" A minha vida não tem nexo,
dar-lhe um rumo é dar-lhe um fim."
by Piaf
sexta-feira, outubro 24, 2008
quinta-feira, outubro 09, 2008
sexta-feira, outubro 03, 2008
The Pleasure is all Mine
Quando o segredo do amor se revela maior do que o da própria morte.
De repente estava ali, sentado, com o corpo totalmente dormente.
As luzes e as gargalhadas em redor do, agora vulnerável, pedaço de carne, recriavam o cenário de todos os bordeis.
As cortinas de veludo, com o vento, acariciavam-lhe as pernas numa qualquer parte que não conseguia reconhecer. O feitiço. A maldição.
- Theo, estás bem? Vou buscar mais umas bebidas... estás a precisar.
Gritava ela insana numa euforia em que a anestesia a fazia voar entre a multidão de morcegos e vampiros iluminados.
Os olhares, as línguas mal presas naquelas bocas... os dedos que percorriam as formas todas e de todos.
Theo recupera e levanta-se lentamente. A força de uma memória contaminada rebentava com o que restava da saliva no seu olhar. Era urgente beber... a anestesia estava a enfraquecer e com isso trazia a consciência de tudo aquilo que queria inconsciente.
Arrasta-se dançante por fim. Os seios de Penélope e o longo cabelo de Sylvia.
O perfume... o som. A vibração da mais repetida das orgias que, entre o som, quebrava os encarnados fortes de todos os tons, e bombeava a veias nocturnas de todos os prazeres. O sexo. A vaidade.
Camilla volta e desta vez com uma bandeja que pelo caminho prometia atirar ao ar juntamente com os seus vintage red shoes. Procura por ele que já não revê no corpo que agora o substituía naquela cama dourada.
Estava à beira rio, no bar.
Talvez se tenha cansado de esperar ou talvez tenha sentido a urgência de veneno naquela garganta. Erguia a pose mas não conseguia evitar que o seu próprio cabelo dominasse a sua face. Estava absolutamente morto, estava finalmente de regresso à vida em si.
Ao fundo acena com toda a cortesia despedindo-se assim de um dos corpos modelo com quem tinha partilhado a lascívia horas antes... ou minutos... nunca o iria conseguir definir. Era o prazer desmesurado pelo gesto, era a contenção do seu peito e a diligência do seu perfume.
Faziam exactamente dois anos, exactamente naquele espaço, exactamente com a mesma cor. As luzes encarnadas e magentas que entre os quadrados minúsculos dos puristas resguardos inundavam as caras, os corpos, os cheiros, os sabores de todos os figurantes.
Dois anos antes, naquele chão de madrugada imunda, tinha partido o colar de pérolas.
Estava até então secretamente a juntar as suas partículas.
Ergue mais uma taça de champanhe e brinda ao inferno. Recorda-se da sua vida e pergunta a um estranho o que fazia ele ali.
O estranho, num estado deplorável e profundamente infeliz responde:
- Estou morto, já não aguento mais. O sol já nasce e eu estou aqui a adormecer. E tu?
- O sol já nasceu e eu acho que acabo de acordar.
Abandona o grande palco, a sua velha Catedral dos Murmúrios, já à porta deixa-se registar.
- Só uma foto meu querido, va lá... não pensava ir assim embora sem deixar a imagem.
Fez o número, cumpriu com o seu papel e sem peso abandona a cena. Entra no taxi e sem olhar para trás sorriu. Agora não do estado físico nem do estado de espírito...mas sim do imenso prazer da vida em si e da brutal vontade de todos os regressos.
***
CONTUSÃO
a cor aflui
ao local, púrpura e baça
o resto do corpo
está sem cor,
a cor da pérola.
numa cavidade da rocha
o mar sorve obsessivamente,
uma concavidade, o centro de todo o mar.
do tamanho de uma mosca,
a marca do destino
rasteja pela parede.
o coração fecha.se,
o mar retira.se,
os espelhos estão velados.
Sylvia Plath (1932.1963), pela água
quinta-feira, outubro 02, 2008
domingo, setembro 28, 2008
A Temperança
The Passenger
E se algum dia acordares e não te recordares de muito mais para além dos últimos anos que passaste na clínica de recuperação?
Perguntou a “bela e perigosa” Julian.
Perguntou a “bela e perigosa” Julian.
**

Estávamos algures entre o final de um Verão fugaz e o início de um Outono promissor. Num patético domingo em que Pietro se chegara mesmo a questionar se deveria acordar ou deixar que o dia passasse.
Vinham-lhe à memória as conversas e os saltos-altos de Piaf. A erudita inteligência daquela figura que entre linhas soltava um perfume qualquer que lhe nutria a pele com um pacto com o diabo.
A sua companhia era tão agradável e cénica que parecia querer definir o mundo com as teias que descosiam.
Uma das coisas mais extraordinárias naquela mulher era ter a perfeita consciência que, de Pietro, poderia arrancar tudo à excepção da resposta a uma única pergunta que silenciosamente o intelecto os permitiu acordar jamais ser feita. Se algum dia ela o fizesse saberia que a resposta nunca poderia ser totalmente verdadeira e isso iria estragar a verdade entre eles.
Um pacto de inteligência, um rasgo de sensatez.
Entre os corpos naquela mancha de gente já se passeava sozinho na noite seguinte. Ao subir da calçada cheia de gemidos começa a embriaguez da vaidade. Os abraços sedutores, as palavras superficiais, os gestos encenados… a mancha de figurantes que encobre os actores.
Susan tinha chegado à conclusão que o divórcio poderia vir a ser uma realidade. A dupla de amigos que a ladeava para que a colossal imagem não desmoronasse fazia de um tudo para relembrar que é nestas alturas que a superficialidade e o devaneio da vaidade nos serve.
A melhor anestesia de todas é o reflexo da beleza que conseguimos encontrar no olhos dos figurante quando nos desejam a embriaguez.
Dois passos em frente e Pietro Venucci ouve o seu nome a ser gritado ao mesmo tempo que alguém lhe derrama um copo de vinho em cima. Era a personagem com pretensões a aristocrata. Ridículo! As novas-putas estavam la todas. As aspirantes a novas ricas, os travestis e os quase travestis. As lésbicas famintas e os hetero modernos.
Mais um copo no bar de sempre e ao balcão ouve o nome da raposa. A raposa estava na cidade e andava disfarçada por aquelas ruas lembrando-o a ele o risco da parte menos racional de si.
Sai pela porta principal e lança um olhar de reconhecimento entre a multidão. Nada.
O território estava limpo.
Solta uma gargalhada e percebe que já à muito tempo não sentia o vampirismo daquela noite. Cobre-se com a capa e fura aqueles corpos para abandonar o palco sem que ninguém desse conta.
O telefone toca:
- Sim?
- Onde estás?
- A sair da cidade…
- Não saias… estamos a chegar à toca, vem ca ter que temos um saco de moedas douradas.
Ergue a mão e pára um taxi em pleno largo onde centenas de pessoas se rebolavam embriagadas em despedidas e guerrilhas sentimentais. Os tristes, os sós, os felízes, os anestesiados, os reais e os apenas superficiais.
Rouba o taxi à fila que por tantos aguardava e sente-se um marginal.
Voa até à toca e ao entrar sente a dificuldade do seu sangue em manter o equilíbrio naquelas escadas.
A música… o grande Zeus da sua existência… a maldita droga que o comandava desde sempre.
Prevê a malícia e vai de encontro a quem o aguardava.
Uma garrafa em comemoração… Uma qualquer comemoração que ninguém sabia mas isso também nada interessava.
Eram os dandies e os dada, os yupies e os wanna-be, os loucos e os contemporâneos. No fundo, alguns não passavam de retardados modernistas que tentavam a todo o custo imprimir páginas de existência com a ilusão de um charme tão frágil como as colossais expressões deles.
A músicaaaa… a música… e o seu corpo em alta temperatura deixando-se tocar pelo mundo e pelos corpos mundanos que não seguravam a saliva nos lábios.
O sexo.
O alarme.
De repente o corpo que o aguardava ao sono surge preocupado avisando que o William estava a passar mal lá fora.
Merda de amadores que insistem em drogas baratas e engolem um pilão inteiro de MD sem pensar duas vezes.
Lá foi ele ver o que se passava e a decadência imperava naquele beco escuro da velha cidade onde se escondiam dos dois polícias que vigiavam os excessos da toca.
Três corpos regurgitantes e moribundos faziam o maior esforço da vida para se livrarem de “todo o mal” que a infantil gula lhes tinha enfiado no estômago. Ridículos.
- Ed, já não tenho idade nem paciência para aturar estas merdas… eu estava tão bem lá dentro.
- Eu sei, desculpa, mas não sei o que faça. Ajuda-me.
- Chama uma merda de uma ambulância se nalgum momento esta triste cena piorar. Fazem-lhe uma lavagem ao estômago e amanhã já está pronto. Eu vou para dentro que aqui está frio.
- E deixas-me aqui, com eles?
- Sim… qualquer coisa vai ter comigo lá dentro.
Uma hora depois Pietro abandona o local do crime. Procura pelos corpos dramáticos na rua onde os deixara e como não os viu calculou que estava tudo bem.
Dirige-se à rua principal e enquanto espera por distinguir um taxi pára um carro que ostentava todos os clichés da nova burguesia.
- Perdido?…não quer uma boleia para casa?
- Boa noite… não, estou só à espera de um taxi.
- Mas eu levo-o o casa e metemos a conversa em dia. Afinal de contas desde que me deixou especado no Lapa Palace que nunca mais conversámos.
(este era um típico novo rico daqueles que ninguém sabia de onde tinha surgido e que caíra de chapão na cidade. O típico patético que achava que o seu dinheiro era a porta de entrada para a aceitação entre a tribo e que uma noite montou um cenário gigante de mordomias para o conquistar.
Pietro ainda se lembrava dessa noite. Ainda se lembrava da cara do camarero no salão de entrada quando saiu. Do olhar mordaz do jardineiro e roupa de noitada com que saira pela porta principal. No fundo até tinha alguma pena dele… o pobre rapaz era apenas uma pessoa pouco inteligente que só queria ser aceite.)
- Achei que tínhamos acordado não falar sobre isso..
- Tem razão… o que lá vai lá vai e não quero perder a sua amizade por isso. Eu no fundo até compreendi.
- Levas-me a casa então?
- Claro, com todo o gosto.
Estava então ele a rebaixar o corpo para entrar naquele carro rasteiro quando de repente sentiu que não o poderia fazer. O pobre desgraçado iria novamente alimentar uma ilusão de amizade e a queda seria ainda maior.
Mesmo bêbado, encheu-se de dignidade e disse..
- Scott, não posso… Mas um dia beberemos um copo, prometo.
Pára um taxi e atira o seu corpo cansado lá para dentro.
Desaparece na estrada e adormece na anestesia do seu sangue ao som Iggy Pop que o taxista, numa rádio qualquer, insistia em ouvir.
O mundo pareceu-lhe perfeito… o acaso daquele momento fechava na perfeição a bando sonora daquele fim-de-semana.E mais uma vez recordou as palavras de Piaf… e sim… a vida era um grande conjunto cénico.
Rouba o taxi à fila que por tantos aguardava e sente-se um marginal.
Voa até à toca e ao entrar sente a dificuldade do seu sangue em manter o equilíbrio naquelas escadas.
A música… o grande Zeus da sua existência… a maldita droga que o comandava desde sempre.
Prevê a malícia e vai de encontro a quem o aguardava.
Uma garrafa em comemoração… Uma qualquer comemoração que ninguém sabia mas isso também nada interessava.
Eram os dandies e os dada, os yupies e os wanna-be, os loucos e os contemporâneos. No fundo, alguns não passavam de retardados modernistas que tentavam a todo o custo imprimir páginas de existência com a ilusão de um charme tão frágil como as colossais expressões deles.
A músicaaaa… a música… e o seu corpo em alta temperatura deixando-se tocar pelo mundo e pelos corpos mundanos que não seguravam a saliva nos lábios.
O sexo.
O alarme.
De repente o corpo que o aguardava ao sono surge preocupado avisando que o William estava a passar mal lá fora.
Merda de amadores que insistem em drogas baratas e engolem um pilão inteiro de MD sem pensar duas vezes.
Lá foi ele ver o que se passava e a decadência imperava naquele beco escuro da velha cidade onde se escondiam dos dois polícias que vigiavam os excessos da toca.
Três corpos regurgitantes e moribundos faziam o maior esforço da vida para se livrarem de “todo o mal” que a infantil gula lhes tinha enfiado no estômago. Ridículos.
- Ed, já não tenho idade nem paciência para aturar estas merdas… eu estava tão bem lá dentro.
- Eu sei, desculpa, mas não sei o que faça. Ajuda-me.
- Chama uma merda de uma ambulância se nalgum momento esta triste cena piorar. Fazem-lhe uma lavagem ao estômago e amanhã já está pronto. Eu vou para dentro que aqui está frio.
- E deixas-me aqui, com eles?
- Sim… qualquer coisa vai ter comigo lá dentro.
Uma hora depois Pietro abandona o local do crime. Procura pelos corpos dramáticos na rua onde os deixara e como não os viu calculou que estava tudo bem.
Dirige-se à rua principal e enquanto espera por distinguir um taxi pára um carro que ostentava todos os clichés da nova burguesia.
- Perdido?…não quer uma boleia para casa?
- Boa noite… não, estou só à espera de um taxi.
- Mas eu levo-o o casa e metemos a conversa em dia. Afinal de contas desde que me deixou especado no Lapa Palace que nunca mais conversámos.
(este era um típico novo rico daqueles que ninguém sabia de onde tinha surgido e que caíra de chapão na cidade. O típico patético que achava que o seu dinheiro era a porta de entrada para a aceitação entre a tribo e que uma noite montou um cenário gigante de mordomias para o conquistar.
Pietro ainda se lembrava dessa noite. Ainda se lembrava da cara do camarero no salão de entrada quando saiu. Do olhar mordaz do jardineiro e roupa de noitada com que saira pela porta principal. No fundo até tinha alguma pena dele… o pobre rapaz era apenas uma pessoa pouco inteligente que só queria ser aceite.)
- Achei que tínhamos acordado não falar sobre isso..
- Tem razão… o que lá vai lá vai e não quero perder a sua amizade por isso. Eu no fundo até compreendi.
- Levas-me a casa então?
- Claro, com todo o gosto.
Estava então ele a rebaixar o corpo para entrar naquele carro rasteiro quando de repente sentiu que não o poderia fazer. O pobre desgraçado iria novamente alimentar uma ilusão de amizade e a queda seria ainda maior.
Mesmo bêbado, encheu-se de dignidade e disse..
- Scott, não posso… Mas um dia beberemos um copo, prometo.
Pára um taxi e atira o seu corpo cansado lá para dentro.
Desaparece na estrada e adormece na anestesia do seu sangue ao som Iggy Pop que o taxista, numa rádio qualquer, insistia em ouvir.
O mundo pareceu-lhe perfeito… o acaso daquele momento fechava na perfeição a bando sonora daquele fim-de-semana.E mais uma vez recordou as palavras de Piaf… e sim… a vida era um grande conjunto cénico.
sexta-feira, setembro 19, 2008
Non, Rien De Rien...

Non, rien de rien,
non je ne regrette rien,
Ni le bien quon ma fait, ni le mal,
tout a mest bien gal.
Non, rien de rien,
non je ne regrette rien.
Cest pay? balay? oubli?
je me fous de pass?Avec mes souvenirs, jai allum?le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs, je nai plus besoin deux.
Balays mes amours avec leurs trmolos,
Balays pour toujours, je repars ?zro.
Non, rien de rien,
non je ne regrette rien,
Ni le bien quon ma fait, ni le mal, tout a mest bien gal.
Non, rien de rien,
non je ne regrette rien.
non je ne regrette rien.
Cest pay? balay? oubli? je me fous de pass?
Car ma vie, car mes joies, aujourdhui, a commence avec toi!
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