domingo, março 02, 2014

Sortir





Sir. Polignac tinha preparado uma refeição cheia de detalhes e meticulosos prazeres que tanto o caracterizam, e eu tinha chegado apenas com macarons.
Eu estava mais calado do que o habitual e ele reticente em relação a qualquer coisa, até que tomou coragem assim que nós sentámos.
Como estás? - Foi a pergunta que sem necessidade de qualquer contexto me fez perceber imediatamente do que falava. 

- Bem. – E no sorriso que aconteceu ao responder-lhe, dei-me conta que teria que falar sobre o que aconteceu.
- Fico mais descansado mas não consegui deixar de pensar no que me contaste. Sabes, no momento não quis elaborar nenhuma das muitas questões que surgiram na minha cabeça porque estávamos acompanhados e não sabia até onde poderia perguntar. Mas fiquei a semana toda a pensar naquilo. No que é que aquilo terá feito acontecer em ti. No que é que aquilo afinal representa.

- Sim eu percebo. Eu próprio acho que ando desde então a lidar com as mesmas questões. Claro que me questionei sobre tudo a seguir. De onde tinha vindo aquela frase em absoluto descontrolo que ao me sair daquela forma em grito, só poderia estar calada há anos e fazer-se sentir como uma verdade escondia. Questionei-me se afinal era aquilo. Tinha chegado até ali para aquilo? É isto o amor? Afinal ainda o amo? Como.. depois de tudo? Ou será precisamente pelo tudo? Questionei-me sobre tudo o que aconteceu até ali e sobretudo sobre o que era então aquele grito que me saiu pela a boca fora, num impulso que me apanhou desprevenido e nos fez ficar parados a olhar para o som, que já era autónomo no ar e já gerava o impacto nas nossas cabeças.

- Pois imagino. Foi nisso que pensei. Tu és tão pragmático e tens tudo sempre tão em ordem. O que terá acontecido? Quer dizer, eu sei... era aquela data fatídica e tu andas cansado. Mas porque raio te saiu aquela frase e logo com ele ali. Logo quando é ele que está ali no meio e tudo.

- Se calhar por isso mesmo. Por ter sido ele a provocar-me o assunto. Ele estava imparável num acesso de “moralismo” dos dele em que me culpava de toda a pressão em que eu estava, por não desabafar com ele. Por não ter ido dormir a casa dele...

- Pois percebo. Mas quando estávamos em Itália aconteceu alguma coisa que eu não tenha dado conta? Porquê isto agora?

- Não sei... Eu não me ando a reconhecer nos últimos tempos... Não me prevejo ou revejo em nada do que dou comigo a fazer nos últimos dias...

- Fiquei a pensar sabes? A pensar na vossa história, daquilo que conheço em ti e nas voltas que a vida dá. Não te consigo dizer nada em concreto como seria suposto. Um “vai por aqui ou vai por ali”... Não sei. Seja o que for o importante é voltares a estar bem meu querido. Mas não sei como te ajudar porque eu no teu lugar não saberia como estaria a lidar com tudo.

- Eu sei, obrigado. Acho que no fundo se calhar ía-me fazer bem uma viagem.

- Mas vais-te embora?

- Também tu? Não... não me vou embora. Confesso que me passou pela cabeça, tu conheces-me. Mas não. Estava a pensar só afastar-me uns dias e passear, não sei.

- Ia-te fazer bem, sim. Porque não voltas a NY?

- Porque para isso preciso de mais tempo. Estava a pensar numa coisa mais perto, Paris, Londres... sei lá. Uma das nossas cidade de hábitos e memórias. Passear ao sol, comer bem, ficar parado num banco a olhar para as pessoas do velho mundo... por aí.

- Eu vou agora uns dias para Amesterdão. Não queres vir? Fazia-te bem “voltar a casa”.

- Não, obrigado. Acho que preciso de outras casas onde não me esbarre constantemente com as minhas histórias daqueles tempos. Mrs. Dalloway convidou-me para ir uns dias para a casa de campo e eu acho que é o que acabo por fazer. Ar puro e o mais incondicional dos amores regado de bons vinhos e reflexões sobre a arte em nós. A Natalie também vai... devo-lhe também a paz depois do que ela me agarrou naquela noite. É uma mulher extraordinária e gosto tanto de a ter comigo. Vivo rodeado de pessoas cuja dimensão é enorme, e é mesmo isso que vou fazer. Vive-las.

- Pois percebo-te.

Estivemos à conversa num conforto exactamente igual ao que sentíamos quando tínhamos 18 anos e o tempo era apenas um instrumento a nosso favor durante um dia inteiro. 
Ele acompanhou-me pela Avenida acima e ao passar pelo banco de jardim senti a tua falta ali.
Queria ter-me explicado a ti mas tu não me deixaste. Paralisaste-me o momento para que nada nem coisa nenhuma ganhasse uma forma com a qual não soubéssemos lidar.
Mas saberíamos. Como sempre soubemos à nossa maneira.

Desapareci depois daquela noite e retomei o meu corpo a meu favor já longe.
Fui cuspido pela indiferença e a desvalorização que fincaste sobre o que aquelas palavras fizeram acontecer em mim naquelas horas.
Sonhei durante 3 noites com a agonia de te perder e da vertigem de, ao correr para te socorrer, ter sido substituído por outra memoria qualquer.
Ouvi-te a ti e a todos. Retomei o espectável comportamento face às necessidades que a ciência tem sobre os nossos corpos e enchi-me de coragem e voltei aquele quarto gélido e às tantas horas de sala de espera.

Fui viver uns dias para o campo e sentir o sol com as árvores de fruto. Li revistas antigas e livros de histórias que não me conseguiram embalar. Olhei para o céu de olhos fechados enquanto esperava que o sol me aquecesse a cara e me levasse para uma dimensão onde o silêncio não tivesse lugar.
Sonhei com a tua voz a dizer-me que poderia falar e que tinha chegado a hora de, juntos, entendermos o que era aquele lugar estranho onde adormecemos mais quentes.

Voltei para Lisboa e ao sentir as primeiras gotas da chuva corri para a rua. Fui passear à chuva por querer ficar encharcado. Voltei e tomei um banho quente. Enviei-te uma mensagem e, no silêncio, imaginei-te feliz. Estavas apaixonado por uma nova história de amor que nada tinha a ver com a outra.
Sentei-me ao computador e comprei uma viagem. 
Tu saberás onde me encontrar.


domingo, maio 05, 2013

Líbido



 O bailado tinha terminado. Cá fora, entre um cigarro e outro, esperavam-se as estrelas da companhia enquanto as mesmas caras de sempre se serviam das bandejas igualmente coreografadas.
Cá fora, no jardim, enquanto apreciava o compasso de espera com o seu cigarro, sente a presença de alguém que se aproximava pelas suas costas. Aquele perfume era-lhe tão familiar que nem se deu ao trabalho de contornar o próprio corpo e surpreender aquele que decide dizer:

-  Depois não queres que te chame nomes!
- Desculpe? Não percebi.
- Sempre elegante. E eu sabia que te ía encontrar aqui.
- Curioso, logo eu que não confirmei a minha presença. Mas calculo que tenha os seus métodos.
- Aprendi com os melhores.
- Obrigado. Fico contente por saber que contribuí com alguma coisa então.
- Estás lindo.
- Obrigado. Os ares da cidade também me parecem que lhe estão a fazer igualmente bem.
- Cabrão! Estou a ficar sem espaço nas cuecas!
- É sinal que terá um órgão grande demais...
- E ele insiste!! O dono do massive penis aqui és tu! E sabes bem que sim e isso é super sexy!
- Sexy? Começo a notar alguma saliva na sua boca...
- Porque te vens para caralho também! És o The whole package!!
- E isso excita-o, presumo.
- Agrada-me muito, sim.
- Para a próxima espero por encontra-lo então.
- Porquê, masturbaste-te antes de eu chegar?
- Não. Estava só a ser provocador mas pelos vistos não fez efeito...
- Quem disse?
- Eu. Pelo menos questiono-me... Olhando para baixo não vejo nenhuma nódoa nas suas calças.
- É fácil me recordar do teu tamanho, da força e do gemido seco que me provocavas, do preenchimento total no meu interior e da dor altamente excitante que me davas.
- Devo sentir-me elogiado portanto...
- Estou de pau feito.
- Perdoai-me senhor porque pequei.
- Sabes bem que não sou do teu tamanho. Tu tens uma pila para além de bonita, grande mas grande mesmo. Claramente que não sou o único a dizer-te isto. E aliás, tu sabes.
- Ainda estou a recuperar o fôlego, peço desculpa. Não contava com tamanha euforia na sua boca.
- Pois, aconteceu-me o mesmo, quando levei contigo!
- Posto isso, "só se perderam as que caíram no chão" parece-me.
Ainda se recorda do que disse naquela noite?

- "O que é que estás a fazer, cabrão?" E sei que me respondeste "Estou-te a comer o cuzinho" Passei-me!!
- Portanto será mais apropriado afastar-se agora. A menos que ainda me queira dizer mais alguma coisa antes.
- Que me comeste o cu muito bem e que adorei sentir os teus colhões a baterem-me nas nádegas a cada investida dentro da minha carne húmida.
- Tome cautela, seja discreto. Mesmo sem baixar o olhar já percebi que se está a tocar com a imagem que verbalizou... Vou acender outro cigarro, para lhe dar tempo de se recompor.
- No mesmo sítio onde te devias ter vindo?
- Nesse mesmo sítio onde me queria ter vindo na altura. Quem sabe até para depois assistir ao excesso a cair lentamente numa linha perfeita que lhe percorria as esferas. O que acha?
- Isso depois de te vires no meu cu e de o enfiares outra vez e te sentires deslizar facilmente por estar cheio do teu leite que depois de o tirares sim, escorreria para fora numa linha que lentamente me molhava os colhões porque me estavas a comer numa canzanada fodida e à bruta.
- Precisamente. E como você iria querer provar, ainda o dirigia à sua boca um pouco. Para sentir o que tinha dentro de si e pelo seu corpo todo… não era a sua fantasia?
- That's my boy! Os dados estão contigo agora.
- Parece-me que quer levar o jogo até ao limite com esse tom desafiante.
- Estou com os colhões tão cheios que tem mesmo de ser.

Dá um travo longo no cigarro e da um passo lento sobre o outro corpo. Faz deslizar a mão até ao seu próprio sexo. Aperta-o como se discretamente o ajeitasse no interior das calças. Sorri com um ar malicioso e semi-serra os olhos revelando o prazer ao tocar-se em frente a ele no meio daquela multidão de pessoas à espera.

- Meu querido, a bola está agora do seu lado.
- Cabrão. Essa mão definida pelas veias, o sol que corta o bronzeado das partes intimas … essas maravilhosamente fortes, másculas e grandiosas mãos. Uma cabeça rosada e molhada que já me abriu caminho e me ofereceu sensações de rasgo deliciosas… que caralhão, lindo.
Tu não prestas. És demoníaco. E sim, estás a ganhar! Em vários sentidos!
- Posso-lhe perguntar o que é que faria com aquilo que viu agora mesmo se pudesse?
- Preciso de libertar a tensão.
- Disse tensão?
- Disse. Mas queres saber o que faria? Eu digo-te: Deixava-me estar vestido… chegava ao pé de ti enquanto tirava de dentro das calças a minha tusa. Ficava frente a ti de pau feito e tu nu igualmente de pau feito. Beijava-te violentamente enquanto te tocava e apertava a base dos colhões. Trabalhava os teus mamilos enquanto a minha outra mão passava dos teus colhões já cheios para a minha tusa. Batia claramente uma. Descia em ti até sentir o cheiro das tuas virilhas invadir o meu palato e, a olhar para ti, engolia-te o caralho enquanto pedia para não desviares o teu olhar da minha boca húmida de tanto te querer dentro da garganta
De seguida mamava nesse pau enquanto me masturbava tanto e com tanta vontade. Pedia que me forçasses a comer-te todo e queria lacrimejar para comprovar o quão grande és. Fechava os olhos e sentia a tua púbis no meu rosto e aí, deslizava a minha mão para o meu cu que já sentia húmido.
Deslizavas num movimento para fora da minha boca e um fio de intensa saliva unia o teu caralho à minha língua gulosa, e aí pedia que me desses umas boas chapadas com a mão.
Pedia e tu davas. Sem medo. E eu, a sorrir para ti, ajoelhado na tua frente. A adorar a perspectiva.
Agarrava nos teus colhões e apertava na minha mão direita enquanto investia na minha boca e me engasgavas a cada vez que me fodias
Puxava os teu colhões para baixo para criar tensão no caralho que, com um deslizar se projectava contra o teu abdómen.
Batia agora uma em ti ao mesmo tempo que passava a minha mão na minha boca cheia do teu sabor para depois a passar no cu e dizia: "Agora vais-me comer o cu à bruta e vais-me rebentar todo."
Pode parar. Acho que já fomos longe demais e já há pessoas interessadas na nossa conversa.
- Não vás. Se me movo agora arranco-te o beijo nesses lábios escarlates.
- Chega.
- Sempre um senhor. Sempre um cabrão. Preferes anonimato, não é?
- Prefiro vir-me.
-  Então vamos embora daqui. Vamos para longe destas pessoas.
-  Por isso é que gosto de igrejas. Geralmente por lá as pessoas estão tão concentradas nas suas orações que não reparam no que se possa passar à sua volta.
 - Cabrão.
- Tenha uma boa noite. Vou andando para casa e, já agora, dê os meus parabéns ao seu namorado. Foi brilhante como sempre e decerto que será mais um sucesso de bilheteira.

quarta-feira, maio 01, 2013

Blood


Tudo o que sabemos somos nós próprios encontra-se numa ampulheta de vidro, à distância de um movimento em que nos deixamos surpreender. 



Naquela noite, entre a massa cujas as caras reconhecia de tantas histórias, dei contigo em presença no meu corpo. Passou alguém com o teu cheiro que activou nos meus sentidos o calor do acordar ao teu lado.

Sentei-me num sofá rodeado de amigos que discutiam as diferenças entre a arte nos nosso dias, e as massas que visitam a exposição da Joana Vasconcelos.
Não me chateia nada, antes pelo contrário, que seja assim. Uns são os pseudo-eleitos eleitos pelo grupo minúsculo de “artistas” conceptuais, que escolheram uma contra corrente que se irá sempre debruçar sobre estados depressivos. Outros podem ser os eleitos pelas massas que, com todo o mérito, encontraram uma linguagem que comunica uma mensagem que e chega de forma eficaz às ditas multidões. E então? Não há espaço para todos? Lembro-me de há uns 12 anos atrás discutir isso mesmo com uma professora de história de arte, e impor-me numa posição democrática da arte e do real valor do artista enquanto comunicador. Venci a batalha naquela tarde. Mas não venci a guerra 12 anos depois naquele sofá.

Ao abstrair-me da conversa levantei-me e mergulhei na pista do Purex. Os corpos fundiam-se com o meu e as pessoas dançavam sedutoramente sem qualquer objectivo para alem do serem felizes no ali mesmo, no agora.

Semi-serrei os olhos e senti a força de uma vida que ainda me corria nas veias, e as células de memórias que davam consistência ao meu sangue. Estavas-me por toda a parte. Como se tudo tivesse sido desenhado para convergir naquela sala, naquele momento.

Aquilo era a arte em mim, que substituía a saudade que tinha de materializa-la pelos meus dedos. Aquilo era eu, sem tirar nem por. O prazer alucinado do sabor que as histórias me deixaram, o perfume carnal que evaporava da minha pele, o sabor do gin que me lambia os lábios e o orgasmo da felicidade de ter vivido tudo aquilo numa só vida.

Um dia, em minha casa, disseste-me: “se morresses amanhã serias uma daquelas pessoas que toda a gente recordaria como alguém que viveu bem, que teve uma vida cheia, e isso já ninguém te pode tirar.

Ainda te amo, como irei amar para sempre, e no sempre viverá a forma como amo incondicionalmente todas as pessoas que amo ou amarei. Mas agora vou ter que ir ali ao lado, vou só ali para ser feliz.

terça-feira, março 05, 2013

Onze da noite



- Ainda bem que vieste. Queres beber alguma coisa?
- Olá. Sim, o que e que estás a beber?
- Ginger ale.

        - Um copo de vinho tinto por favor...

- Está muito fumo aqui?
- Tens um isqueiro?
- Eu não fumo... e já vi que tu ainda não deixaste.
- Queres?
- Não obrigado.


- Então diz-me lá ao que se deve a honra e o privilégio deste convite?
- Não sejas irónico. Na verdade achei que não virias.
- Vivo aquí em cima, não me custa nada. E além do mais sempre gostei de um bom copo contigo.
- Sim, eu sei, mas como passou tanto tempo...
- O tempo é aquilo que fazemos dele e tu deves ter alguma coisa para me contar, ou estou errado?
- Bem, nada que não te tenha dito na outra noite. Mas achei simpático convidar-te. Saber o que tens feito. Afinal de contas naquela noite só falei de mim.
- E isso não era uma intenção? Parecias bastante concentrado na tarefa.
- Não sejas assim... Sei lá, vi-te ali e não estava à espera e decidi falar um pouco. Afinal de contas tanta coisa mudou?
- Ai sim? e o quê para além do facto de eu, segundo as tuas palavras, estar "mais bonito", e da tua relação ter terminado.
- Meti-me a jeito, já percebi. E tu não irias resistir, claro está.
- É... sempre tive uma cadência pelo irresistível como sabes.
- Estás a falar de mim?
- Não te iludas meu caro, estava mesmo a falar de mim. Terá sido por não me resistir a mim mesmo que aceitei o teu convite.
- Ok, eu mereço.
- Não te condenes tanto que esse é um falso encanto já descodificado em ti.
- Elah... agora sinto que levei um estalo.
- Desculpa. Não era minha intenção magoar-te.
- Também não tanto...
- Acredita que se fosse intencional darias conta.

          - Obrigado. Quando puder traga-me um cinzeiro por favor.

- Estavas a dizer... Ah, estava eu a dizer-te que darias conta não era? Deixa lá isso... Conta-me lá o que querias.
- Nada em especial. Como te disse só queria estar um pouco e saber de ti.
- Eu estou bem. Ainda vivo ali em cima, ainda trabalho no mesmo sítio. Ando muito dedicado a uns projectos interessantes. Tenho passeado e revisitado amigos. Tudo normal.
- Sim, o Nuno disse-me que te encontrou no aeroporto. Que estavas a chegar de algum lado quando ele foi para Barcelona.
- É mesmo. Ainda estive um pouco à conversa com ele, que estava todo excitado com os seus sapatos novos e ía ter com não sei quem a Barcelona.
- Sim, ele anda bem disposto. Apaixonado até eu diria.
- Fico contente. Ele é um bom rapaz. Gosto dele.

      - Vai desejar mais alguma coisa?      - Não obrigado.      - Ontem a sua amiga deixou aqui o casaco. Guardei-o ali.      - Obrigado, eu posso leva-lo quando sair então. Muito obrigado.      - De nada. Depois é só dizer-me quando pretender sair.      - Obrigado.

- Continuas um habitué já vi...
- Sim, ainda moro ali em cima e sim, estive cá ontem à noite com uma amiga.
- E tu? Apaixonado? Quero saber, nunca me contas essas coisas.
- Eu estou bem, não me posso queixar.
- E tem nome?
- Já me desapaixonei.
- Quando?
- Agora mesmo.
- Mas como se chama ou chamava.
- Tarde demais. Já não vale a pena referir.
- Bem... que misterioso. 
- Apenas encantador. Só agora te dás conta disso?
- Estiveste bem agora. E com esse sorriso matreiro... Eu não te compreendo. Deixas-me sempre na dúvida.
- Quando assim for basta perguntares que eu respondo. Tens é que perguntar o que realmente queres saber. De outra forma estarás a tentar iludir-me. E a tentativas de ilusão gosto de responder com ilusionismo.
O que é que realmente queres saber? Se é verdade que "quando te deitas com crianças acordas mijado"? Sim. Eu já te tinha dito. E a esta hora tu próprio já o terás confirmado, a contar com a imagem que tive naquela noite. Sim. É verdade. 
Queres saber se eu ainda te acho interessante, não é? Sim, eventualmente, não sei, não voltei a pensar nisso e desde aquela época que, honestamente, o mais provável é teres perdido o encanto que tinhas. Pelo menos para mim. Mas não sei. Teria que acontecer alguma coisa. Uma coisa é certa, jamais o meu ouvido volta a ser penico e muito menos o meu sofá um divã.
- Auch! essa doeu.
- Sabes bem que foi verdade. Não te armes em maricas agora. Até porque nem te assenta e rapidamente, no exercício da vaidade em ti, se te colocares nessa posição, tu próprio o rejeitarás.
- Eu não sou tão ego-cêntrico como tu me pintas.
- Foste fraco. Ou melhor... preguiçoso.
- Mas naquela altéra eu fui sempre honeste contigo.
- Foste conveniente. Para ti. Nunca para mim. Não te iludas.
- Não gosto que penses assim.
- E não penso. Pensava. Pensei. Agora, confesso, é-me indiferente.

         - Pode trazer-me o casaco e a conta por favor?

- Mas vais-te embora?
- Não, ainda aqui estou. 
- Ok, já percebi. Desculpa ter tentado.
- Não sejas parvo. Não me querias mostrar a tua casa agora que está apresentável? Não foi para isso que tiveste tomates para vir até aqui ao cimo da rua?
- Não pensei nisso. Mas, se quiseres ver... Bem, está desarrumada.
- Então não vou.
- Nao. Vamos, claro.
- Ok

          - Obrigado. Até amanhã.

- Eu juro que não te percebo. Ainda agora estávamos ali sentado, fumaste um cigarro e nem acabaste o vinho.
- Va, anda.
- O que estás a fazer?
- Va, aproveita. Afinal de contas estou a fazer "qualquer coisa" para te poder dar um resposta. 


quarta-feira, outubro 17, 2012

O fio dos dias.


“E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou – arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio.”

Haruki Murakami

sexta-feira, julho 27, 2012

HOMENS DE CAMPER com BIGODE EGOBUST


Sempre desconfiei de homens cosmopolitas que usam camper. 
Mas no melhor dos sentidos. Apesar de o mundo ser contra os determinados códigos de conforto numa suposta bolha social em que o estilo é entendido como palavra de ordem, eu não poderia ser mais a favor.
Há qualquer coisa de promissor quando a presunção intelecto-cultural é projectada sob forma de manifesto naquilo que calçam. A velocidade e contradição que vai do topo da cabeça aos pés. Ou a coerência. 


É no mínimo interessante aquele ar negligé
meets campus natura meets bibliotecas e outros locais de eremitas. 
A denúncia dos seus gostos sob forma de galhardete discreto de um estilo de vida que querem para si.

São as saborosas contradições do ser humano, que grita por uma liberdade intelectual enquanto se veste com um cartaz que em nada difere dos outros que queima, senão apenas na cor.
Enfim, mas isso seriam outros debates. 


O que me trouxe aqui foi o bigode. A forma e a cor do bigode que aquela criatura atrapalhada com a sua própria lógica tinha.
Ou seria a boca. O timbre. A dicção. 


Recordo-me do improvável mais absurdo de todos, que foi o momento em que o conheci. Estávamos entre campas e jazigos e o momento não poderia ser mais estúpido. Eu tinha sido cuspido para aquele lugar sem me dar bem conta como. Lembro-me vagamente da brutalidade daquele dia e da forma como nada fazia qualquer sentido. 


De repente o burguês, o infame mortal que sempre quis mais do que na verdade lhe pertencia, anuncia alguém que queria apresentar. 


Fê-lo da invariável forma protocolar e pseudo-aristocrática, que me faz sempre revirar os olhos e não esperar menos que nada do outro lado.
E de repente fiquei sem reacção.
O timbre. A dicção. Os olhos. A ilógica conjugação do anonimato e a presença de espírito. A boca. A eloquência. Os olhos rasgados. As mãos correctas. A altura exacta. E a segurança que defendia uma ferida qualquer. 


Em 3 segundos levitei para uma dimensão qualquer em que o animal em mim esvaziou aquele espaço comum, e nos criou um planeta onde somente habitávamos nós os dois.
Não me lembro de ouvir qualquer outro ruído para além dos que ele podia emitir. 


E de repente a culpa. A moral. Essa velha filha da mãe que volta e meia me recorda que nasci parido de outro matrimónio, que não aquele onde a culpa e a moral se associam a tudo.
Como é que num funeral de um amigo eu poderia cometer a indecência de abandonar tudo por segundos, e perder-me de fascínio por um estranho que até então só partilhava comigo a perda?
Que indecente. Que imoral. Que espontâneo, que natural. E rapidamente me resolvi a pensar que a pessoa desaparecida estaria a achar a mesma graça que eu a toda a situação. 


Referiu que já me conhecia de vista há muito tempo, mas que compreendia perfeitamente que o seu rosto nada me dissesse. Afinal de contas "sou um rapaz que ninguém nota", disse ele claramente a gozar com a minha cara. Aquele piquinho a engraçado/presunçoso foi o ingrediente que faltava para lhe reconhecer uma das melhores qualidades nas pessoas - a ironia.

Uns tempos mais tarde, e ao que percebi tarde demais, sentei-me com a criatura nas muralhas da Sé.
É então que reparo no bigode. Já meio queimado nas pontas. Nas pontas que penteava discretamente à la Salvador, como que lembrete para si próprio do seu poder de sedução e segurança no momento.
Mas estava confortavelmente descontrolado. Falou e quebrou diversos códigos de protocolo entre estranhos. Depois, ao despedir-se foi tosco e transmitiu uma estranha incerteza no que estava a fazer. 


Seria fácil imaginar que se tratava de um ser bizarro, mas isso seria só fácil. 

Seria recorrente atribuir-lhe um mistério qualquer que validasse ao meu imaginário a vontade de o levar para algum lado longínquo, conhece-lo melhor. Mas isso seria só mais um dos muitos mecanismos recorrentes da forma como gosto de ler partituras. 

Depois veio o momento Rua Garrett. O inusitado momento em que durante o dia me passeava para comprar uma camisola de seda para uma amiga, que ia visitar no dia seguinte, e sou surpreendido com um grito em meu nome.
Era ele novamente. A correr. Como de todas as vezes fez questão de me mostrar que vivia. Passava-se alguma coisa com a exposição e tinha que resolver tudo rapidamente. Falámos em andamento, literalmente. Até que parei em frente à loja e disse-lhe com um sorriso sincero: Eu fico aqui.
E ele, mais uma vez de uma forma atrapalhada, lá se despediu em fade out pela rua a fora. 


Vieram-me à cabeça as mãos dele, que dançavam com o copo de ginger ale sobre a mesa. A forma como me inquiria abruptamente. Como se despejasse o seu cansaço em mim e, nalguns momentos, fosse sua intenção tornar aquele momento num exercício técnico vulgar. Fez-me falar de coisas que não falo facilmente num formato social. Deixei-me ir pelo desafio em mim mesmo. Até onde poderia eu ir nas respostas às suas perguntas demasiado frontais. 


E depois, isso não batia certo. Se eu não estaria de todo na mira, porquê chamar-me na via pública, numa rua onde facilmente me conseguiria evitar sem eu dar conta? 


Tratava-se de um clássico discreto em que, por alguma razão, optara por me manter “ao largo” mas não totalmente excluído? E eu estranhamente permiti. Até porque de uma forma qualquer, e essa sim bizarra, tinha em mente que ainda iria acontecer qualquer coisa. Sem qualquer ansiedade ou outro sentimento acelerado. Mas em mim havia qualquer coisa que me dizia que era eu, o outro, que um dia ele terá chamado secretamente para a sua vida. 


O que iria lá fazer eu não sei, mas apetece-me descobrir. 



terça-feira, junho 05, 2012

Melancholia

"- Para mim existe claramente um T. antes e outro depois do Melancholia. Posso ter 80 anos ao rever o filme, e irei sempre lembrar-me de ti. Naquela noite tudo mudou. Tu nunca mais foste o mesmo."
D.