quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Tomorrow Never Dies



Os ingredientes perfeitos de um crime.
Uma noite, no mínimo, recheada de uma serenidade mortífera.

Surgem então os dois corpos da mentira.
Juntos. Acompanhados das personagens flagrantes, que em tudo denunciavam a mentira.

- Desculpa... mas... eles estão juntos?
- Sim, eu disse-te. Eu não estava louco.
- Então mas e assim?...assim às claras? E tu não fazes nada?
- Eu?... já fiz o que tinha a fazer meu caro, deixei-os à morte.
- Mas como?...como é que é possível? Ainda agora ele estava aqui a cumprimentar-te... que lata.
- Aquilo não foi lata, foi um simples exercício de...
- De estupidez, de falsidade?
- De ironia.

(o silêncio durante alguns segundos enquanto, do outro lado, Ginger observava meticulosamente cada gesto)

- Mas vão ver o mesmo filme que nós?
- Não, no exercício, o cobarde, certificou-se de que iriamos ver filmes diferentes.
- Eu sinceramente não sei como é que tu ainda lhes diriges a palavra.
- Meu querido, à quantos anos me conheces? Sabes bem que sou um senhor.
- A última vez que me disseste isso com esse ar altivo eu assisti à maior carnificina de sempre. O que vais fazer? Diz-me, eu conheço-te.
Tu não vais fazer o que eu estou a pensar que vais fazer, pois não?
- Que disparate, eu não vou fazer nada.
- Tu vais dormir com um deles e deixar que isso seja o golpe final até ao insuportável da relação deles... eu conheço-te.
- Nada disso meu caro. But we never know... tomorow never dies.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Valerie



A música do dia!

e como alguém me disse à uns dias:
" Hate me in public, fantasize in private! "

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

So Broken



Ao correr pela calçada numa tentativa de não chegar encharcado percebo que aquela tempestade era mais do que um temporal a fugir.
Parei, seguro bem a garrafa de vinho que prometera trazer e desvio os cabelos da cara.
Olho para cima e deixo que que a chuva me inunde a pele.
As gotas que deslizam até ao pescoço, lembram-me o mundo ao passar-me pelos lábios.

Levanto os braços e largo-me ao sabor.
Do alto do prédio oiço:
“Estás louco? Entra!!! Já te abri a porta, está um temporal!”

Sorri e, ao desligar-me da evasão, os meus olhos passam pelo teu carro estacionado que outrora ignorei.
Sacudo o cabelo e liberto-me do momento.
Subo as escadas velhas de madeira e assim que entro pela porta já aberta oiço a tua voz.
Dirigo-me de repente à cozinha para largar a garrafa, fazendo-me ouvir pelos ouvidos da sala.

- Como estás?…o que fazias ali na rua feito louco no meio daquele temporal? Eu por acaso estava à janela e vi-te. Da-me o teu casaco rapaz… estás todo molhado. A casa-de-banho é ali. Tens toalhas no móvel, já conheces.
- Tão atencioso como sempre, meu querido. Trouxe o vinho que me pediste.
- Pousa-o aí que já o abro.
- Eu mesmo faço isso, obrigado. Deixa-me só então limpar a cara para não assustar ninguém lá dentro.

Não sei como. nem em que exacto momento, aconteceu.
Mas de repente estava ali, completamente encurralado. O meu corpo em presença e a minha alma à deriva.

Foi quando sinto aquela paz de vida… Aquele momento em que nos transformamos em agentes observadores da nossa própria vida, em público presente em tempo real com o palco e a vida completamente visível.
Quando é que isto nos aconteceu? Como é que, depois de tanto tempo, ainda falamos infinitamente entre o silêncio de um espaço que só vê lidas as palavras entre o nosso olhar. E mesmo quando estamos de costas voltadas, sabemos, sentimos, a nossa própria conversa. As nossas próprias perguntas.

Como e quando é que se vem aqui parar... não me dei conta.
De repente alguém me serve mais um copo, e ao leva-lo ao sangue senti a recordação.

Surge então a tal imagem de que nunca iremos falar. Aquele momento único em que acordo e te tinha acordado, a olhar para mim. A ler-me, a guardar-me. Aquele primeiro “Bom dia…” inocente que mudou por completo os nossos rumos.

Sabes porque fugi no momento a seguir? Porque naquele segundo vi a vida toda à minha frente. Porque naquele momento vi que se ali ficasse perderia o rumo e amar-te-ia para sempre.
Mordeste-me o coração e isso apanhou-me de surpresa na cobardia e fugi.

Como o mundo gira nos nossos pés e nos surpreendemos com as voltas que a vida dá.
Tu entretanto casaste, e estavas ali. Eu divorciei-me e estava ali também.
Aquela manhã de Verão que, passados anos, surge numa noite de tempestade em que me apercebo do quão incrível pode ser a vida aqui.

Hoje é tudo tão diferente daqueles tempos… às vezes sinto que te devo um pedido de desculpa.

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Love Lockdown

photo by Tiago Veiga at Oude Lelie Straat // Amsterdam // 16h

Estava uma tarde estranha… nem muito fria nem muito quente.
Theo toca à campainha de Leonor como sinal de quem já estaria a entrar no café como combinado.
A chuva que contornava as bicicletas lá for a trazia à memória outros invernos.
Estranhamente, Theo estava a pé por aquela charmosa Oude Lelie Straat.

Ela entra então de roupante pelo café adentro. Os sininhos no topo da porta deixavam anuncia-la mesmo antes dela trespassar as longas cortinas de veludo.
O sorriso rasgado e o cabelo preto naquela face maravilhosa, gritavam naquela sala o fernezim de uma vida. Theo amava aquela mulher extraordinária que tinha o privilégio de ter na sua vida.

- Cherrie, como estás?…ai desculpa o atraso mas o Patrick não se calava e não me saía de casa por nada… sabes como é?
- Olha, ainda não pedi, mas vamos para uma tarte de maçã?

- Aii…demónio… eu prometi a mim mesma que não comia mais esta tarte. Esta semana já será a terceira…mas está bem!Sabes que não resisto.

- Eu sei, por isso mesmo… assim ficamos com a ilusão que um pecado dividido é sempre um pecado menor!
- (entre gargalhadas e olhares encenados como se fossem duas celebridades preocupadíssimas com as calorias) Mas diz-me, tens a certeza que não queres ficar mais uns dias? Ainda à pouco estava a pensar nisso…”porque é que ele não fica mais uns dias?seria fantástico!Íamos à Nomad na sexta beber aquele cocktail de figo…”
- Eu sei meu amor, eu sei. Mas a tenho mesmo que ir. Já tenho o voo marcado e já confirmei o jantar na sexta.
- Hummmm…eu compreendo…


Chega a empregada que, desde sempre, os cumprimenta em Holandês, os serve em Inglês e volta a despedir-se em Holandês.
Theo deixa toda a cortesia nordica sob o controlo de Leonor. Hoje ficará apenas pela despedida.

- Mas conta-me, o que vais fazer agora?
- Não sei. Acho que estes dias me fizeram bem para pensar e respirar longe de tudo e de todos. Soube-me bem voltar a casa e matar saudades tuas. Mas acho que me vou embora sobretudo com a clareza do que não quero.

- Que dizem ser sempre o melhor…

- Isso darling… como se nós fossemos agentes do “pelo melhor”…

(e libertam um sorriso cúmplice)
- Isso é verdade. Mas olha, sabes que, muito embora já nem eu saiba quanto mais tempo aqui fico, enquanto ficar, podes contar comigo e regressar a esta cidade. Ainda a semana passada passei à porta da tua casa e tive aquela sensação…os nossos jantares, os nossos copos de vinho enquanto esperávamos pelo Poney. Aquela noite do Studio80… Ai que saudades.
- Eu sei… ainda à pouco passei lá à porta mas nem tive coragem de bater. Quem será que vive lá agora? O Baub? Com a sua colecção porno?…ai só de imaginar…

- Oh oh, nem me lembres…quem também estava a morrer de saudades tuas era a Monica. No outro dia encontrei-a na Puccini Bomboni e ela estava toda chateada porque um crítico qualquer se enganou na idade dela num jornal.

- Imagino… ele adora a idade que tem. Quem me dera ultrapassar os 65 assim, jovem. Mas na puccini bomboni?…ela não pode comer chocolates.
- Pois não sei, que estava com um ar deliciado como eu estava.


A rapariga loira chega então com os galões e a tarte de maçã. Coube ao Theo fazer as honras da casa agradecendo.
- Dankjewel
- Alstublieft

Os sininhos da porta fazem-se ouvir novamente. Do interior das cortinas surge a última pessoa que Theo conseguiria imaginar ali.
- Leonor…
- Sim?..que cara é essa cherrie?Conheces?

- Eu não acredito… não é possível.
- Ai…mas posso-me virar e ver?

- Não vai ser preciso, ele já nos viu, vem aí…


O silêncio apoderou-se da mesa e todas as pessoas em redor pareciam apenas estátuas de um cenário montado. A presença inesperada chega então à mesa.

- Theo? És mesmo tu? Não acredito.
- Tu? Aqui?… o que fazes aqui?

- E que tal se primeiro viesse o abraço? Então?
- Claro, desculpa…


Leonor, espectante, assistia ao momento num silêncio absoluto. Os olhos dela tentavam desvendar a identidade daquela pessoa na certeza que a cara dele não lhe era nada estranha.

Theo – Já agora, apresento-vos, Leonor é o Henrique.
Leonor
– Olá, muito gosto… é sempre bom ouvir falar português.
Henrique – Tu é que és a famosa Leonor… finalmente. Uma vez creio que quase fomos apresentados no Bairro Alto. Estavas de férias em Portugal e lembro-me que o Theo queria muito que eu te conhecesse mas já não cheguei a tempo.
Leonor – Pois sou eu mesma, culpada. Também já ouvi falar de ti.
Henrique
– Espero que só bem…

Leonor liberta um leve sorriso para não ter que responder e rapidamente bloqueia os dois segundos de silêncio com o convite.

Leonor – Queres tomar alguma coisa?Puxa uma cadeira e junta-te a nós.
Henrique
– Sim, claro. Estou só de passagem e, da rua, pareceu-me o Theo e não resisti. Sim, aceito, afinal de contas estou mesmo a precisar de um café bem quente.
Theo
– Só queres um café? A tarte é optima.
Henrique
– Sim, pedes-me um por favor que estou de costas?
Theo
– Claro. “Ik wil graag een expresso, alstublieft.”
Henrique – Mas conta-me… é aqui que tens estado escondido?
Theo
– Eu não tenho estado escondido.
Henrique
– Era aqui que estava então no meu jantar?
Theo
– Antes de tudo podes-me explicar o que estás aqui a fazer e como me encontraste?
Henrique – Vim a trabalho baby…E estava a fazer umas compras, deixei o João no Hotel, e de repente olho aqui para dentro e vi-te. Não queria acreditar e afinal és mesmo tu. É tão estranho estarmos aqui juntos. Logo nesta cidade…
Theo – É, de facto.
Leonor
- Então não é a primeira vez que vens a Amesterdão…
Henrique
- Não. Na verdade a primeira vez que pensei em vir foi quando ele se mudou para cá. Mas quando vim ele já tinha regressado a Lisboa.
Leonor
– Que pena… ainda à pouco estávamos a falar da casa fantástica onde ele viveu. Terias adorado concerteza.
Henrique
– Pois não duvido. Agora venho cá algumas vezes e sempre que venho lembro-me desse tempo.
Theo
– Não há muito para recordar…
Leonor
– Que disparate. Há sim senhor, e muito.
Theo
– Sim, mas por nós meus amor, por nós.
Henrique – É verdade… soube de uma coisa que queria falar contigo mas desapareceste. É verdade que tu “perfumaste o quarto” do Hugo de veneno?
Theo – Nem vou tentar perceber essa observação…
Henrique
– Com ele não Theo, por favor. Com ele não. Ele agora está tão bem… deixa-o.
Theo - Desculpa? E tu terias alguma coisa a ver com isso se fosse verdade? Poupa-me.
Henrique
– Claro que tinha! Eu gosto muito dele e ele é um míudo Theo. Não está propriamente apto para os teus “bailes”.
Theo
– Não me faças rir… ora, ora,… com o professor que ele teve, meu caro, está mais do que preparado para qualquer coreografia.
Henrique
– Não sei se estou a perceber.
Leonor
– Eu também não estou a perceber nada mas estou a adorar, continuem, continuem… Theo – É simples meu amor, eu explico-te. É que aqui o Henrique achou que conseguiria guardar o segredo durante muito tempo. O menino fugiu-lhe das mãos, foi viver para Lisboa, e ele agora, mesmo à distância, tenta controlar-lhe a vida. Sobretudo quando a dele, na boca do povo, se cruza com a minha.
Henrique – Mas como…
Theo
– Como é que eu sei? Oh meu querido, não foi preciso muito tempo para eu juntar as peças e perceber que “o menino mistério” que em tempos choravas num jantar em tua casa, era o Hugo. Agora poupa-me aos disparates que ouves porque eu e ele somos bons amigos. E mesmo que fossemos fosse o que fosse, ninguém teria nada a ver com isso e tu muito menos.
Leonor
– Ok, vou passar ao vinho! Querem?
Theo
– Não é preciso, o Henrique já não se demora concerteza e eu e tu ainda temos que passar no Jareen para ir ter com o David.
Henrique – Claro, tens razão. Eu estou mesmo de saída. Quando voltas para Lisboa?
Theo – Hoje mesmo à noite já lá estarei.
Henrique
– Gostei de te conhecer Leonor.
Leonor
– O prazer foi todo meu, volta sempre.
Henrique
– Até logo Theo.
Theo – Até logo.

Theo o Leonor continuaram a sua tarde de tarte de maçã e de vida cheia.
Retomaram as considerações da vida depois daquele episódio e reviveram todas as histórias em conjunto. Partilharam a vontade de estar ali a ver a chuva lá fora e a crença de um futuro com tudo resolvido da melhor forma.
Ao anoitecer, Theo, já se encontrava no aeroporto à espera do seu voo que o levaria de regresso a Lisboa.
Pensava na vida, pensava em tudo.
Pensava na Leonor, e na imensa saudade que sente permanentemente.
Sabia que um dia ainda viveriam os dois na mesma cidade.
E que um dia...a tal visão de jeans e t-shirt branca numa tarde de verão alentejano se iria comprir.
A vida às vezes leva mais tempo a passar, outras vezes lembra-nos que ainda bem que assim é para podermos saborear todo o seu detalhe e requinte de poder viver.


terça-feira, janeiro 27, 2009

Live for, Die for, Fight for...


Bryn Christopher

'The Quest' Live and acoustic

"E se de repente eu aceitasse?
E se de repente eu fosse à porta e entrasse no carro?

Sabes tão bem como eu que se aí entro jamais a vida será como a conheces.
Existem momentos em que acho que esse fascínio pelo risco não é mais do que uma ideia estúpida que, numa noite qualquer, te fiz acreditar que também poderias viver.

E se nos descobrem?E se te descobrem?... eu já pouco tenho a perder, mas tu...
Sai da minha porta. Liga o motor e segue caminho. Preciso sair e estás-me a bloquear a passagem.
Tens noção?
E não, não fui eu quem criou "o monstro". Bem sei ser sempre mais fácil atribuir-me as culpas a mim mas sabes bem que desta vez tudo fiz para que nada sequer tomasse forma.

Agora sai... sai.
E isto não é um pedido.

Sai, que preciso estar a sós."


quarta-feira, janeiro 21, 2009

Ceci n'est pas une pipe


photo by Hulton Archive in Getty

Ora ora…
Não rodopies com a língua sobre os lábios que alguém te pode achar guloso.

Não tragas uma caixa de bon-bons com fechadura.
Podes até divertir-te com a hipotese de te imaginares a massacrar uma criança com um rebuçado. “Toma, não…olha agora, ops..não podes comer. E já agora, não contes a ninguém.
A criança pode, sem querer, dar-te uma dentada impulsiva na mão, e deixar-te marcado. Ou pode simplesmente ignorar a oferta porque rapidamente percebe o seu preço.

Nem tudo acontece como prevemos e esse risco que se toma, por si só, já vale a pena tanta coisa.
Nem tudo o que parece é.
Às vezes um perfume entranhado num colarinho pode ser a marca fatal de uma traição, bem como apenas e somente um aroma que ali se alojou, sem qualquer intenção para além do descanso.

Às vezes podemos seduzir o mundo inteiro e adquirir o pronome de “sedutor” ou simplesmente não termos culpa de absolutamente nada. O risco de sermos acusados de algum crime que não cometemos aumenta apartir do momento em que estejamos presentes na cena deixada.

Um corpo abandonado e enerte no chão, pode passar de um simples cadáver a uma verdadeira armadilha. Ou não, simplesmente, as circunstâncias de uma vida levam a que esse exacto momento aconteça sem razão nenhuma aparente. Ou será que, a ser verdade, tudo acontece por uma razão… nem que venhamos a percebe-la mais tarde.

Nunca se sabe… porque na verdade até o dito “pipe” nunca foi, na verdade “une pipe”.

Na manhã seguinte acordei no hotel. A vista para o Tejo fazia-me inspirar como se fosse um exercício veneratório. Dei comigo, às tantas, já no jardim a tomar o pequeno-almoço (mais do que tardio) e a pensar: “O que fui eu fazer?

Mas se pensar bem, na verdade… eu não fiz nada.
(e neste momento um sorriso malicioso apodera-se da minha cara)

Não sei ao certo do que se trata, nem quero, na verdade, saber.
Só sei que se trata de qualquer coisa que, no passado, ficou marcada para um dia qualquer mais tarde.

E até mesmo neste momento, em que sobre a cama adormece o “corpo que temos em comum”, continuo sem soltar a “frase solta”… porque assim permanece como um simples e singelo objecto de arte, tão frágil e etéro como álcool.


C860629

segunda-feira, janeiro 19, 2009

La Madeleine de nous


Lembro-me dos pedaços de vidro no chão. Dos pés cambaliantes. Do som… desse tão nefasto veneno que me indunda pela noite e faz com que o meu corpo, possuido, se mova flutuante como as minúsculas partículas de oxigênio pelo vento.

Não gosto de prestar muita atenção ao que digo. Prefiro ouvir-vos para que a sentença nunca se venha a materializar na minha boca. É uma responsabilidade que não quero para mim. E depois, bebo demais, fumo demais, danço demais…inspiro demais.

Dei comigo entre a multidão a ouvir-te dizer “Mas há uma coisa em que te enganaste. Naquela época falaste de uma forma que mostrava uma total descrença em mim e que o meu fim seria o mais previsível. Como vês, falhaste…”

Mas é exactamente esse rastro de correcção que deixa o título de “a revelação” que eu sucumbi entre dentes naquele Verão. Eu descrebilizei-te sim, e não o confesso agora por despeito ou para te mostrar que tinha razão. Não, digo isto para corresponder de forma igual e honesta assumindo assim que te menti.
Naquele verão, naquela noite, exactamente naquela rua, eu senti que sabia que seria diferente de tudo aquilo como fim. Mas jamais o poderia assumir. O meu ego não me permitiu o verbalizar dessa sensação por me deitar a mim totalmente por terra. Sim, o que seria se, naquele Verão, o tivesse dito. Perderia todo o encanto. Assim guardei o “fim” só para mim e mantive-me até então, numa devida distância de segurança, a aguardar pelo momento em que assistia à sua materialização.

E por isso também, tive que revelar isso agora. Porque apesar de tão mais embriagado da vida que tu, não sou, no fundo, de certo, a fabulosa esfera gelada que sempre se espera.

E de repente dou comigo sobre aquele eixo vertical, em que todo o meu corpo parecia equilibrado apenas pela tua mão que me agarrava o braço. Dou comigo a verbalizar o “fim da linha” daquela conversa de Verão.

“Oh… um dia…”

E tu, revelando o que também acredito que exista aí de criatura demoníaca (sim, porque eu não acredito em anjos. Para, a existirem, serão todos criaturas normais apenas resignadas a uma conduta que já viu um rebelde a desobeder – o tal), ainda perguntas deliciosamente pelas últimas palavras que ficaram firmemente suspensas entre os meus dentes.
Umas questão de ego…uma questão de vaidade?Ou terão também os teus ossos alguma vez sucumbido à vontade de ver verbalizada a hipótese?…
“Sabes muito bem… sabes tão bem quanto eu por isso nem preciso terminar.”

E lá me lembro de sair de dentro da multidão... com aquele sorriso de prazer mais que infinito, que o risco nos atribui no exacto segundo em que sentimos a vertigem do “quase”.


“A única diferença entre o santo e o pecador é que cada santo tem um passado e que cada pecador tem um futuro.”
Oscar Wilde



Paris, je t'aime - La Madeleine