terça-feira, janeiro 03, 2012

Royal T



Welcome 2012!

"I don't wanna hear the alarm
You don't have to use your charm
You don't have to break my arm
Sleeping does it always
I decide when I decide
I am in the mood right now
Baby can we (...)
"

segunda-feira, dezembro 12, 2011

Uma questão de tempo, ou prioridade.

" O Tempo é uma questão de gestão de prioridades. Se for prioritário fazer determinada coisa, acabas por arranjar tempo para ela. Se, na verdade, não for assim tão importante, o tempo encarrega-se de te ocupar nesse espaço."

Where are we going?


photo from Joesee

Saiu do hotel já se aproximava do meio-dia.
Havia qualquer coisa de familiar naquele ritual.
O porteiro abre a porta e deseja-lhe um bom dia. Aconchega-se no seu casaco de inverno e sorri como se retribuísse com calor o gesto.
Dois passos na rua e pára para que o gelo se fizesse sentir sobre a cara.
O motorista abre a porta do carro e, entre o jornal e as revistas do dia que estavam sobre o banco, repara numa moeda.
- Vamos para o aeroporto?
- Não, vamos a casa primeiro que me esqueci de deixar lá uma mala que não quero levar comigo.

- Não sei se teremos tempo.
- Teremos. Trata-se de uma viagem inevitável mas sem qualquer sentido se não fizer esta devolução.


We Bros

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Red Wine I


- Sabes, não sei como é que aconteceu. - disse.
Sentei-me no sofá a seu lado e deixei-me ficar ali porque senti chegado o momento. Pressentia há semanas que a razão do seu silêncio, e a ausência das suas grandes noites pela cidade, teriam uma razão contida. Sentei-me e limitei-me a ouvir.

- No outro dia que me ligaste e não atendi, estava em casa da Lilly. Doía-me o corpo todo e naquela noite senti que nada me poderia interromper o momento.
Estávamos novamente os quatro como sempre imaginámos. Tínhamos o tempo todo do mundo e estávamos estranhamente em catarse emocional.

De repente, sem sabermos como, nós não estávamos juntos há meses e parecia que o mundo tinha acelerado no entretanto e nos levado para um aeroporto comum.
Como se estivéssemos sentados à espera do voo já definido e estivéssemos em silêncio a olhar para os bilhetes de uma estranha "terra nova".
Cheguei atrasado, para variar. Mais uma vez o meu emprego tinha engolido o meu tempo de vida e mais uma vez provocado a desilusão nos seus olhos.

Cheguei a tempo dos primeiros copos de vinho antes de jantar.

A Mrs. Lilly estava grávida de 8 meses e a viver naquela casa. Nos seus olhos conseguia-se ver a Lilly de antigamente em que o gelo do seu cérebro falha e a pele ganha calor.
A Mrs.Sophia tinha terminado a sua relação horas antes e, agora Miss, com a mesma força com que aguenta o roubo da sua jóia, aguentava-se de pé e de copo na mão, bem na esquina da bancada.
Mrs. Dalloway estava impecável dos pés à cabeça, como sempre, e falava das mudanças para a cidade. Na cara trazia uma expressão diferente quando me olhava nos olhos. Um medo.

De repente a Sophia desata a chorar do nada.
- O que foi? - Perguntei eu de imediato. E instintivamente abraçamo-la em conjunto e em silêncio resolvemos o assunto em segundos. Arrancada uma gargalhada e estávamos prontos a transmitir-lhe a certeza que tinha tomado a decisão certa e que, tal como o amor, a sua vida toda iria melhora.
Mrs. Dalloway, como sabes, sempre foi inigualável em colocar-nos de pé.

Tantas vezes me perguntei como era capaz. De onde vinha aquela força interior inesgotável. Para além da admiração e amor, ela tornou-se uma verdadeira crença na minha vida. E aquilo que tínhamos ali, aquela família como gostávamos de falar, fora construído por ela e era hoje absolutamente vital a qualquer um de nós.

Depois do jantar, em que regressámos às memórias de uma vida em comum e partilhámos a indignação pela ausência dos últimos tempos e o prazer pelo acertar de um passo, ela sentou-se ao meu lado no pátio interior junto ao beiral de plantas.
Senta-se a meu lado e pergunta:

- Tens lume?
- Tenho. Sinto que tens qualquer coisa para me dizer desde que cheguei.
- Tenho.
- Eu sei, tenho andado distante mas eu já te disse, é apenas um Inverno em nós.
- Recuso-me! Lá vens tu com essa história novamente... É isso que não entendo, como é que tu aceitas uma monstruosidade dessas?
- Estou tão cansado meu amor, mesmo...
- Eu sei e é isso mesmo que me assusta. Parece que perdeste a luz. Não me lembro de te ver assim em toda a minha vida. Estás calado, ausente e uma pessoa olha para ti e parece que carregas o peso de mundo às costas.
- Eu sei, é horrível. E eu que sempre odiei pessoas assim... Desculpa. Eu sei que não era o esperado de mim mas nem eu sei como é que aqui vim parar.
- Eu sei. É esse emprego e aquele de quem não se diz o nome.
- Eu sei... Mas, não consigo. Perdi-me de mim, não me reconheço. Lembras-te quando decidi mudar de rumo e aceitei este trabalho? Fabuloso, tudo fabuloso e agora nem me reconheço.
Sempre soube que teria que usar uma capa, criar uma personagem. Mas às tantas, as horas dessa pele foram-se somando e engolindo as horas da minha outra vida, a minha verdadeira vida. Aquilo não sou eu mas não tenho vida, e nas poucas horas que não me roubam, sou aquilo em piloto automático. Aquela personagem cínica e fria. Não tenho tempo para mim, para a minha família, para vocês. E quando consigo ainda venho em personagem.

Já não posso jantar num restaurante qualquer, ir ao bar de sempre, dançar até cair e dizer asneiras bem alto. Não, estará sempre alguém por perto a ver, que tenha que encarar nos dias seguintes num contexto qualquer profissional.

Embruteci. No outro dia, na vossa conferência, dei comigo envergonhado pela sede que tinha de certas palavras, significados e significantes, sabes? Senti-me como se estivesse a olhar para fotografias de uma identidade que já fora a minha. Tive tantas saudades do meu mundo.

- Ainda bem que reconheces, era mesmo isso que te queria dizer. Mas ainda bem que sentes o mesmo. Estás irreconhecível. Faz quaquer coisa.
- Estão aqui à conversa de parte? Tens um isqueiro?
- Tenho, toma. Estava aqui a dizer-lhe que estou muito cansado e daí a minha ausência. O monstro engoliu-me e sinto falta de ar.
- Pois eu percebo-te... E falaste-lhe também da outra história? É que isso também não te tem ajudado.
- Ainda não chegámos aí.
- Sim, mas também era isso que queria dizer-te. Essa pessoa suga-te. É um infeliz por opção e arrasta-te há mais de cinco anos com ele. Por favor, acaba com isso.
- Eu sei, tens razão... mas eu amo-o.
- Se ele te amasse da mesma forma estava ao teu lado e não ignorava a tua existência.
- Eu já lhe tinha dito isso Mrs. Dalloway. Se bem que acho que se ele sente que ainda deve tentar mais uma vez ser humilhado, porque é isso que está garantido, que o faça. Quanto mais não seja para ir ao fundo de vez e se levantar de seguida definitivamente.
- Tinha esperanças... cofesso que até há bem pouco tempo apostei as minhas fichas neste cavalo. Afinal de contas poderia ter sido uma história de amor brilhante com tudo o que tem direito. Mas chega. Estás de rastos, isto não pode durar mais tempo.
- Eu sei... têm razão. Eu só preciso de lhe dizer na cara, a olhar-lhe nos olhos, o que sinto pela última vez.
- Desculpem interromper mas a grávida estáva-se a sentir sozinha na cozinha. Qual é o tópico?
- Eu e Mrs. Dalloway estavamos a dizer-lhe que esta história com aquele de que não se diz o nome tem que terminar. Mas ele sente que precisa de uma conversa final.
- Por favor, isso é mais do mesmo. Se achas que precisas vai. Mas na verdade sabes bem que isso só se resolve quando tu já não sentires necessidade dessa conversa. Tu amas essa criatura, é um facto. Ele não te ama ou pode até amar, mas de uma forma muito infeliz e tu mereces ser feliz.
Tens que decidir seguir em frente sozinho. Por ti. Sem conversas nem desabafos. Simplesmente virar as costas e seguir em frente.

Calou-se por instantes e ficou ali a olhar para a janela. Eu deixei-me ficar imóvel e perguntei:

- E o que tencionas fazer?
- Esta conversa não me sai da cabeça. E sinceramente, não sei o que fazer.
- Vais falar com ele?
- Ele não me deixa.
- Foi por isso que terminaste a relação em que estavas há dias.
- Sim, não é justo. Não sou essa pessoa que deixa que alguém crie expectativas que eu saiba que irei defraldar.
- Percebo...
- Não sei mesmo como é que vim aqui parar. Mas sinto que uma coisa eu sei: isto assim não é forma de viver e tenho que mudar alguma coisa aqui.

segunda-feira, outubro 17, 2011

BERLIM I

Photo by Tiago Veiga
7'Julho'11

"Ontem foi o dia em que percebi que te teria que escrever.
Troquei de hotel para um bem mais simpático na zona nobre da cidade, mas ainda assim faltava-me qualquer coisa.

Quando se viaja sozinho, passados os primeiros dias de liberdade e entusiasmo, falta-nos sempre alguma coisa. Falta-nos sempre alguém.

Fui à Berlim Fashion Week e depois aproveitei para passear e fazer umas compras.
Passei um bom bocado no "Café Cinema", no Mitte.
Estava por lá absorver o quão familiar tudo me parecia, e dei comigo num regresso a Londres, numas das muitas fugas dos 20 anos.
Daquele café respondia ao telefonemas que procuravam soluções para o VFNO, e rapidamente me recordei que não estava ali de férias.

Chegaram dois rapazes com umas guitarras. Eu deixei-me estar a viajar pelos tons quentes daquelas paredes e pelas memórias de uma juventude móvel, somente com um cigarro e um sumo de maçã.
Tocaram três músicas do instrumental de Caetano Veloso e foram-se embora.
Eu fiquei ali. Estático no absurdo de todo aquele momento tão geograficamente improvável.
Na reacção à bagagem que me preseguia, decidi ir cortar o cabelo e levantei-me para que nada falhasse no evento de hoje à noite. Adoptei o corte de Berlim.

Regressei ao Hotel e fui mais uma vez sozinho à procura de um restaurante para jantar.
Sempre achei demasiado deprimente jantar em hoteis onde irei dormir.
Parei finalmente no Lieu - um restaurante Vietnamita com uma comida incrível.

Chega o meu copo de vinho tinto - um sul africano qualquer que passou a ser a minha companhia da noite - e ligam a música ambiente.
"Dance With Me Litle Stranger" pelos Nouvelle Vague, e não consegui evitar o sorriso.
Há de facto qualquer coisa de irónico nesta cidade.
Depois de uma refeição suberba regresso finalmente ao hotel e, pelo caminho, começa a chover. Não acelerei o passo... antes pelo contrário, e soube-me bem.

Hoje comecei o dia com a exposição que muita gente com quem nos cruzamos deveria vir ver.
Escondida na Jebenstrasse, dentro do Museum für Fotografie, está todo um universo brilhante de fotografias do grande Helmut Newton. É incrível o que não sabemos. Os anos 70 e os meados de 80 foram de facto extraordinários.

Agora mesmo, estou sentado na cafetaria da Bahaus Archiv.
Desde míudo que sonhava vir aqui e ainda estou em completo nirvana.
Acho que o dia de hoje trouxe uma nostalgia criativa que pressinto vir trazer-me algo de volta.
Quando te conheci eu ía ser o melhor designer além fronteiras... e de repente apercebo-me que nem sei como aqui vim parar."

domingo, julho 03, 2011

Morder-te o Coração

Fiz as malas e entrei no avião.
Ao topo da mala de mão que fiz à pressa sinto o livro que para ali tinha atirado.
Trouxe-o à tona e olhei para a janela.
Estamos em velocidade cruzeiro e a verdade morava ali.
Recordei-me do incrível que foi quando li aquele livro pela primeira vez.
Estava de luto, igualmente a sós, na Holanda.
Abri a primeira página e decidi mergurlhar-me na memória.

"ELE

Tu já não te lembras. Foi há dez anos, neste mesmo quarto, a olhar o Pico, os barcos, o azul-cinza do mar calmo, a cama por fazer, os livros e as revistas espalhadas, tu à janela, a olhar para fora e depois, sem pressa, num gesto pausado, a camisa de alças a fugir do teu ombro, uma alça apenas, fininha, o teu sorriso a crescer e a frase

Anda, anda morder-me o coração.

Tinhas, naqueles dias, a tranquilidade. como se estivesses bêbada de paz, o teu corpo andava pelas ruelas a dançar numas sandálias de corda e pano, azul-celeste. Comias gelado com cuidado para não sujares as mãos e ouvias-me falar, os teus olhos prisioneiros nos óculos escuros, enormes, de massa preta, anos 50. Eu falava depressa, de tudo, contava-te a minha infância, os dias negros no liceu de padres, a tarde em que rasguei a garganta com o fumo de um cigarro enrolado à pressa no quarto do meu primo Francisco.

Descrevi-te em pormenor as sardas da minha primeira paixão, a curva acentuada do ventre, como se estivesses grávida, grávida de doces, pipocas e rebuçados de papel brilhante vermelho Bolas de Neve.

Disseste que os rebuçados eram bolas de neve e esse reconhecimento comoveu-me, como se fizesse mesmo parte do meu mundo, como se dominasse uma linguagem interdita aos outros, tão natural para nós.

Sentada na esplanada da ilha, com os pés enrolados debaixo das pernas bronzeadas, a ponta do vestido a espreitar a tua coxa, distraída, brincavas com os dedos enquanto eu prosseguia na minha história e, depois de me ter despejado para cima de ti, todas as minhas verdades, todas as minhas mentiras, olhaste com aquele sorriso pequenino. Declaraste-me oficialmente o homem do teu Verão. E cumpriste a tua palavra.

Ficámos os dois a ver os barcos e a comer devagar refeições de pão e queijo, peixe e mariscos. Quando falavas - e tu raramente falavas -, era sobre a tua casa, a planície e o rio. Tinhas inveja da ilha por ter mar, por ter liberdade, mas contavas histórias sobre as barcas nos rios e foi contigo que aprendi que quem navega não sabe conversar porque o rio tece mistérios vedados às palavras. Contaste-me que em Veneza os gondoleiros têm barbatanas nos pés para poderem andar em cima da água.
Riste-te, lançaste a cabeça para trás e os teus óculos caíram na calçada, um barulho de plástico a revirar nas pedras. Foi então que descobri o rio nos teus olhos e comecei a amar-te.

Todos os anos venho aqui. Fico no mesmo quarto e vejo-te, de manhã, enconstada à brisa que te levantava os cabelos, a dizer

Anda, anda morder-me o coração.

*


ELA


A questão não é saber se o amor nos aconteceu. Isso é tão relativo que o silêncio é o melhor. Percebe-se melhor.

Naqueles dias eu achava que não éramos nada, tu e eu.


Podíamos dormir juntos. Podia sentir o teu suor sobre o meu peito, os teus ruídos na casa de banho, a forma como mastigas a pastílha elástica, elegante, por vezes entreabrindo a boca num sopro que se aproxima de um suspiro. Podíamos rir e chorar, contar as deventuras da adolescência, porque nada do que era verdade e, por isso, me poupava nas palavras, para não te castigar com tantas mentiras.


Tudo o que passámos, naqueles dias, não era definitivo, não tinha coordenadas futuras, seria, por fim, o crescendo que iria morrer de repente. Olhava-te no sono e pensava que sabia exactamente a data em que o amor se iria desfazer.


A ilha estava congelada no nosso abraço. Nos teus pensamentos era tudo o que fazia sentido. Eu tinha um prazo. Uma vida à minha espera, um regresso feito de poucas memórias. Ficarias em terra, náufrago de mim, sem perceber os destroços de nós.


Sabia exactamente o vermelho do sangue que te iria escorrer da alma, como uma tinta, como um salpico de dor demasiado forte para o teu corpo magro.


Não tenho coração, pensava nas noites em que ficávamos a olhar o reflexo da lua no atlântico.

Tu contavas a história do duende prateado que tem que acender as luzes todas do mar da tranquilidade. Ele que prometeu ao sol que pode dormir sossegado. Haverá sempre uma luz para espantar as coisas más.


Quando me fui embora, não deixei morada.

Hoje, quero que saibas que não te disse nada e quando te pedi para me morderes o coração era só para me certificar de que ele existia no meu peito. Tu preferiste beijar-me, nunca me mordeste e, assim, fiquei sem saber."





in Morder-te o Coração de Partícia Reis