domingo, maio 24, 2009

Medo

photo by Kokekoko


Entra no carro e num acto desconrolado liga o motor e o rádio aumentando o volume até ao limite.
As horas... aquelas que faziam o seu corpo estremecer entre o vazio e a insanidade.
Antes de sair daquela casa assim de repente parou no corredor.
Em frente ao grande espelho sobre o aparador parou como se os ponteiros do relógio congelassem o mundo naquele momento.
Como teria ido ali parar e quem era aquela imagem desfeita que via agora reflectida sobre si?
Ja no carro segue em frente sem rumo pelo entardecer.
As lágrimas de sangue escorriam-lhe por entre cada minúsculo pedaço do seu corpo.
E a falta de ar...o sufoco...o peso no peito.
Aquele sentimento atroz que prometera a si mesmo, à muito tempo atrás, jamais se permitir a viver novamente.

Anoitecera e deu-se conta que já deveria estar parado sobre aquela paisagem abrupta à algumas horas quando regressa por fim a casa.
Ao entrar cruza-se com Leonor.

- Onde estiveste? Estás com um ar terrível. Não vais ao jantar?
- Fui dar uma volta e sim... não te preocupes
.

O desiquilibrio assombrava-lhe os movimentos e a vontade de desaparecer inundou o quarto assim que entrou.
No chuveiro, deixa que a água leve as últimas gotas de verdade que lhe caiam dos olhos.
Sai de cabeça erguida e prepara-se para estar fatal.

Na manhã seguinte acorda e reconhece o corpo a seu lado. A dor, as horas, e novamente a vontade de sair dali e desaparecer...

O telefone toca:
- Gostei de te ver ontem, já tinha saudades tuas.
- Não posso falar contigo hoje...quando te abracei... desculpa.
- Mas porquê? Eu tinha mesmo saudades tuas...
- Ele viu, e não te posso causar problemas. Não agora, não hoje, sinto o peso das horas e não consigo respirar, desculpa.
- Estás bem? Pareceste-me tão extraordinário como sempre ontém quando te vi, como o príncipe que sempre foste, a descer a calçada com ele, deixando a madrugada incendiada pelo teu perfume.
- Aiiii... não consigo...agora não?
- Mas...
- Desculpa.


* na noite seguinte *

Estava no bar de sempre quando encontra a Sam.

- Meu amor, deixa-me aproveitar a tua companhia antes que me fujas novamente.
- Ora ora, eu nunca fujo...
- Desapareces entre o fumo, não sei o que é pior.
- Va, o que queres beber?
- Estou servida, obrigado. Mas quero dormir contigo. Esta noite promete-me que serás só meu.
- Não posso prometer nada que à partida não irei cumprir.
- Cabrão, é por isso que não te resisto. Nem quero...
- Que disparate, va, conta-me tudo. Como estão as coisas com o Pedro?
- Sou mulher de um homem só, sabes bem...
- ...de cada vez, sei.
- Estupor, como te atreves?
- Também gosto de ti.
- Estás lindo...foi a nova relação que te deu esse brilho? Sabes que sei de tudo!
- Não, foi o medo.




MEDO

"Quem dorme à noite comigo
É meu segredo,
Mas se insistirem, lhes digo,
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo.

E cedo porque me embala
Num vai-vem de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Gritar quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim
Gostava até de matar-me,
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim."

Sem comentários: