"as vezes temos q andar mais devagar, nao devemos fazer esperar a vida, mas tb nao lhe devemos virar as costas qd ela espera por nós, ha q saber gerir esta dualidade... é a temperança"
E se algum dia acordares e não te recordares de muito mais para além dos últimos anos que passaste na clínica de recuperação? Perguntou a “bela e perigosa” Julian.
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Estávamos algures entre o final de um Verão fugaz e o início de um Outono promissor. Num patético domingo em que Pietro se chegara mesmo a questionar se deveria acordar ou deixar que o dia passasse.
Vinham-lhe à memória as conversas e os saltos-altos de Piaf. A erudita inteligência daquela figura que entre linhas soltava um perfume qualquer que lhe nutria a pele com um pacto com o diabo. A sua companhia era tão agradável e cénica que parecia querer definir o mundo com as teias que descosiam.
Uma das coisas mais extraordinárias naquela mulher era ter a perfeita consciência que, de Pietro, poderia arrancar tudo à excepção da resposta a uma única pergunta que silenciosamente o intelecto os permitiu acordar jamais ser feita. Se algum dia ela o fizesse saberia que a resposta nunca poderia ser totalmente verdadeira e isso iria estragar a verdade entre eles. Um pacto de inteligência, um rasgo de sensatez.
Entre os corpos naquela mancha de gente já se passeava sozinho na noite seguinte. Ao subir da calçada cheia de gemidos começa a embriaguez da vaidade. Os abraços sedutores, as palavras superficiais, os gestos encenados… a mancha de figurantes que encobre os actores.
Susan tinha chegado à conclusão que o divórcio poderia vir a ser uma realidade. A dupla de amigos que a ladeava para que a colossal imagem não desmoronasse fazia de um tudo para relembrar que é nestas alturas que a superficialidade e o devaneio da vaidade nos serve. A melhor anestesia de todas é o reflexo da beleza que conseguimos encontrar no olhos dos figurante quando nos desejam a embriaguez.
Dois passos em frente e Pietro Venucci ouve o seu nome a ser gritado ao mesmo tempo que alguém lhe derrama um copo de vinho em cima. Era a personagem com pretensões a aristocrata. Ridículo! As novas-putas estavam la todas. As aspirantes a novas ricas, os travestis e os quase travestis. As lésbicas famintas e os hetero modernos.
Mais um copo no bar de sempre e ao balcão ouve o nome da raposa. A raposa estava na cidade e andava disfarçada por aquelas ruas lembrando-o a ele o risco da parte menos racional de si. Sai pela porta principal e lança um olhar de reconhecimento entre a multidão. Nada. O território estava limpo.
Solta uma gargalhada e percebe que já à muito tempo não sentia o vampirismo daquela noite. Cobre-se com a capa e fura aqueles corpos para abandonar o palco sem que ninguém desse conta. O telefone toca: - Sim? - Onde estás? - A sair da cidade… - Não saias… estamos a chegar à toca, vem ca ter que temos um saco de moedas douradas.
Ergue a mão e pára um taxi em pleno largo onde centenas de pessoas se rebolavam embriagadas em despedidas e guerrilhas sentimentais. Os tristes, os sós, os felízes, os anestesiados, os reais e os apenas superficiais. Rouba o taxi à fila que por tantos aguardava e sente-se um marginal. Voa até à toca e ao entrar sente a dificuldade do seu sangue em manter o equilíbrio naquelas escadas. A música… o grande Zeus da sua existência… a maldita droga que o comandava desde sempre. Prevê a malícia e vai de encontro a quem o aguardava. Uma garrafa em comemoração… Uma qualquer comemoração que ninguém sabia mas isso também nada interessava. Eram os dandies e os dada, os yupies e os wanna-be, os loucos e os contemporâneos. No fundo, alguns não passavam de retardados modernistas que tentavam a todo o custo imprimir páginas de existência com a ilusão de um charme tão frágil como as colossais expressões deles.
A músicaaaa… a música… e o seu corpo em alta temperatura deixando-se tocar pelo mundo e pelos corpos mundanos que não seguravam a saliva nos lábios.
O sexo. O alarme.
De repente o corpo que o aguardava ao sono surge preocupado avisando que o William estava a passar mal lá fora. Merda de amadores que insistem em drogas baratas e engolem um pilão inteiro de MD sem pensar duas vezes. Lá foi ele ver o que se passava e a decadência imperava naquele beco escuro da velha cidade onde se escondiam dos dois polícias que vigiavam os excessos da toca. Três corpos regurgitantes e moribundos faziam o maior esforço da vida para se livrarem de “todo o mal” que a infantil gula lhes tinha enfiado no estômago. Ridículos.
- Ed, já não tenho idade nem paciência para aturar estas merdas… eu estava tão bem lá dentro. - Eu sei, desculpa, mas não sei o que faça. Ajuda-me. - Chama uma merda de uma ambulância se nalgum momento esta triste cena piorar. Fazem-lhe uma lavagem ao estômago e amanhã já está pronto. Eu vou para dentro que aqui está frio. - E deixas-me aqui, com eles? - Sim… qualquer coisa vai ter comigo lá dentro.
Uma hora depois Pietro abandona o local do crime. Procura pelos corpos dramáticos na rua onde os deixara e como não os viu calculou que estava tudo bem. Dirige-se à rua principal e enquanto espera por distinguir um taxi pára um carro que ostentava todos os clichés da nova burguesia.
- Perdido?…não quer uma boleia para casa? - Boa noite… não, estou só à espera de um taxi. - Mas eu levo-o o casa e metemos a conversa em dia. Afinal de contas desde que me deixou especado no Lapa Palace que nunca mais conversámos.
(este era um típico novo rico daqueles que ninguém sabia de onde tinha surgido e que caíra de chapão na cidade. O típico patético que achava que o seu dinheiro era a porta de entrada para a aceitação entre a tribo e que uma noite montou um cenário gigante de mordomias para o conquistar. Pietro ainda se lembrava dessa noite. Ainda se lembrava da cara do camarero no salão de entrada quando saiu. Do olhar mordaz do jardineiro e roupa de noitada com que saira pela porta principal. No fundo até tinha alguma pena dele… o pobre rapaz era apenas uma pessoa pouco inteligente que só queria ser aceite.)
- Achei que tínhamos acordado não falar sobre isso.. - Tem razão… o que lá vai lá vai e não quero perder a sua amizade por isso. Eu no fundo até compreendi. - Levas-me a casa então? - Claro, com todo o gosto.
Estava então ele a rebaixar o corpo para entrar naquele carro rasteiro quando de repente sentiu que não o poderia fazer. O pobre desgraçado iria novamente alimentar uma ilusão de amizade e a queda seria ainda maior. Mesmo bêbado, encheu-se de dignidade e disse..
- Scott, não posso… Mas um dia beberemos um copo, prometo.
Pára um taxi e atira o seu corpo cansado lá para dentro. Desaparece na estrada e adormece na anestesia do seu sangue ao som Iggy Pop que o taxista, numa rádio qualquer, insistia em ouvir. O mundo pareceu-lhe perfeito… o acaso daquele momento fechava na perfeição a bando sonora daquele fim-de-semana.E mais uma vez recordou as palavras de Piaf… e sim… a vida era um grande conjunto cénico.
Às 20h já no vintage bar, chega Piaf deslumbrante que rapidamente se juntou ao vinho que já Kat e Harry partilhavam. Os veludos e as peles, os tons fortes e apaixonados de uma época dividida, aperfeiçoavam o toque do imenso tabuleiro de xadrez onde se debruçavam à gargalhada e tantas vezes em indignação.
Foram jantar e Piaf conduz os corpos já elaborados até "ao inferno". Cocktails e brindes, música e jogos de sedução. Gestos e histórias. Gargalhadas e confissões. No "comboio do mal" o três celebravam de alguma forma a imensa juventude que lhe corria nas veias de prazer.
Harry afasta-se da pista de dança e dirige-se à casa-de-banho já aflito de tantos líquidos. Na escadas, ele... Já se conheciam, sabiam perfeitamente quem eram, nunca se cumprimentavam. Mesmo depois daquela "festa fúnebre" onde foram oficialmente apresentados. Avança e decidido fita-lhe o olhar estendendo a mão. A cortesia era um gesto que ele, sem saber porquê, esperava daquela personagem.
- Olá, tudo bem? É a fila? - Olá, é sim... - Fuck, ainda te tenho à minha frente. - Troco o meu lugar por uma bebida. - Que bebida? - Cuba-libre. - Aceito.
Uma agradável surpresa, uma noite "fucking fabulous" como gostava de dizer. Mas já no taxi rumo a casa deu consigo a pensar: "Hum... quem diria."
Foi exactamente assim... Não houve rap-francês, porque para mim decidiram que teria que ser um som do Prince (acho porque na recepção mencionei o dia fatigante que tinha tido e a imensa necessidade que tinha de me revitalizar) e uma hora depois já via as linhas a coserem tudo. Tal como sempre imaginei.
Foi assim, foi exactamente assim... Hoje, dois dias depois, ainda fechado nestas quatro paredes mas já com acesso ao mundo, atendo o telefone e oiço uma voz com uma banda sonora por trás.
- Estou a deprimir... so sei que vou sair, e vou beber, e vou dançar e vou esquecer.... Estás a recuperar bem?
A ti, my dear Isabelle, dança, bebe, grita, esquece... que existem momentos que devemos mesmo celebrar a anestesia.
Um bicho animal, um bicho do mato cujos os olhos escuros levantaram a questão num corpo tão tenro e naife. Os passos leves de uma criatura sem abrigo entre a multidão fizeram-no fechar os olhos e imaginar a grande selva que ali o abraçava. Invisível, divisível... estranho.
photo byCarlos Amaral
Olhei para ele no momento exacto em que trapezista o abordava.
Aproximei-me e ouvi:
- Até que enfim te encontro. Tiveste ausente, toda a gente tem perguntado por ti. - Deixa-me. Esse mel que escorre das tuas presas já não me crava nada na pele. - Estás outra vez tão bêbado e drogado... - Estou de volta, não era o que queriam? Por inteiro...eu. - Mas vem comigo, eu levo-te a casa... - Tornaste-te numa personagem ridícula e nem te deste conta. Larga-me, eu já te disse. Esquece-me. Ainda agora cheguei a esta noite e tu serás a última pessoa com quem a quero celebrar. - Estúpido... - Eu sei que me amas. E obrigado pelo gesto em si.
Largou aquele ser e deslizou pela calçada a sós. Procurava aqueles olhos escuros, aquele bicho animal.
Não sei ao certo em que momento decidiram, não sei ao certo se houve um momento. Sei que às tantas já estavam à conversa, conseguia vê-los entre a multidão. E que de repente ele se dirige a mim e despede-se com o seu antigo abraço e baixinho diz:
- Vou-me embora entre aqueles que me tocaram a alma e não conseguiram despertar o meu corpo e aqueles que me tocaram no meu corpo e não conseguiram atingir a minha alma. Existe uma criatura misteriosa nesta noite... a tentação hoje é um pecado que prevejo nos meus lábios.
Às vezes pensamos que o termo “para sempre”, muito embora o conheçamos apartida como uma fraude garantida entre pedras, nos define a eternidade de uma vida. Nessas mesmas vezes olhamos sobre o ombro e erguemos de seguida a cabeça num olhar forte e directo que contempla apenas o caminho a seguir em frente, ignorando por completo tudo o que ficou para trás.
Escondemos de nós todos os artefactos que nos recordem o passado que decidimos assim chamar no exacto segundo em que decidimos partir. Nada nos poderá perturbar o ritmo ou a coreografia de um novo desenho no ar a que nos ensinam a chamar de novo. E é do alto dessa certeza que nos entregamos ao espaço e deixamos que as tábuas de um palco façam do nosso corpo estendido o que bem entenderem.
Descobrimos de facto um mundo novo, uma imensidão de vida em nós que jamais imaginámos existir. Caminhamos pelo nosso próprio pé e assumimos o luto do passado que nos pesa no andar. Morremos. Para nascer efectivamente de novo.
***
Numa tarde de Verão ao contemplar o seu próprio disfarce no coração da cidade o telefone toca. Era um número aparentemente desconhecido mas o indicativo exterior rapidamente o fazia recordar a outra. A outra cidade que por ele esperava. A outra perpétua morte que em tempos lá deixou.
- Hello? - Sou eu, podes falar em português que já tenho saudades. - Não acredito… - Sim, sou eu. - Isabelle? - Oui, c’est moi. - Como estás?…esse sentido de humor e oportunidade… - Estou óptima meu amor, e tu? Perdido? - Talvez… Mas porque perguntas? - Porque ainda não voltaste a Paris e Lisboa já não te reconhece. Como foste capaz? Confesso que me surpreendeste. - Estava a precisar… sufocou-me o exagero do meu regresso e precisei de ar. - Sabes que a maioria das pessoas que te rodeava acha que voltaste a fugir. Ninguém te vê, ninguém te encontra. Foi uma jogada de mestre sim senhor. O eterno mito que sai de cena entre o fumo que deixa apenas as tábuas sob a luz. - Tu e o teu dramatismo… olha foi exactamente esse âmago que me levou a fugir, vou esse mesmo sentimento que me trouxe de volta, e voltou a ser essa a razão pela qual desapareci mesmo sem mudar de cidade. - Volta para Paris… aqui ninguém te merece. - Aqui? Onde estás? - Sim, estou em Lisboa… - Estás a brincar… onde estás? - Aqui mesmo, neste largo de Camões onde te sentaste quando atendeste o telefone, olha para o fundo… em direcção ao Adamastor…
E ela estava ali, exactamente ali… em contra luz com a silhueta opulenta e sinuosa de sempre. Os anos não tinham passado por ela, estava mais bela e mais radiante que nunca. Salto alto vermelho tal e qual como se tinha despedido em tempos.
Desligaram os telefones e aproximaram-se um do outro. - És completamente louca… o que fazes aqui? - Vim ontem e amanhã mesmo regresso a Paris. Estava a precisar deste ar, desta dor, desta puta desta cidade. Mas deixa-me olhar para ti… - Como me apanhaste aqui? Acabo de sair da agência e por mero acaso parei aqui no Chiado para comprar gomas… incrível. - “Não existem passos divergentes para quem se quer encontrar”, já te tinha dito em tempos. - Tu não és normal… que estranho… acho que ainda nem estou em mim. - Va, abraça-me e deixa-me cuidar de ti.
Não demorou muito tempo até sentirem a virtude da força que sempre existiu ali. Não demorou muito mais o encontro e como se no dia seguinte se fossem ver, como se o tempo não tivesse passado, despedem-se à boca do metro deixando os perfumes entranhados entre si.
E nunca mais voltou a ser o mesmo. Como se de repente senti-se o calor do disfarce e o peso da ausência. Foi jantar com mais amigas que também não via à muito tempo (à tempo demais, agora sabia-o) e no regresso do vinho e das gargalhadas deu-se conta do quão a vida o tinha feito diferente.
Chegou a casa e não estava lá ninguém… Afinal de contas tinha voltado a dormir sozinho e o silêncio tinha voltado como na altura em que tinha fugido desta cidade.
Olhou para o chão do quarto enquanto abria outra garrafa. Ergueu o queixo e decidido decide abrir uma das caixas já fechadas. Na aparelhagem recorda uma das muitas músicas do seu “antigamente” ali. Acende um cigarro e deu-se conta que ao longo daquele ano já passado depois de tudo, o seu bilhete de avião já perdia a cor. Sorriu no reviver de cada momento e fragmento de imagem que guardaria para sempre daquela imensa história vivida. O momento da notícia, o divórcio, a fuga… o bilhete só de ida. O Inverno mortal, o luto e o abandono. A demência e as promessas. As decisões e os vícios. A primavera e as viagens. A mala nova e os tantos destinos. O cheiro das chegadas a cidades desconhecidas, o sabor das novas refeições e a gargalhada em diferentes línguas. Os corpos amantes e os delírios da liberdade. As paixões e os excessos. O regresso titânico e as extravagâncias de uma nova profissão. A vaidade e a luxúria, e as noites em festa pelo simples prazer de viver. A segunda fuga e o desaparecimento. O disfarce e o esquecimento… as revelações e a verdade. A dor e a realidade.
Pegou na caixa de música e no silver scarf, no alfinete de Versailles e no cálice, na caixa das memórias e no livro. Retirou-os das caixas onde adormeciam à força e espalhou-os pelo espaço como se de quadros de família se tratassem. Sorriu e olhou-se no espelho. Recordou-se de todos os tons da luz que e só a ele lhe pertenceram, celebrando o que de melhor conhecera em vida – a felicidade brutal da total consciência da fortuna em si - e simplesmente verbalizou: I´m back!