terça-feira, maio 31, 2011

SAVAGE BEAUTY

Met Gala 2011 from Kluk Jeanovej on Vimeo.



"Às vezes ainda precisava de olhar pela janela para ter a certeza que estava ali.
A sua pele ainda trazia a marca que a "A Scent of Intrigue" do Tony Hymas lhe tinha cravado no momento em que ficou estático, numa contemplação absurda, perante a beleza do black duck feathers dress sob o título The Horn of Plenty (AW2009).
Sentia a sede de um corpo desidratado de tanto assistir. Era a beleza no estado mais magnífico e controlado.

Olhou para o chão e viu ainda o seu smoking manchado de uma bebida qualquer.
A caixa negra estava vazia mas no bolso do casaco encontrou o panther que, simbolicamente, usou no dedo na noite anterior.

O concerto e a toda aquela música de multidão repetiam-se infinitamente na sua cabeça.
Ela afinal era mais do que uma performer, era de uma beleza em palco que parecia irreal não fosse todo aquele contexto igualmente perfeito.

Dog Days Are Over by Florence and The Machine

Amanheceu e tratou das malas que ainda nem tinha desfeito. O voo da sua amiga Gabrielle chegava dali a umas horas e ela vinha destinada aigualmente esquecer Lisboa.

Arrumou tudo e saiu do hotel mesmo antes dos amigos mexicanos abrirem as portas da frente.
Parou no Brian Park e sentia-se decido a acabar o malfadado livro que parecia não ter fim.

Estava um dia de Primavera como há muito não se via ali. As pessoas estavam todas sorridentes e disponíveis. Por momentos pareciam até ter esquecido o suposto assasinato que prometia uma vingança mundial e ainda estavam embriagadas com toda aquela beleza que a gala da noite anterior tinha trazido à cidade.

A cada folha que passava lembrava-se das imagens daquela noite. A cada fracção de segundo deixava-se viajar por entre cada detalhe que o seu corpo absorveu. Era mesmo incrível o efeito que aquela noite tinha tido em si.

O dia passou e já ía pela Madison Ave. a caminho do hotel, quando o telefone toca.
Deviam ser ainda umas 5am em Lisboa.

- Tu sabes... as you know, sou do tipo "cara valente"... e sim, sinto a tua falta e tu em NYC.

Deixou cair o telefone no chão como que em câmra lenta e ficou absorvido de tal forma que não havia qualquer tipo de replexo motor na sua sombra. Congelou. Consegui apenas ouvir a sua própria respiração e mais nada.
Segundos depois, mesmo sob a sensação que tinham passado horas, decidiu assumir que tudo não passaria do efeito do alcóol e da música do LUX, naquela catedral dos múrmurios em que se transforma a noite em Lisboa.
Nada mais que o reflexo do alcóol num corpo cansado da vida saudosa a que se condedara anos antes.

Correu em direcção à NY Public Library na esperança infantil de que, rodeado das referências que lhe traziam aquele espaço, o romantismo no seu estômago estaria a salvo.

Surge uma segunda mensagem.

- Deixa-me matar a bebedeira e talvez te ligue. You know... the greatest loves are great but they scare a lot! E sim, estás tu em NYC e a minha cabeça pensou muito. About me, about you, about us... Fuck. Odeito-te!

Seis anos depois de toda uma segunda vida eis que surge o momento. Seis anos de um silêncio insurdecedor que o tinham arrastado precisamente para aquela cidade, e ele nem queria acreditar no que estava a ler.
Lembrou-se do seu cheiro, do seu sabor. Lembrou-se numa fracção de segundos da esperança. Sentiu o medo da vertigem novamente mas fechou os olhos e decidiu saltar.
Agarrou no telefone e repondeu. Perguntou-lhe se queria vir ter ele.
Logo de seguida surge a resposta.

- Not ready yet... Been really bad. Last year was hard and I'm still mending things.
If some day I'll marry you, I wanna be fully ready. We marry, get a house, 4 kids, 2 dogs and 2 cats, and a refugee on mountains for the weekends :)


Chegou ao Hotel e dirigiu-se à recepção:
- Hi, could you book me a flight to Lisbon for today?
- Of course... But it's everything ok?
- Yes, don't worry. I'll be back as soon as I can. But please tell my friend that comes today, that I had to go to Lisbon but I'll call her to explain.
- Sure...
- Thanks.
"

in Posh Las Divinas Palabras
Ao Contrário


quarta-feira, abril 06, 2011

Na cama com Pavlov

Picture from HelloFromLisbon


"Vivo ainda fascinado com esta minha recente descoberta.

Naquela manhã inesperada acordo com o corpo dormente e o meu raciocínio absolutamente silenciado. A imagem daquela luz que rasgava a janela e nos obrigava a fazer daquele um novo dia, tinha de facto uma cor espectacular.

Lembro-me das cores na sua pele, do cheiro do seu cabelo na almofada. Era tudo tão absolutamente familiar.

Já no banho e ainda atordoado, de alguma forma não estava a perceber porque não se juntava a mim e desta vez até fazia alguma cerimónia na aproximação aquela divisão. Eu ali estava, no intitulado "chuveiro de transparência porno para ver tudo e não resistir" a tomar um banho que me arrancava aos poucos da noite anterior.


O dia passou e nem houve muita comunicação.

Chego a casa e nada mais se apoderava do meu pensamento senão uma incisiva anestesia local de seu nome I'll Try Everything Once para não ter que complicar muito.

Foi a forma eficaz que encontrei de simplificar aquela experiência, que me enchera o peito de ar e a barriga de insecto alados cujas cores carnavalescas induziam o meu organismo a electrificar o maior neon do meu silêncio - O AMOR!

Partilhei o telhado com Klimt e ouvi o que tinha para me dizer. Na complexidade de uma vida a dois, aquele companheiro já me conseguia ler o silêncio e faz o favor de me recordar Pavlov.
Pode ter sido isso mesmo. Passados anos e anos duas pessoas dormem juntas novamente. E o reflexo de todos os estímulos condensados durante essa noite provocam uma imagem acolhedora e familiar, aquele sabor, aquele imenso planeta de neons. E se calhar é só mesmo isso. O reflexo a um estímulo antigo porque somos animais e estamos expostos ao sufixo do "condicionado" também aí.

Pavlov descobriu que para além dos reflexos inatos, se podem desenvolver nos animais e nos seres humanos reflexos apreendidos a que chamou de reflexos condicionados.

Isto faz todo o sentido. Condicionados pela memória, também nós podemos reagir da mesma forma a um determinado estímulo que nos reporte de forma perfeita e exacta para o momento a que corresponde essa mesma experiência vivida, e desenvolver em nós um reflexo imediato que nos leva a repetir as sensações e emoções correspondentes à mesma.

Este senhor, se bem me recordo, foi muito representativo neste passo que deu na para que a psicologia experimental se direccionasse para o estudo comportamento humano e animal.

Como é que, passados tantos anos, ainda não temos um neon também no cérebro que se ilumine sempre que estivermos diante de um reflexo condicionado?

Há portanto uma relação directa entre o amor, e/ou aquilo que julgamos serem as suas formas de manifestação e, mais frágil ainda, as nossas formas de um identificar, e este grande senhor que nos mostra que às vezes, a electricidade que chega ao grande neon não é mais do que um reflexo condicionado da pessoa responsável pelo iluminar.

Continuo fascinado com isto tudo e pelo meio tenho a perfeita convicção que afinal poderei mesmo ter dormido com Pavlov."

in POSH, LAS DIVINAS PALAVRAS (AO CONTRÁRIO)

sexta-feira, março 25, 2011

PUBLISHED

Photo by ©Tiago Veiga

Enquanto esperava no aeroporto decidi ir ver livros.
Pensamos sempre que o que levamos na mão será suficiente mas ainda assim acabamos por não resistir aos mil estranhos expostos nas bancas que nos seduzem logo no primeiro travo de cada folha de papel.

Estava com um livro na mão, uma reedição da Graça Lobo ou pelo menos uma capa diferente com o mesmo título que tinha em casa e não consegui evitar a sorriso. Aquela força. Aquela forma encantadora de gritar.

Olhei para o relógio e ainda faltava o tempo suficiente para viver uma vida ali. Também coloquei a hipótese de imaginar viver as dos outros. O velho hábito de ficar sentado em silêncio só a observar a coreografia de um aeroporto.
Desta vez, ao pousar o livro, o surpreendido fui eu.

Por debaixo de uma edição manhosa de um autor inglês qualquer descubro o livro.
Não queria acreditar.
Agarrei-me a ele e rapidamente digitei no telefone o número que sempre soube de cor.
Chamou e chamou e nada!
Liguei para a Sarah...

- Estou? Não vais acreditar..
- Onde estás? Estás bem? Ninguém sabe de ti à meses... estás em Portugal?
- Sim estou bem mas isso não interessa nada, depois explico-te. Não vais acreditar..
- Mas espera... onde estás?
- No aeroporto, mas...
- Em que aeroporto?
- Ai, já te explico, mas ela publicou o livro!
- O quê? Não estou a perceber nada, quem?
- A Isabelle, achas normal?
- NãO! Como? Onde estás?
- Como pergunto-te eu! E agora?
- Ai.. calma... deixa-me pensar... onde estás? vou para aí...
- Não... e ela não me atende o telefone. E eu vou ficar sem telefone... ai.
- Mas já viste o livro?
- Estou com ele na mão. Queres melhor?
- Mas já leste? É muito óbvio?
- Ainda não li, vou comprar agora mas... lembras-te naquela fotografia?É a capa, e queres melhor?
- Aiii... NÃO!
- E a bold diz: baseado numa história verídica.
E o silêncio instalou-se.
- Sarah...? Estás aí?
- Desculpa... nem sei o que pensar. Quer dizer... faço as malas, não é?
- Calma... eu estou de volta.
- Paris?
- Lisboa.
- Mas não estavas em Paris?
- Depois explico... vai-me buscar ao aeroporto às 16h.
- Ok... mas... mas e vens sozinho?
- Sim. Depois conto-te. Serei só eu e ninguém sabe que chego hoje.
- Ok... e... desculpa.
- Não faz mal, eu percebo. Hoje já percebo... mas... depois falamos.
- Desculpa...
- Beijo, vou ter que desligar.
- Beijo.

Comprei o livro e não o abri até já estar em velocidade cruzeiro a caminho de Lisboa.
Havia toda uma vida para reviver naquelas folhas e uma vida para preparar depois daquele objecto.

Estranha forma de regressar - pensei. Mas de que outra forma poderia ser se não esta por inteiro?



domingo, fevereiro 27, 2011

I'll Try Anything Once

Picture from Hello From Lisbon

Cheguei a casa e senti uma corrente de ar diferente.
Aproximei-me do meu quarto e a janela estava aberta.
O sol rasgava as paredes brancas e todo aquele espaço poderia fazer parte de um cenário realista qualquer a la Coppola.

Chego à janela e subi ao telhado.
A Lisboa com aquela luz incrível e o calor da chegada da Primavera serviam de baloiço a Matthew que estava estaticamente sentado sobre a água-furtada.

"Posso?" Perguntei eu já no telhado.
"Sim." Respondeu ele sem abrir os olhos.

Deitei-me ali a seu lado e aguardei que ele me contasse no momento que achasse que conseguiria.

"Dormi lá. Mas não aconteceu nada. E não consigo deixar de sentir que aconteceu tudo.
Falámos da vida nestes últimos anos desde que voltei. Falámos de amor. Do nosso amor.
Durante o sono os nossos corpos tomaram o controlo das nossas vidas. Lutámos para que nada de concreto acontecesse. Acordei com os primeiros raios de sol com a força do sexo que gemia entre os nossos poros. Senti-me em casa. Como se os anos não tivessem passado e ainda vivesse-mos juntos. Ainda fossemos quem éramos Fingi que nem me passou pela cabeça tomar banho a dois. Fingi que tudo aquilo tinha sido apenas reflexo de uma possível carência afectiva projectada numa pessoa que estava ali. Fingimos que não nos queríamos beijar. Fingi que aquela tosta não me recordou o sabor dos pequenos-almoços dos outros tempos. Segurei-me ao ser adulto e não consigo pensar noutra coisa senão em nós."

Sentei-me e perguntei: "Queres falar sobre isso? Não tem mal se vocês forem efectivamente os..."

Olhou-me nos olhos agora abertos e sorriu. Num tom baixinho disse apenas:
"Não. Vamos voltar a fechar os olhos e continuar a sonhar acordados com tudo isto aqui, pode ser?"


"Sim." Respondi eu e deitei-me novamente a seu lado.



Muzicons.com

***
"when i said ' I can see me in your eyes', you said 'I can see you in my bed', that's not just friendship that's romance too, you like music we can dance to, Sit me down, Shut me up, i'll calm down, and i'll get along with you,"
***
The Strokes

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sometimes


"Às segundas começo a semana cheio de força. Tudo parece pronto a aceitar as minhas alterações.
Às terças sinto a tua falta.
Às quartas sinto que estou a meio da semana e percebo que não vou conseguir cumprir tudo o que agendei mentalmente para tão poucas horas por dia.
Às quintas sinto a tua falta.
Às sextas acho que o mundo pode desabar mas eu quero é dançar.
Aos sábados gosto de aproveitar as maravilhas de, mais uma vez, viver no coração de uma cidade da Europa e poder saborear tudo o que isso tem de mais surpreendente.
Aos domingos sinto a tua falta.
"

in POSH, Las Divinas Palabras

domingo, fevereiro 20, 2011

"Eu quero que você venha comigo (...)"


Acordou e deixou-se ficar nos lençóis quentes a admirar aquele sol que entrava pela janela e compunha sombras e formas inigualáveis naquele quarto.
Em câmara lenta sente os cantos dos seus lábios a elevarem-se transbordando um sorriso especial em si.
Deixa-se ficar... No silêncio daquela revisão da noite anterior.

Tenho saudades disto - disse ele ao olhar para um quadro no Braço de Prata.
Sorrindo entre o barulho de quem espera por uma bebida no bar ela sorri e busca-o com o olhar.
- Hum hum,.. Também eu. Disto.
Sorriu de volta e sente o calor que só ela se consegue transmitir. O entendimento perfeito e a telepatia intacta de um amor incondicional.
- Tenho mesmo... - De arte. - Sim. - Mas não é das outras coisas. É da arte. - Sim.

A bebida chega e ele continua a contemplar aquele quadro que estava na parede como tantas outras coisas. Não que o quadro fosse genial mas tinha sido o suficiente para o reportar à vida que teve e lhe faz falta.
Deixou-se ficar ali em silêncio com ela enquanto os restantes amigos aguardavam as suas bebidas e falavam de outras coisas.
- Sabes, ainda no outro dia disse uma daquelas coisas que te sai tão naturalmente que te obriga a confrontar a veracidade da espontaneidade em si. Do nada, ou num momento como este em que me lembro daquela época, olhei à volta e disse à Marta que sentia que no último ano me sentia mais bruto. De alguma forma aquilo ali "embruteceu-me". Ela, num segundo compreensivo passou para outro em que naturalmente, por suspeita e perspicácia, me questionou o porquê na certeza de acertar naquilo em que eu pensava.
Desviei o assunto porque não queria que ela me interpretasse de forma errada como incluída num bolo em que não a incluiu. Mas a verdade é que existe um facto com que acordei naquele dia. Precisava de me "afastar" mais um pouco de todo aquele universo e retomar o meu.
- Pois eu percebo-te. Mas talvez seja também porque agora tens menos tempo.
- A falta de tempo nunca foi desculpa naquele tempo, por isso não deveria ser agora.


Levantou-se e dirigiu-se à janela para ver o dia.
Estava ali a sentir o sol na cara quando o vizinho do prédio em frente liga a aparelhagem.
Caetano Veloso e Chico Buarque cantavam "Você não entende nada"
Tãoooo bom. Melhor era impossível. Acordar com a memória daquela conversa e sentir a confirmação da vida em si mesma com aquela música que era uma de muitas que serviam de banda sonora aqueles tempos.
Tãooo bom. Ficou ali, deixou-se ficar a aguardar a parte que sabia que adorava em que entre "Todo dia" do Caetano passamos para "Todo o dia ela faz tudo sempre igual" do Chico.
Tãooo bommm.

Viajou na vida e pela vida e o tempo perdeu qualquer valor no espaço ali.

segunda-feira, junho 21, 2010

GOLDEN CIGARETTES


Há muito tempo que não vinha até aqui.

Ao longo desta viagem de distância, muitas foram as vezes em que ao pensar os meus dedos escreviam no ar. Desenhavam danças não coreografadas e, levitando, escreviam as formas do que acontecia cá dentro.

Não sei bem porque já não me recordo, mas qual terá sido o destino que tracei quando me abandonei? Já não me recordo… Dei comigo na outra noite a olhar-me no espelho sem perceber ao certo quem era aquele que, sem qualquer luz, em nada se assemelhava à memória que tinha de mim mesmo.

Tenho tido tantas saudades minhas.

A semana passada, quando levei a Laura ao aeroporto, lembrei-me de todas as vezes em que as promessas eram cumpridas ao atravessar aquelas portas. Lembrei-me do quão fascinante era a vida nos tempos em que, sem vergonha nem constrangimento, me atirava de cabeça à vida. Era tão bom…

Não sei ao certo como vim aqui parar.

Existem noites em que o silêncio que tanto procuro tem barulho a mais. São as mil vozes na minha cabeça e as centenas de palavras que latejam nos pontos dos meus dedos sem que assuma a verdade de os deixar cair sobre um papel firme.

Hoje, depois de este estranho estado de espírito a que o meu corpo se atirou, senti a vontade de me quebrar. De me deixar cair e ceder ao cansaço com que luto sobre este próprio luto que se apoderou de mim.

Perdi a vergonha da minha própria vontade e cedi. Puxei a manta daquela música que me invade o espírito e torna inevitável o derrame do meu próprio sangue em mim.

Veio então a velha dor no peito, aquela dor que contenho e adormeço à qualquer coisa como um ano. Aquela coisa que me abre os pulmões e anuncia o dilúvio sobre a minha pele.

Ainda assim parei, antes mesmo do começo. Perdi a habilidade e a capacidade que tinha para me levantar depois dessa nudez. E por cobardia parei, antes mesmo do começo.


Estavas absolutamente maravilhosa ontem à noite. Não me canso de te o dizer. O meu corpo cedeu… desculpa. Quando me enfiei no carro e arduamente voei até casa não consegui evitar a sensação de ridículo em toda a situação. Mas a idade já não me permite fingir que haverá sempre uma saída que me irá permitir ficar na festa sem que nada de pior possa acontecer. Naquele caso não. Cheguei a casa e anestesiei-me até à demência. Ainda me dói tudo… de dentro para fora, como de fora para dentro.

Queria tanto ter ido hoje ver o mar. Mergulhar e sentir o meu corpo a boiar sem ouvir mais nada para além das ondas. Tenho saudades de qualquer coisa que me segure. Estou frágil e essa fragilidade irrita-me porque sempre fui a torre que quis ser e agora sinto falhas em mim.

Ontem, antes do jantar preparei-me meticulosamente. Olhei-me no espelho e pensei: Ergue-te, vai-te fazer bem. Fiz tudo o que sempre fiz outrora. O ritual da vaidade foi seguido do início ao fim. Mas em nenhum momento o senti. De repente parei novamente em frente ao espelho. Não sei se era da música que ecoava pela casa, ou se apenas teve que acontecer assim, mas mais uma vez senti o peso daquelas horas. O peso daquele sorriso e naquela postura do “está tudo óptimo, como não poderia estar?”. Obriguei-me ao ensaio do rosto. Ensaiei cada sorriso e cada gesto coreografado do meu corpo. Lembrei-me de como o fazia antigamente, como tenho feito nos últimos tempos. E consegui criar uma imitação do que fui outrora.

Assim que entrámos no salão e te deixei engolir pela multidão agarrei-me ao bar de entrada e aguentei-me naqueles minutos de segurança.

Estavas absolutamente maravilhosa, não me canso de repetir. Quase conseguia sentir que a as paredes tocavam a Stormy Weather só para te anunciar.

Há uma pérfida relação com a dor e a beleza que de facto nos torna ainda mais brilhantes do que aquilo a que nos acostumamos ser.

Senti o veludo da dor no teu perfume e quando me vieste salvar do bar e me recordar o razão pela qual eu ali estava não pude deixar de reparar no brilho do teu pendente com a segurança dos teus passos.

És uma mulher absolutamente fascinante. Cada passo que davas era como que uma solidificação do próprio peso da força que evocavas de dentro de ti para não revelares qualquer tipo de dano na discussão que ocultavas ter tido antes de entrar no carro.

Brilhante. Absolutamente delicioso.

Estavas com aquele brilho no colo que usaste na noite de Lèvres Suspendues, lembras-te?

De facto os cigarros dourados pareciam ter sido feitos à tua medida meu amor.

Neste exacto momento apetecia-me ter-te aqui e, entre aqueles cigarros e um gin tónico, poder dançar Green Onions.

Ai tãooooo bom… e como esta música me cura a qualquer melancolia.

Sabes que mais… não vou resistir mais. E vou recriar o mundo e, mesmo que não consiga regressar ao que fui, farei nascer um novo deus em mim.

Vou reencontrar-me com a Brigitte naquele secreto esconderijo onde nos refugiámos todos durante a La Belle Epoque, e prometo inspirar cada gota daquele mar e trazer de volta aquele brilho até nós.

Encontro-me neste momento a servir-nos o gin, a acender os teus cigarros dourados e despeço-me a imaginar que estás aqui comigo a dançar até cair.

Se este será o início da cura não sei, mas que é um lugar menos quente de que já precisava, seguramente é.