terça-feira, abril 20, 2010

E depois do nós...


carta a Isabelle

" Para mim qualquer noite tem sempre uma história. Por vezes, limitam-se a lembrar os dias enquanto ainda estamos acordados. Outras, esperam que adormeça para abrir portas a um novo mundo onde, como qualquer um relativo á sua condição, pego nas entrelinhas da vida e polvilho-as com os fascínios da imaginação.

Assim se transformam banalidades em fracções de momentos que nos invadem em segredo quando voltamos a nós.
Afinal é esse o nosso móbil para o dia seguinte. Acreditar que conseguimos puxar-nos cada vez mais perto da nossa imaginação. Acharmos que o dia seguinte irá aproximarmos de quem queremos ser. Os sonhos passam a desejos que nunca acontecem. Sempre foi assim, para mim, sempre continuaria a ser. Até que numa noite ainda acordado apareceste a minha porta. A vontade tocou no desejo. Deitado, o meu coração assinalou a primeira batida de quem está perdido.

Num momento todos os sentidos ficaram despertos e vorazes. Tudo ficou perfeito. Começou com um beijo. Trememos. Indecentes deixamo-nos conquistar um pelo outro. De um beijo espontâneo pensava não tirar mais que surpresa. Mais um engano! Foi fogo, foi apaixonado, foi meigo, foi com a vontade perdida pelos beijos de hoje. Foi mais forte que um encanto, foi o beijo perfeito com todo o desassossego que um beijo tem que ter.
Percebemos que não podia acabar por ali. Devíamos, mas não quisemos. Alimentados pelo calor um do outro despimo-nos e agarramo-nos perdidamente deliciados com quem tínhamos á frente. Conhecemos o que faltava conhecer e tudo superou o sonho mais rebuscado.

Ainda não me esqueci dos nossos beijos doidos, enquanto agarrava um corpo lindo que parecia feito para as minhas mãos. Ainda me lembro do desenho dos teus lábios e do contorno do teu peito. Foi entre o carinho e o querer-te loucamente. Cada movimento nosso parecia que não tinha fim entrelaçando-nos cada vez mais. Semi-nua decidiste provocar-me. Bastou um segundo. Um toque quente da boca em mim e fiquei completamente rendido. Não sei se por ser pelo peso da aventura ou pelo capricho da vontade, mas sei que foi o momento mais pleno que já tive. Saciados, acabamos encostados um ao outro ainda corados. Tu com o teu ar de quem revive tudo o que aconteceu.. Despedimo-nos com o segredo dos amantes.
Nunca numa noite houve tanto desejo.

Ficaram as saudades do teu decote, do olhar cúmplice e do batom vermelho. Sempre procuraste em mim a paixão que o romance esqueceu. Eu continuarei a acreditar em ti. Hoje fizeste-me acordar com o sorriso de quem sabe que vives em mim.


. EVERYTHING IS GOIN TO BE AMAZING
Um beijo Meu"

Matthew

segunda-feira, outubro 19, 2009

Dream of caramel




"Vou-me embora entre aqueles que me tocaram a alma e não conseguiram despertar o meu corpo e aqueles que me tocaram no meu corpo e não conseguiram atingir a minha alma.
Existe uma criatura misteriosa nesta noite... a tentação hoje é um pecado que prevejo nos meus lábios."

in
Think of Cinnamon ...

Para sempre...



Amélia
by Lalala Human Steps

A carne I


A forma... o cheiro, a pele.... a carne.
Tudo ao mesmo tempo numa tempestade de raiva cujos os reflexos insurgiam apenas a dor.
O silêncio.
O som ensurdecedor da máscara de ferro contra o chão.

O sabor... o sabor do sabonete e o travo de citrino que interrompe o cigarro.

- Porque fumas agora?
- Porque me apetece.
- Não devias.

- Porque fumas desde sempre?
- Ok.


O cheiro, a pele, a forma... a carne.
As tuas pernas frias contra o teu peito num compasso de ansiedade.
A agitação, os corpos.

Eram 3 da manhã e os lençóis denunciavam a turbulência do sono suspenso sobre o fio da navalha com que te auto-flagelas.
Fui dar contigo a esquecer-nos... fui dar contigo a perceber o que tinha acontecido e a fechar os olhos com toda a força, para mais uma vez conseguires adiar o inevitável.

O cheiro, a forma, a pele... a carne.
A pele que cobre o peito onde os rios de sangue bombeiam um fascínio absurdo pelo homicídio onde a estética da morte te adormece os sentidos.

Os teus quase lábios sobre os nossos quase beijos. As mãos entrelaçadas como se, por terem nascidos cegas, surdas e mudas, fossem as únicas testemunhas de um crime que se poderiam manifestar sem ninguém a afastar.
A força, o sexo.
A máscara abrupta que se desfaz em mil pedaços e revela a nudez mais bela do crepúsculo contra o meu peito.

A estupidez de uma frase contida entre os dentes, o imutável prazer de que nos privamos.
Já não és o animal ferido com as feridas a céu aberto.

Odeias-me porque nos odeias na possibilidade de conforto de comigo adormecer encaixado, sem culpa, sem máscaras, sem roupa, sem sono, mas com o gesto, o sentimento... o nome que tanto lutas para tirar de mim.

quinta-feira, outubro 15, 2009

A vida, às vezes, acontece.


Não. Não és previsível... És uma obra serena que, na tempestade, consegue erguer muralhas gigantes. O defeito nessa obra é um imenso sucalco causado pelas chuvas de uma vida em que gostas de te passear descalço sobre a calçada. Só que a calçada não é tão afável como a area da praia onde imaginaste a eternidade.

Uma vez vi um menino todo contente por ter chegado à cidade. A "adultez" do seu olhar naquela noite de verão que se escondia entre os caracois dourados de uma criança naife, fizeram-me rever uma vida.
Naquela noite devia-lhe ter contado que às vezes o segredo que se esconde por detrás desta cidade é simples... "A vida, às vezes, acontece."

Naquela noite eu tinha acabado de chegar de Paris. Naquela noite morava em mim a velhice de uma Nounoune mas mesmo assim decidi sair e dançar pelos mesmos rodopios.
No chão encontrei uma peça amarela de um puzzle que outrora pertencera a um conjunto de cúmplices de Lalique...

Ergo a cabeça e encontro a voz quente na multidão. Aquela que mora conosco e cedo porque nos embala. Um mar feroz em revolta contido contra o imenso vidro do teu olhar. A tua pele que bombeava gemidos... aquele abraço interrompido pelo medo.

Lembras-te das libélulas de Lalique nos cabelos das mulheres de Klimt?
Apeteceu-me agarra-te e levar-te até lá para sarares essas feridas que não deixas a céu aberto.

Tenho-te trazido no pensamento e tenho-te abraçado com cuidado desde então. Adormeço e lembro-me da tua cara, da tua voz... guardo-te.

Trago-te guardado contra os meus braços e, no múrmurio do silêncio, susurro em tranquilidade - vai correr tudo bem, eu estarei mesmo aqui.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Piccola Follia


photo by Don Farrall

Se eu pudesse tinha-te guardado comigo!
Trazias o perfume nefasto da dor que emergia em pequenas gotas contidas no teu olhar.
O que se passou?
O teu abraço forte de saudade e as palavras em surdina que continhas no gesto.
" Estás diferente, estás mais adulto."
E tu dizias que não, respondendo em silêncio que era apenas o derrame de uma dor que sabias que eu já tinha identificado.
Tornaste-te quase profissional naquela máscara... não quero voltar a encontrar-te assim.
Temos que dançar, dançar faz bem.
A vida é mesmo isso... é mesmo isto. É tudo, é uma grande folia em que sobrevivemos entre festas.
Anda cá, hoje faço-te eu o jantar e podes pernoitar cá em casa.
Até fechares as malas podes vir passando. Quando as tiveres que fechar, dou-te uma chave e um tecto será teu.



Après moi, Le déluge.

After me comes the flood


O telefone toca e do outro lado ouvia-se a voz de Laura demasiado entusiasmada para aquela hora ainda muito tudo. Abre os olhos e num gesto lânguido procura os ponteiros do relógio.


- Mas tu ainda estás a dormir? Eu não te posso deixar uma noite que dá nisto. Estás em casa? - Estou... mas que horas são? - Eu não acredito, o carro vai-te buscar daqui a uma hora. Tens tudo pronto? Vou ter que passar aí? E essa cara? imagino... - Aiii... menosss... eu vou, eu vou... deixa-me só despachar aqui umas coisas. - Não acredito! Quem é que aí está? - Va, já te ligo...beijo


Larga o telefone e estende o braço aos corpos que ali adormeciam.
As pernas entrelaçadas nas suas revelavam a fragilidade daquele que se mostrou mais forte na noite anterior.
Olhou em torno da cama e o cenário recordava-o daqueles tempos de La belle Époque... Extraiordinário – pensou.
Os copos partidos no chão, as garrafas e as roupas espalhadas por toda a casa inspiravam o seu sentido de humor logo pela manhã.
Levanta-se, nu, e agarra num blazer de veludo verde-escuro que estava mais perto de si do que lhe pareceu num primeiro olhar. Apanha o camafeu do chão e coloca-o na lapela.
Desce as escadas e liga a máquina de café enquanto procura um isqueiro que tivesse sobrevivido ao caos e lhe pudesse acender o cigarro amassado que encontrou no aparador.


Abre a janela e acende finalmente o cigarro. O tempo tinha mudado. A humidade daquela serra de Sintra entrava assim pela casa adentro num presságio de silêncio que o levaram até Bordeaux.
Do outro lado da rua estava a vizinha com aquele ar de quem, pela milésima vez, assistira aos gemidos e excessos da noite anterior. Ela tentava sempre não olhar quando ele estava à janela mas era mais forte que ela. Ele, enquanto fumava, expunha-se num reflexo facial mais do que sórdido na espera da cedência daquela velha moralista insuportável.
Era já um ritual... era sempre igual. E ela cedeu.
Ao olhar partilhava assim com ele a sua nudez e com isso o pecado que ela tanto criticava com telepaticamente. Assim ele ganhava o jogo da manhã. Ela cede à tentação o que faz dela uma rameira pecadora, e com isso jamais falará do que sabe.
Pobre desgraçada que vive presa a uma enormidade de disparates católicos que a levam até a partilhar a culpa de crimes que nunca cometeu. Ridícula – chegava ele à mesma conclusão de sempre.


Com o cigarro na boca, uma mão apoiada no parapeito da janela, deixa-se levar pelo momento e insinua o gesto de prazer ao tocar-se mesmo ali, em frente a ela.
Ela, invariavelmente, fecharia a janela naquele momento como sempre fez.
Estranhamente ela ficou ali, imóvel, cruel, sem fechar a janela e desta vez, com isso, ele começava a ganhar-lhe algum respeito.
É subitamente surpreendido pelas costas. Chega um dos gémeos com quem tinha festejado.
- Bom dia... deixa a velha tarado...
- O teu irmão ainda dorme?
- Sim... Queres café?

- Quero. Vocês têm que se despachar.
- Porquê? Isso são modos?
- Deixa-te de merdas... é hoje a merda do almoço.
- Foda-se! Esqueci-me!... é a que horas?
- A Laura disse-me que o carro vinha-me buscar dentro de uma hora... quer dizer, tenho 40 minutos agora.
- Merda... vou chama-lo! Ninguém pode ver-nos aqui! Quem é que te vem buscar?
- Segundo a Laura, um carro enviado pela tua mãe, porque não aproveitas a boleia.
- Tens tanta graça tu. Se ela soubesse nem um táxi enviaria!
- A tia adora-me e nem sonha ela o quão faço feliz a sua família...
- Nem brinques com coisas sérias...
- Va, chega aqui, a velha hoje está resistente, vamos mostrar-lhe como se faz...
- Porco! Deixa a infeliz.


O telefone volta a tocar. Era a Laura a relembrar o dress-code e a dizer que viria no mesmo carro que já estava a caminho.
- Quem era?
- A Laura está a chegar no carro que a tua mãe enviou. Parece que a tia foi generosa e estendeu o seu favoritismo até à Laura.
- Merda... temos que sair já. A Laura não nos pode ver aqui. Vou acordar o Pedro.

A campainha toca entretanto. Não havia mais nada a fazer, ela já tinha chegado.


Existem sítios no mundo em que um Domingo regular começa com um bom pequeno-almoço, o jornal e uma ressaca leve da noite anterior seguido de um dia inútil entre amigos em que se celebra o facto de estar presente a mais um belo dia de vida de uma forma quase que hedonista.


Existem outros em que, para fugir à rotina, outros domingos tornam-se diferentes porque o mais belo escondido da vida também também se pode revelar atrás de um segredo.