domingo, maio 05, 2013

Líbido



 O bailado tinha terminado. Cá fora, entre um cigarro e outro, esperavam-se as estrelas da companhia enquanto as mesmas caras de sempre se serviam das bandejas igualmente coreografadas.
Cá fora, no jardim, enquanto apreciava o compasso de espera com o seu cigarro, sente a presença de alguém que se aproximava pelas suas costas. Aquele perfume era-lhe tão familiar que nem se deu ao trabalho de contornar o próprio corpo e surpreender aquele que decide dizer:

-  Depois não queres que te chame nomes!
- Desculpe? Não percebi.
- Sempre elegante. E eu sabia que te ía encontrar aqui.
- Curioso, logo eu que não confirmei a minha presença. Mas calculo que tenha os seus métodos.
- Aprendi com os melhores.
- Obrigado. Fico contente por saber que contribuí com alguma coisa então.
- Estás lindo.
- Obrigado. Os ares da cidade também me parecem que lhe estão a fazer igualmente bem.
- Cabrão! Estou a ficar sem espaço nas cuecas!
- É sinal que terá um órgão grande demais...
- E ele insiste!! O dono do massive penis aqui és tu! E sabes bem que sim e isso é super sexy!
- Sexy? Começo a notar alguma saliva na sua boca...
- Porque te vens para caralho também! És o The whole package!!
- E isso excita-o, presumo.
- Agrada-me muito, sim.
- Para a próxima espero por encontra-lo então.
- Porquê, masturbaste-te antes de eu chegar?
- Não. Estava só a ser provocador mas pelos vistos não fez efeito...
- Quem disse?
- Eu. Pelo menos questiono-me... Olhando para baixo não vejo nenhuma nódoa nas suas calças.
- É fácil me recordar do teu tamanho, da força e do gemido seco que me provocavas, do preenchimento total no meu interior e da dor altamente excitante que me davas.
- Devo sentir-me elogiado portanto...
- Estou de pau feito.
- Perdoai-me senhor porque pequei.
- Sabes bem que não sou do teu tamanho. Tu tens uma pila para além de bonita, grande mas grande mesmo. Claramente que não sou o único a dizer-te isto. E aliás, tu sabes.
- Ainda estou a recuperar o fôlego, peço desculpa. Não contava com tamanha euforia na sua boca.
- Pois, aconteceu-me o mesmo, quando levei contigo!
- Posto isso, "só se perderam as que caíram no chão" parece-me.
Ainda se recorda do que disse naquela noite?

- "O que é que estás a fazer, cabrão?" E sei que me respondeste "Estou-te a comer o cuzinho" Passei-me!!
- Portanto será mais apropriado afastar-se agora. A menos que ainda me queira dizer mais alguma coisa antes.
- Que me comeste o cu muito bem e que adorei sentir os teus colhões a baterem-me nas nádegas a cada investida dentro da minha carne húmida.
- Tome cautela, seja discreto. Mesmo sem baixar o olhar já percebi que se está a tocar com a imagem que verbalizou... Vou acender outro cigarro, para lhe dar tempo de se recompor.
- No mesmo sítio onde te devias ter vindo?
- Nesse mesmo sítio onde me queria ter vindo na altura. Quem sabe até para depois assistir ao excesso a cair lentamente numa linha perfeita que lhe percorria as esferas. O que acha?
- Isso depois de te vires no meu cu e de o enfiares outra vez e te sentires deslizar facilmente por estar cheio do teu leite que depois de o tirares sim, escorreria para fora numa linha que lentamente me molhava os colhões porque me estavas a comer numa canzanada fodida e à bruta.
- Precisamente. E como você iria querer provar, ainda o dirigia à sua boca um pouco. Para sentir o que tinha dentro de si e pelo seu corpo todo… não era a sua fantasia?
- That's my boy! Os dados estão contigo agora.
- Parece-me que quer levar o jogo até ao limite com esse tom desafiante.
- Estou com os colhões tão cheios que tem mesmo de ser.

Dá um travo longo no cigarro e da um passo lento sobre o outro corpo. Faz deslizar a mão até ao seu próprio sexo. Aperta-o como se discretamente o ajeitasse no interior das calças. Sorri com um ar malicioso e semi-serra os olhos revelando o prazer ao tocar-se em frente a ele no meio daquela multidão de pessoas à espera.

- Meu querido, a bola está agora do seu lado.
- Cabrão. Essa mão definida pelas veias, o sol que corta o bronzeado das partes intimas … essas maravilhosamente fortes, másculas e grandiosas mãos. Uma cabeça rosada e molhada que já me abriu caminho e me ofereceu sensações de rasgo deliciosas… que caralhão, lindo.
Tu não prestas. És demoníaco. E sim, estás a ganhar! Em vários sentidos!
- Posso-lhe perguntar o que é que faria com aquilo que viu agora mesmo se pudesse?
- Preciso de libertar a tensão.
- Disse tensão?
- Disse. Mas queres saber o que faria? Eu digo-te: Deixava-me estar vestido… chegava ao pé de ti enquanto tirava de dentro das calças a minha tusa. Ficava frente a ti de pau feito e tu nu igualmente de pau feito. Beijava-te violentamente enquanto te tocava e apertava a base dos colhões. Trabalhava os teus mamilos enquanto a minha outra mão passava dos teus colhões já cheios para a minha tusa. Batia claramente uma. Descia em ti até sentir o cheiro das tuas virilhas invadir o meu palato e, a olhar para ti, engolia-te o caralho enquanto pedia para não desviares o teu olhar da minha boca húmida de tanto te querer dentro da garganta
De seguida mamava nesse pau enquanto me masturbava tanto e com tanta vontade. Pedia que me forçasses a comer-te todo e queria lacrimejar para comprovar o quão grande és. Fechava os olhos e sentia a tua púbis no meu rosto e aí, deslizava a minha mão para o meu cu que já sentia húmido.
Deslizavas num movimento para fora da minha boca e um fio de intensa saliva unia o teu caralho à minha língua gulosa, e aí pedia que me desses umas boas chapadas com a mão.
Pedia e tu davas. Sem medo. E eu, a sorrir para ti, ajoelhado na tua frente. A adorar a perspectiva.
Agarrava nos teus colhões e apertava na minha mão direita enquanto investia na minha boca e me engasgavas a cada vez que me fodias
Puxava os teu colhões para baixo para criar tensão no caralho que, com um deslizar se projectava contra o teu abdómen.
Batia agora uma em ti ao mesmo tempo que passava a minha mão na minha boca cheia do teu sabor para depois a passar no cu e dizia: "Agora vais-me comer o cu à bruta e vais-me rebentar todo."
Pode parar. Acho que já fomos longe demais e já há pessoas interessadas na nossa conversa.
- Não vás. Se me movo agora arranco-te o beijo nesses lábios escarlates.
- Chega.
- Sempre um senhor. Sempre um cabrão. Preferes anonimato, não é?
- Prefiro vir-me.
-  Então vamos embora daqui. Vamos para longe destas pessoas.
-  Por isso é que gosto de igrejas. Geralmente por lá as pessoas estão tão concentradas nas suas orações que não reparam no que se possa passar à sua volta.
 - Cabrão.
- Tenha uma boa noite. Vou andando para casa e, já agora, dê os meus parabéns ao seu namorado. Foi brilhante como sempre e decerto que será mais um sucesso de bilheteira.

quarta-feira, maio 01, 2013

Blood


Tudo o que sabemos somos nós próprios encontra-se numa ampulheta de vidro, à distância de um movimento em que nos deixamos surpreender. 



Naquela noite, entre a massa cujas as caras reconhecia de tantas histórias, dei contigo em presença no meu corpo. Passou alguém com o teu cheiro que activou nos meus sentidos o calor do acordar ao teu lado.

Sentei-me num sofá rodeado de amigos que discutiam as diferenças entre a arte nos nosso dias, e as massas que visitam a exposição da Joana Vasconcelos.
Não me chateia nada, antes pelo contrário, que seja assim. Uns são os pseudo-eleitos eleitos pelo grupo minúsculo de “artistas” conceptuais, que escolheram uma contra corrente que se irá sempre debruçar sobre estados depressivos. Outros podem ser os eleitos pelas massas que, com todo o mérito, encontraram uma linguagem que comunica uma mensagem que e chega de forma eficaz às ditas multidões. E então? Não há espaço para todos? Lembro-me de há uns 12 anos atrás discutir isso mesmo com uma professora de história de arte, e impor-me numa posição democrática da arte e do real valor do artista enquanto comunicador. Venci a batalha naquela tarde. Mas não venci a guerra 12 anos depois naquele sofá.

Ao abstrair-me da conversa levantei-me e mergulhei na pista do Purex. Os corpos fundiam-se com o meu e as pessoas dançavam sedutoramente sem qualquer objectivo para alem do serem felizes no ali mesmo, no agora.

Semi-serrei os olhos e senti a força de uma vida que ainda me corria nas veias, e as células de memórias que davam consistência ao meu sangue. Estavas-me por toda a parte. Como se tudo tivesse sido desenhado para convergir naquela sala, naquele momento.

Aquilo era a arte em mim, que substituía a saudade que tinha de materializa-la pelos meus dedos. Aquilo era eu, sem tirar nem por. O prazer alucinado do sabor que as histórias me deixaram, o perfume carnal que evaporava da minha pele, o sabor do gin que me lambia os lábios e o orgasmo da felicidade de ter vivido tudo aquilo numa só vida.

Um dia, em minha casa, disseste-me: “se morresses amanhã serias uma daquelas pessoas que toda a gente recordaria como alguém que viveu bem, que teve uma vida cheia, e isso já ninguém te pode tirar.

Ainda te amo, como irei amar para sempre, e no sempre viverá a forma como amo incondicionalmente todas as pessoas que amo ou amarei. Mas agora vou ter que ir ali ao lado, vou só ali para ser feliz.

terça-feira, março 05, 2013

Onze da noite



- Ainda bem que vieste. Queres beber alguma coisa?
- Olá. Sim, o que e que estás a beber?
- Ginger ale.

        - Um copo de vinho tinto por favor...

- Está muito fumo aqui?
- Tens um isqueiro?
- Eu não fumo... e já vi que tu ainda não deixaste.
- Queres?
- Não obrigado.


- Então diz-me lá ao que se deve a honra e o privilégio deste convite?
- Não sejas irónico. Na verdade achei que não virias.
- Vivo aquí em cima, não me custa nada. E além do mais sempre gostei de um bom copo contigo.
- Sim, eu sei, mas como passou tanto tempo...
- O tempo é aquilo que fazemos dele e tu deves ter alguma coisa para me contar, ou estou errado?
- Bem, nada que não te tenha dito na outra noite. Mas achei simpático convidar-te. Saber o que tens feito. Afinal de contas naquela noite só falei de mim.
- E isso não era uma intenção? Parecias bastante concentrado na tarefa.
- Não sejas assim... Sei lá, vi-te ali e não estava à espera e decidi falar um pouco. Afinal de contas tanta coisa mudou?
- Ai sim? e o quê para além do facto de eu, segundo as tuas palavras, estar "mais bonito", e da tua relação ter terminado.
- Meti-me a jeito, já percebi. E tu não irias resistir, claro está.
- É... sempre tive uma cadência pelo irresistível como sabes.
- Estás a falar de mim?
- Não te iludas meu caro, estava mesmo a falar de mim. Terá sido por não me resistir a mim mesmo que aceitei o teu convite.
- Ok, eu mereço.
- Não te condenes tanto que esse é um falso encanto já descodificado em ti.
- Elah... agora sinto que levei um estalo.
- Desculpa. Não era minha intenção magoar-te.
- Também não tanto...
- Acredita que se fosse intencional darias conta.

          - Obrigado. Quando puder traga-me um cinzeiro por favor.

- Estavas a dizer... Ah, estava eu a dizer-te que darias conta não era? Deixa lá isso... Conta-me lá o que querias.
- Nada em especial. Como te disse só queria estar um pouco e saber de ti.
- Eu estou bem. Ainda vivo ali em cima, ainda trabalho no mesmo sítio. Ando muito dedicado a uns projectos interessantes. Tenho passeado e revisitado amigos. Tudo normal.
- Sim, o Nuno disse-me que te encontrou no aeroporto. Que estavas a chegar de algum lado quando ele foi para Barcelona.
- É mesmo. Ainda estive um pouco à conversa com ele, que estava todo excitado com os seus sapatos novos e ía ter com não sei quem a Barcelona.
- Sim, ele anda bem disposto. Apaixonado até eu diria.
- Fico contente. Ele é um bom rapaz. Gosto dele.

      - Vai desejar mais alguma coisa?      - Não obrigado.      - Ontem a sua amiga deixou aqui o casaco. Guardei-o ali.      - Obrigado, eu posso leva-lo quando sair então. Muito obrigado.      - De nada. Depois é só dizer-me quando pretender sair.      - Obrigado.

- Continuas um habitué já vi...
- Sim, ainda moro ali em cima e sim, estive cá ontem à noite com uma amiga.
- E tu? Apaixonado? Quero saber, nunca me contas essas coisas.
- Eu estou bem, não me posso queixar.
- E tem nome?
- Já me desapaixonei.
- Quando?
- Agora mesmo.
- Mas como se chama ou chamava.
- Tarde demais. Já não vale a pena referir.
- Bem... que misterioso. 
- Apenas encantador. Só agora te dás conta disso?
- Estiveste bem agora. E com esse sorriso matreiro... Eu não te compreendo. Deixas-me sempre na dúvida.
- Quando assim for basta perguntares que eu respondo. Tens é que perguntar o que realmente queres saber. De outra forma estarás a tentar iludir-me. E a tentativas de ilusão gosto de responder com ilusionismo.
O que é que realmente queres saber? Se é verdade que "quando te deitas com crianças acordas mijado"? Sim. Eu já te tinha dito. E a esta hora tu próprio já o terás confirmado, a contar com a imagem que tive naquela noite. Sim. É verdade. 
Queres saber se eu ainda te acho interessante, não é? Sim, eventualmente, não sei, não voltei a pensar nisso e desde aquela época que, honestamente, o mais provável é teres perdido o encanto que tinhas. Pelo menos para mim. Mas não sei. Teria que acontecer alguma coisa. Uma coisa é certa, jamais o meu ouvido volta a ser penico e muito menos o meu sofá um divã.
- Auch! essa doeu.
- Sabes bem que foi verdade. Não te armes em maricas agora. Até porque nem te assenta e rapidamente, no exercício da vaidade em ti, se te colocares nessa posição, tu próprio o rejeitarás.
- Eu não sou tão ego-cêntrico como tu me pintas.
- Foste fraco. Ou melhor... preguiçoso.
- Mas naquela altéra eu fui sempre honeste contigo.
- Foste conveniente. Para ti. Nunca para mim. Não te iludas.
- Não gosto que penses assim.
- E não penso. Pensava. Pensei. Agora, confesso, é-me indiferente.

         - Pode trazer-me o casaco e a conta por favor?

- Mas vais-te embora?
- Não, ainda aqui estou. 
- Ok, já percebi. Desculpa ter tentado.
- Não sejas parvo. Não me querias mostrar a tua casa agora que está apresentável? Não foi para isso que tiveste tomates para vir até aqui ao cimo da rua?
- Não pensei nisso. Mas, se quiseres ver... Bem, está desarrumada.
- Então não vou.
- Nao. Vamos, claro.
- Ok

          - Obrigado. Até amanhã.

- Eu juro que não te percebo. Ainda agora estávamos ali sentado, fumaste um cigarro e nem acabaste o vinho.
- Va, anda.
- O que estás a fazer?
- Va, aproveita. Afinal de contas estou a fazer "qualquer coisa" para te poder dar um resposta. 


quarta-feira, outubro 17, 2012

O fio dos dias.


“E assim prosseguimos com as nossas vidas, cada um para o seu lado. Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou – arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio.”

Haruki Murakami

sexta-feira, julho 27, 2012

HOMENS DE CAMPER com BIGODE EGOBUST


Sempre desconfiei de homens cosmopolitas que usam camper. 
Mas no melhor dos sentidos. Apesar de o mundo ser contra os determinados códigos de conforto numa suposta bolha social em que o estilo é entendido como palavra de ordem, eu não poderia ser mais a favor.
Há qualquer coisa de promissor quando a presunção intelecto-cultural é projectada sob forma de manifesto naquilo que calçam. A velocidade e contradição que vai do topo da cabeça aos pés. Ou a coerência. 


É no mínimo interessante aquele ar negligé
meets campus natura meets bibliotecas e outros locais de eremitas. 
A denúncia dos seus gostos sob forma de galhardete discreto de um estilo de vida que querem para si.

São as saborosas contradições do ser humano, que grita por uma liberdade intelectual enquanto se veste com um cartaz que em nada difere dos outros que queima, senão apenas na cor.
Enfim, mas isso seriam outros debates. 


O que me trouxe aqui foi o bigode. A forma e a cor do bigode que aquela criatura atrapalhada com a sua própria lógica tinha.
Ou seria a boca. O timbre. A dicção. 


Recordo-me do improvável mais absurdo de todos, que foi o momento em que o conheci. Estávamos entre campas e jazigos e o momento não poderia ser mais estúpido. Eu tinha sido cuspido para aquele lugar sem me dar bem conta como. Lembro-me vagamente da brutalidade daquele dia e da forma como nada fazia qualquer sentido. 


De repente o burguês, o infame mortal que sempre quis mais do que na verdade lhe pertencia, anuncia alguém que queria apresentar. 


Fê-lo da invariável forma protocolar e pseudo-aristocrática, que me faz sempre revirar os olhos e não esperar menos que nada do outro lado.
E de repente fiquei sem reacção.
O timbre. A dicção. Os olhos. A ilógica conjugação do anonimato e a presença de espírito. A boca. A eloquência. Os olhos rasgados. As mãos correctas. A altura exacta. E a segurança que defendia uma ferida qualquer. 


Em 3 segundos levitei para uma dimensão qualquer em que o animal em mim esvaziou aquele espaço comum, e nos criou um planeta onde somente habitávamos nós os dois.
Não me lembro de ouvir qualquer outro ruído para além dos que ele podia emitir. 


E de repente a culpa. A moral. Essa velha filha da mãe que volta e meia me recorda que nasci parido de outro matrimónio, que não aquele onde a culpa e a moral se associam a tudo.
Como é que num funeral de um amigo eu poderia cometer a indecência de abandonar tudo por segundos, e perder-me de fascínio por um estranho que até então só partilhava comigo a perda?
Que indecente. Que imoral. Que espontâneo, que natural. E rapidamente me resolvi a pensar que a pessoa desaparecida estaria a achar a mesma graça que eu a toda a situação. 


Referiu que já me conhecia de vista há muito tempo, mas que compreendia perfeitamente que o seu rosto nada me dissesse. Afinal de contas "sou um rapaz que ninguém nota", disse ele claramente a gozar com a minha cara. Aquele piquinho a engraçado/presunçoso foi o ingrediente que faltava para lhe reconhecer uma das melhores qualidades nas pessoas - a ironia.

Uns tempos mais tarde, e ao que percebi tarde demais, sentei-me com a criatura nas muralhas da Sé.
É então que reparo no bigode. Já meio queimado nas pontas. Nas pontas que penteava discretamente à la Salvador, como que lembrete para si próprio do seu poder de sedução e segurança no momento.
Mas estava confortavelmente descontrolado. Falou e quebrou diversos códigos de protocolo entre estranhos. Depois, ao despedir-se foi tosco e transmitiu uma estranha incerteza no que estava a fazer. 


Seria fácil imaginar que se tratava de um ser bizarro, mas isso seria só fácil. 

Seria recorrente atribuir-lhe um mistério qualquer que validasse ao meu imaginário a vontade de o levar para algum lado longínquo, conhece-lo melhor. Mas isso seria só mais um dos muitos mecanismos recorrentes da forma como gosto de ler partituras. 

Depois veio o momento Rua Garrett. O inusitado momento em que durante o dia me passeava para comprar uma camisola de seda para uma amiga, que ia visitar no dia seguinte, e sou surpreendido com um grito em meu nome.
Era ele novamente. A correr. Como de todas as vezes fez questão de me mostrar que vivia. Passava-se alguma coisa com a exposição e tinha que resolver tudo rapidamente. Falámos em andamento, literalmente. Até que parei em frente à loja e disse-lhe com um sorriso sincero: Eu fico aqui.
E ele, mais uma vez de uma forma atrapalhada, lá se despediu em fade out pela rua a fora. 


Vieram-me à cabeça as mãos dele, que dançavam com o copo de ginger ale sobre a mesa. A forma como me inquiria abruptamente. Como se despejasse o seu cansaço em mim e, nalguns momentos, fosse sua intenção tornar aquele momento num exercício técnico vulgar. Fez-me falar de coisas que não falo facilmente num formato social. Deixei-me ir pelo desafio em mim mesmo. Até onde poderia eu ir nas respostas às suas perguntas demasiado frontais. 


E depois, isso não batia certo. Se eu não estaria de todo na mira, porquê chamar-me na via pública, numa rua onde facilmente me conseguiria evitar sem eu dar conta? 


Tratava-se de um clássico discreto em que, por alguma razão, optara por me manter “ao largo” mas não totalmente excluído? E eu estranhamente permiti. Até porque de uma forma qualquer, e essa sim bizarra, tinha em mente que ainda iria acontecer qualquer coisa. Sem qualquer ansiedade ou outro sentimento acelerado. Mas em mim havia qualquer coisa que me dizia que era eu, o outro, que um dia ele terá chamado secretamente para a sua vida. 


O que iria lá fazer eu não sei, mas apetece-me descobrir. 



terça-feira, junho 05, 2012

Melancholia

"- Para mim existe claramente um T. antes e outro depois do Melancholia. Posso ter 80 anos ao rever o filme, e irei sempre lembrar-me de ti. Naquela noite tudo mudou. Tu nunca mais foste o mesmo."
D.



segunda-feira, maio 28, 2012

Smoking Crash


Às vezes tinha a sensação que vivera toda a vida em aeroportos. Conhecia os recantos de tantos quanto os das casas onde fiz vidas cruzarem-se com a minha.
Não entendo a beleza como a entendi. A negação do âmago e da alegria num corpo só, é de uma monstruosidade estética que não consigo aceitar de que possa fazer parte algum dia. 



O medo é uma variante da corrente sanguínea que nos diminui para nos podermos superar em nós mesmos. Com o estalar dos ossos e o esticar da pele, num arrepio de vertigem que nos traz o calor do sangue que ainda nos corre pelas veias, e finalmente sentimos a tão aclamada liberdade. Mas não. Não somos efetivamente todos iguais.

Seria um aparente dia normal. Daqueles que por nos parecerem tão normais nos alertam para uma possível catástrofe. Daqueles cujo equilíbrio não tem qualquer melodia ou cheiro. Daqueles estranhamente vazios.
Mas não. Efetivamente não se veio a revelar um dia normal.

Estava parado no topo de uma das colinas da cidade quando o sol e o silêncio me rasgaram a mente e as vozes inconfundíveis de outrora se fizeram ecoar.
Virei-me e não vi ninguém. Estava ali a sós. Completamente a sós.
O silêncio e o calor na pele não me conseguiram agarrar à terra, e no piscar de olhos que evitei, dei um passo em direção ao vazio.

Poderia ter regressado à pintura. Poderia ter regressado à fotografia e ao desenho, onde o poder da cor transformou durante anos a minha realidade. Mas as mãos estavam imóveis e o olfato sem cor.
Desde aquela noite em que nos vestimos de preto, e usámos as melhores manobras para cumprir todas as expectativas de uma imagem, que não consigo entender o que aconteceu.

Lembro-me de entrar no carro negro e incorporar a personagem com sorrisos e galanteios. Lembro-me do perfume da vaidade que naquela noite não havia meio de me assentar sobre a pele, nem mesmo quando atravessei a passadeira vermelha.

Os flashes e aqueles projetores violaram-me a mente. A cada disparo, mesmo já não sendo para mim, sentia o reerguer da personagem em mim.
Recordo-me da arrogância de um agente que ferozmente garantia o tempo de antena a mais uma desgraçada que mal respirava no vestido que a obrigaram a vestir.
Tudo aquilo, naquela noite, já não era mais o meu mundo. Havia qualquer coisa ali de repetição e desespero que me elevavam a rejeição no estômago.

Entrei e pensei que não te tinha visto chegar. Quando me sentei avistei-te do meu lado esquerdo.
Olhei para o telefone e pensei no quão estranho estava a ser a demora de uma resposta à carta que tinha escrito a nu, àquele outro que cada vez mais parecia não ser quem eu esperava fosse.
Voltei a olhar para ti e elogiei a tua amiga. Estava elegantíssima.
Tu nem reparaste na minha presença nem por um segundo.
De repente viras-te para trás e eu consigo perceber a insólita roupagem que trazias. Não parecias tu. Parecias outro que outrora criticavas sobre a personagem em mim.

A princípio rejeitei a ideia. Não sei se por ciúme ou por pura precaução.
Os pensamentos começaram-me a assombrar de tal forma que ao primeiro intervalo abandonei a sala e vim para a rua.
Chamei o meu carro e sem hesitar afastei-me do daquela noite ali.

No caminho para casa toca o telefone e era o Louis.
- Acabo de chegar a Lisboa e, no aeroporto, cruzei-me com o Ulliel que estava embarcar para Miami.
- Desculpa? 
- Sim, não sabia que ia voltar e ele estava estranho e mal me falou. Como se fugisse de alguém ou de alguma coisa. 

Conheci-o há dois anos numa miragem do Quartier des Enfants Rouges. Mais propriamente numa festa em casa de um desses novos cineastas com a mania que era alternativo mas que na verdade não passava de mais um menino do papá.
Era uma casa fabulosa no 3e arrondissement, que parecia tirada de uma imagem do final do século das lutas pela liberdade entre burgueses abastados mas negligentes pelo apelo a uma cultura maior. Os pais tinham viajado para Lisboa e ele achou que a casa precisava de uma vida lasciva qualquer.
Lembro-me dele a um canto na sala mas perfeitamente intrujado. Não me parecia acompanhado e tive a certeza quando me fitou o olhar.

Naquela noite falámos até amanhecer e eu, como tinha acabado de regressar de Biarritz e decidido mudar de bairro durante as ferias, achei que aquele seria o bairro perfeito. Ele, por sua vez, estava igualmente a viver um divórcio complicado e tinha acabo de chegar a Paris onde procurava um refúgio naquela cidade por tempo indefinido. Levou-me a ver um espetáculo do Alain Platel onde o mundo fazia o mesmo sentido para ambos.
Vivi com ele 7 meses naquele bairro até que um dia, ao regressar de Nova Iorque, cheguei a casa e ele tinha apenas deixado um bilhete.

Um ano depois encontrei-o em Lisboa, no Lux, e ao fugir por entre a multidão mandou-me uma mensagem que só dizia: Desculpa.
Soube por entre amigos que tinha tido uma recaída e que tinha viajado para fugir a um amor pérfido ao qual sucumbia como a morte. Mas até hoje não consegui entender ao certo o que aconteceu.

- Eu também não sabia. Aliás, o estranho é que ainda ontem falei com ele ao telefone e tínhamos combinado jantar amanhã. Não percebo. 
- Pois, que estranho… Mas olha, vou deixar as coisas a casa da Isabelle e posso ir ter contigo se quiseres. 
- Claro, eu estou a caminho de casa também. Dá-me uns 20 minutos e encontramo-nos lá. 

No caminho a imagem que tinha de ti ia ficando mais confusa. Que sentido fazia tudo aquilo afinal?
Se por um lado rejeitava aprofundar por receio de dramatizar, por outro trazia um estranho amargo de boca que não me permitia abandonar as conclusões.

Recebo uma mensagem no telefone.

“Onde estás? Perdi-te de vista e já não me consegui sentar ao teu lado. Temos que falar porque preciso de te contar o que ouvi.” 

O meu estômago deu a volta e pressenti que era sobre ti. Respondi que me tinha sentido indisposto e estava de regresso a casa, desfazendo-me em desculpas e evitando a pergunta.

“Que grande merda! Mas estás bem? Falamos amanhã então.” 

Estava já a chegar à Avenida da Liberdade quando liguei à Mrs. Dalloway a contar-lhe o estranho de tudo aquilo.

- Tens a certeza? Que estranho… Não percebo – disse ela.
- Não te sei explicar, é um feeling. E cheguei a enviar-lhe uma mensagem mas ainda não respondeu. Mas também pode ter o telefone sem som para não interferir com o espetáculo, não sei. 
- Desde o funeral que sinto que não andas bem e que não seria má ideia tirares uns dias e vires ter comigo. 
- Minha querida talvez tenhas razão mas não sei se consigo tirar uns dias agora. 
- Vem, faz-te falta. E é verdade, o outro disse-te alguma coisa? 
- Nada. Quer dizer ligou-me e disse-me que deveria escrever um livro, achas normal? 
- O quê? Mas antes ou depois de ler a carta. Não percebi, não lhe perguntei porque me sinto tão envergonhado com aquilo. Mas pelo contexto ele referiu que tinha estado a ler artigos antigos que publiquei na velha época. 
- Que medo! Isso não pode trazer coisa boa? 
- Pois não sei, mas incomoda-me ter-me exposto tanto e no fim sentir que não há uma palavra do lado de lá, sabes? 
- Claro, percebo-te perfeitamente mas isso também é bom. Assim ele só prova o como funciona aquela cabeça. 
- Pois… 
- Onde está? 
- Estou já na Avenida da Liberdade a caminho de casa. O Louis vai lá ter. Chegou à pouco a Lisboa e sabes que não dorme sem um copo de vinho e um relatório da cidade na sua ausência. 
- Ai que bom. Então vou-lhe mandar uma mensagem para ele te convencer a vir ter comigo a Versailles. E não aceito um não. 
- Vou tentar. Na verdade acho que nada me faria melhor agora nestes dias. 
- Então vá, ligo-te amanhã. 
- Beijo 

Lembro-me de desligar o telefone e estender a cabeça sobre a janela e estar a ver o céu por entre as copas das árvores. De me recordar das gargalhadas que dávamos com as nossas diferenças quando ainda vivíamos em Faubourg Saint-Denis. Daquela noite lembro-me ainda de fechar os olhos e sentir o cheiro forte do teu perfume verde que se entranhava na minha roupa e na minha pele e viajava comigo por onde quer que fosse.

Depois só me lembro de uma súbita travagem em grito e de um embate ensurdecedor. À memória recorro ainda hoje às luzes das sirenes da ambulância, que rasgavam o carro enquanto eu, imóvel, apreciava o silêncio absoluto da sua dança no teto.

Uma semana depois trouxeram-me uma revista social. A imagem. Lá estava a imagem em que anunciavas em surdina a companhia que escolheras para me substituir.

Fiz as malas para ir ter com ela. Efetivamente parecia-me já nada poder fazer aqui, e o descanso era agora imposto pelos especialistas da matéria.

Mas ainda assim ao fazer as malas perguntava-me que sentido teria aquilo tudo e sobretudo, até onde é que me posso ter enganado tanto em relação a ti.

Já no aeroporto comprei um jornal das artes. Li que vais lançar o teu novo projeto em breve. Soou-me tão estranho não estar por perto, soou-me tão mal tão pouco saber.

Sentei-me no aeroporto à espera da minha vez. Liguei-te duas vezes e não me atendeste, não me devolveste a chamada nem me enviaste uma mensagem.
Num resumo forçado espantei-me com a leviandade que com que desapareces.

Sentei-me e fechei os olhos até os segundo virarem minutos, e os minutos cumprirem as horas que me iriam arrancar dali.