que te criei no interior da minha mente)"

IT´S A NEW WORLD...

photo by Zac Macaulay

It´s a new life...