quarta-feira, junho 15, 2011

Há dias em que um mundo virado do avesso também faz todo o sentido.

Photo source Hello From Lisbon

O despertador toca e, entre as ondas do mar que chagavam à minha costa ainda meio a dormir, chega a aquela voz quente que apela ao um Come on skinny love just last the year.

Estava uma luz absolutamente brilhante e eu saí de casa pronto para um pequeno-almoço inusitado.
9.30h na Confeitaria Nacional, mesmo aqui em baixo no coração da cidade, e chega ela com um ar desgrenhado.

A presença da noite naquela figura é inevitável mesmo numa manhã de Verão. Mas Joana não se desmonta na pose.
Lá se foram os brioches e as meias de leite e podíamos estar em Paris, NYC ou Milão. A contemporaneidade do sentimento ali assentava em qualquer lugar mas ficava ainda melhor exactamente ali, na maravilhosa Lisboa.

- Sexta quero-te lá na festa em homenagem à Marilyn.
- Esta sexta? Esta sexta devo estar a caminho do Alentejo. A Carina faz anos e em princípio será lá o aniversário.
- Não acredito. É com dresscode e tu vais perder uma grande festa.
- Acredito! E ainda por cima de homenagem a ela... a ver vamos!


Subiram a pé a Avenida da Liberdade onde foram prolongando a conversa em atraso.
Deixa-me à porta do trabalho e lá subo eu para mais um dia onde tentaria repor a ordem depois daquele meu escape de uns dias na praia.

A meio do dia agarrei-me ao telefone e, em busca da casa de sonho, redesenhei a planta de todo um imaginário feliz num futuro próximo. O Peter haveria de gostar daquele plano.

De volta à secretária e recebo uma mensagem de Isabelle: "Porque é que amamos Marilyn?"
E muito embora de Londres, para sempre de Paris, chegava o grito de quem vive silenciosamente atenta. Senti um frio na barriga e recordei-me do exacto momento em que lhe perguntei aquilo na varanda do espaço que agora homenageava a figura.

Era verdadeiramente surreal a sensação vertiginosa das voltas que a vida nos tinha dado para mais tarde nos retomar o lugar.
O amor pela tragédia e pela beleza que numa simples mensagem nos levavam de volta aquele Dezembro de 2005. Nada mais foi igual... e até hoje, seis anos volvidos, a realidade que construímos sucumbia ao silêncio dos segredos mais bem guardados do cinema.

O Vasco fazia-me falta mas estava finalmente a acabar alguma coisa a que se tinha proposto.


Ao descer a Avenida, já de regresso a casa, ligo à Piaf para saber como estava, e senti que realmente nisto a vida tinha sido feliz. Ali estava mais uma pessoa que fazia todo o sentido muito embora a tenha conhecido num dos ambientes mais absurdos por onde passei.
Só com ela faz sentido na perfeição uma dança lenta fumada com Golden Cigarretes.

Passo pelo Teatro Tivoli e deixo à esquerda o cartaz que marcou toda uma outra vida, que hoje mesmo se anunciava novamente apaixonada. O Lago dos Cisnes em cartaz.
Ainda guardo a preciosa caixinha de música que me recorda uma história de magia absolutamente inesquecível. E o Rui pareceu-me finalmente feliz.
Não resisti e voltei atrás. Trouxe o folheto e a promessa de que iria rever dia 27 ou 28 do próximo mês.

Ao sair encontro o Pedro, com aquele sorriso inconfundível, à conversa com um rapaz que timidamente lá se apresenta.
Hoje era um "jovem criador nacional" e até nisso o sorriso em silêncio me encheu o peito.
Um dia, estava eu a navegar por blogs e sites internacionais quando encontrei um trabalho dele. Naquela mesma semana a Catarina tinha-me perguntado, como quem pergunta a uma jovem alma o que há de novo, se eu não tinha novidades e eu falei-lhe dele por precisamente ter um trabalho interessante e ser português.

Uma semana depois era página do jornal para qual a Catarina o tinha entrevistado. Nessa semana mostrei o artigo a quem sugere, e pouco tempo depois aquele rapaz tímido aceitava o convite para integrar a semana de moda nacional.

Soube-me bem ele não fazer ideia de quem eu era ou tinha sido no seu percurso, e sobretudo de eu me sentir mesmo bem com isso. O efeito borboleta da vida em si mesma sempre foi uma das coisas que mais me agradou no "viver aqui".

Deixo-os e percorro o que resta do caminho para casa.
O telefone toca e o Ricardo dizia-me que me ia ligar mais tarde só para conversar. Agora não dava tempo porque estava a entrar para a terapia.
Às vezes dou comigo a querer conhecer aquele psicólogo que, de alguma forma, já deve achar que me conhece também.


Já em plena Praça do Rossio ligo ao Miguel e desafio-o para um café.
E mais uma vez o impensável morava ali. Disse-me que sim sem hesitar.
Anos e anos depois de toda uma história igualmente enriquecedora e finalmente poderíamos voltar a tomar um café e aproveitar a vida sob aquela lua fantástica.

Estava à espera dele em casa quando o telefone toca. Era o meu Peter que ao dedicar o dia si e ao amor que finalmente recuperou por si mesmo me diz: Só para dizer que te amo :)

Releio a mensagem e acho fascinante o facto ter passado o dia com a sensação que já não lhe dizia o quão gosto dele há algum tempo.

E o telefone toca novamente. E o insólito vive mesmo aqui. O Miguel estava lá em baixo para irmos testar o Terraço do Chão do Loureiro.

Estava fechado mas valeu a pena a vista.
Passámos no Chapitô mas estava cheio e seguimos a pé até às Portas do Sol.
Por lá ficamos com a Lua pré eclipse que marcava o Tejo e dois Morritos depois tudo fazia finalmente sentido outra vez.
Foi absolutamente reconfortante voltar a ter a companhia do meu "Mira Miguel".
Hoje sei que foi uma das pessoas mais marcantes da minha vida e o afecto que lhe tenho será eterno e incondicional.

Regresso a casa e tive direito a um concerto privado de guitarra pelas mãos do que é hoje um homem de sorte e outrora uma criança perdida. E revela-se mais uma momento de um amor incondicional.
Os acordes fizeram-me voar até S.Pedro de Sintra. Aos tempos em que se passavam as noites na Taverna dos Trovadores e a promessa de um futuro artístico e intelectual nos enchia os sonhos.

O telefone toca pela última vez e a Mrs.Delloway relembra-me o atraso.
Ligo à Carina a dar-lhe os Parabéns e fico estático no sofá a admirar a maravilhosa sensação de ter uma família insubstituível, onde o amor nos embala os dias.

E a vida, numa noite de Verão em Lisboa, mesmo que pareça toda do avesso continuará certamente a fazer todo o sentido.

LOVE YOU ALL

terça-feira, maio 31, 2011

SAVAGE BEAUTY

Met Gala 2011 from Kluk Jeanovej on Vimeo.



"Às vezes ainda precisava de olhar pela janela para ter a certeza que estava ali.
A sua pele ainda trazia a marca que a "A Scent of Intrigue" do Tony Hymas lhe tinha cravado no momento em que ficou estático, numa contemplação absurda, perante a beleza do black duck feathers dress sob o título The Horn of Plenty (AW2009).
Sentia a sede de um corpo desidratado de tanto assistir. Era a beleza no estado mais magnífico e controlado.

Olhou para o chão e viu ainda o seu smoking manchado de uma bebida qualquer.
A caixa negra estava vazia mas no bolso do casaco encontrou o panther que, simbolicamente, usou no dedo na noite anterior.

O concerto e a toda aquela música de multidão repetiam-se infinitamente na sua cabeça.
Ela afinal era mais do que uma performer, era de uma beleza em palco que parecia irreal não fosse todo aquele contexto igualmente perfeito.

Dog Days Are Over by Florence and The Machine

Amanheceu e tratou das malas que ainda nem tinha desfeito. O voo da sua amiga Gabrielle chegava dali a umas horas e ela vinha destinada aigualmente esquecer Lisboa.

Arrumou tudo e saiu do hotel mesmo antes dos amigos mexicanos abrirem as portas da frente.
Parou no Brian Park e sentia-se decido a acabar o malfadado livro que parecia não ter fim.

Estava um dia de Primavera como há muito não se via ali. As pessoas estavam todas sorridentes e disponíveis. Por momentos pareciam até ter esquecido o suposto assasinato que prometia uma vingança mundial e ainda estavam embriagadas com toda aquela beleza que a gala da noite anterior tinha trazido à cidade.

A cada folha que passava lembrava-se das imagens daquela noite. A cada fracção de segundo deixava-se viajar por entre cada detalhe que o seu corpo absorveu. Era mesmo incrível o efeito que aquela noite tinha tido em si.

O dia passou e já ía pela Madison Ave. a caminho do hotel, quando o telefone toca.
Deviam ser ainda umas 5am em Lisboa.

- Tu sabes... as you know, sou do tipo "cara valente"... e sim, sinto a tua falta e tu em NYC.

Deixou cair o telefone no chão como que em câmra lenta e ficou absorvido de tal forma que não havia qualquer tipo de replexo motor na sua sombra. Congelou. Consegui apenas ouvir a sua própria respiração e mais nada.
Segundos depois, mesmo sob a sensação que tinham passado horas, decidiu assumir que tudo não passaria do efeito do alcóol e da música do LUX, naquela catedral dos múrmurios em que se transforma a noite em Lisboa.
Nada mais que o reflexo do alcóol num corpo cansado da vida saudosa a que se condedara anos antes.

Correu em direcção à NY Public Library na esperança infantil de que, rodeado das referências que lhe traziam aquele espaço, o romantismo no seu estômago estaria a salvo.

Surge uma segunda mensagem.

- Deixa-me matar a bebedeira e talvez te ligue. You know... the greatest loves are great but they scare a lot! E sim, estás tu em NYC e a minha cabeça pensou muito. About me, about you, about us... Fuck. Odeito-te!

Seis anos depois de toda uma segunda vida eis que surge o momento. Seis anos de um silêncio insurdecedor que o tinham arrastado precisamente para aquela cidade, e ele nem queria acreditar no que estava a ler.
Lembrou-se do seu cheiro, do seu sabor. Lembrou-se numa fracção de segundos da esperança. Sentiu o medo da vertigem novamente mas fechou os olhos e decidiu saltar.
Agarrou no telefone e repondeu. Perguntou-lhe se queria vir ter ele.
Logo de seguida surge a resposta.

- Not ready yet... Been really bad. Last year was hard and I'm still mending things.
If some day I'll marry you, I wanna be fully ready. We marry, get a house, 4 kids, 2 dogs and 2 cats, and a refugee on mountains for the weekends :)


Chegou ao Hotel e dirigiu-se à recepção:
- Hi, could you book me a flight to Lisbon for today?
- Of course... But it's everything ok?
- Yes, don't worry. I'll be back as soon as I can. But please tell my friend that comes today, that I had to go to Lisbon but I'll call her to explain.
- Sure...
- Thanks.
"

in Posh Las Divinas Palabras
Ao Contrário


quarta-feira, abril 06, 2011

Na cama com Pavlov

Picture from HelloFromLisbon


"Vivo ainda fascinado com esta minha recente descoberta.

Naquela manhã inesperada acordo com o corpo dormente e o meu raciocínio absolutamente silenciado. A imagem daquela luz que rasgava a janela e nos obrigava a fazer daquele um novo dia, tinha de facto uma cor espectacular.

Lembro-me das cores na sua pele, do cheiro do seu cabelo na almofada. Era tudo tão absolutamente familiar.

Já no banho e ainda atordoado, de alguma forma não estava a perceber porque não se juntava a mim e desta vez até fazia alguma cerimónia na aproximação aquela divisão. Eu ali estava, no intitulado "chuveiro de transparência porno para ver tudo e não resistir" a tomar um banho que me arrancava aos poucos da noite anterior.


O dia passou e nem houve muita comunicação.

Chego a casa e nada mais se apoderava do meu pensamento senão uma incisiva anestesia local de seu nome I'll Try Everything Once para não ter que complicar muito.

Foi a forma eficaz que encontrei de simplificar aquela experiência, que me enchera o peito de ar e a barriga de insecto alados cujas cores carnavalescas induziam o meu organismo a electrificar o maior neon do meu silêncio - O AMOR!

Partilhei o telhado com Klimt e ouvi o que tinha para me dizer. Na complexidade de uma vida a dois, aquele companheiro já me conseguia ler o silêncio e faz o favor de me recordar Pavlov.
Pode ter sido isso mesmo. Passados anos e anos duas pessoas dormem juntas novamente. E o reflexo de todos os estímulos condensados durante essa noite provocam uma imagem acolhedora e familiar, aquele sabor, aquele imenso planeta de neons. E se calhar é só mesmo isso. O reflexo a um estímulo antigo porque somos animais e estamos expostos ao sufixo do "condicionado" também aí.

Pavlov descobriu que para além dos reflexos inatos, se podem desenvolver nos animais e nos seres humanos reflexos apreendidos a que chamou de reflexos condicionados.

Isto faz todo o sentido. Condicionados pela memória, também nós podemos reagir da mesma forma a um determinado estímulo que nos reporte de forma perfeita e exacta para o momento a que corresponde essa mesma experiência vivida, e desenvolver em nós um reflexo imediato que nos leva a repetir as sensações e emoções correspondentes à mesma.

Este senhor, se bem me recordo, foi muito representativo neste passo que deu na para que a psicologia experimental se direccionasse para o estudo comportamento humano e animal.

Como é que, passados tantos anos, ainda não temos um neon também no cérebro que se ilumine sempre que estivermos diante de um reflexo condicionado?

Há portanto uma relação directa entre o amor, e/ou aquilo que julgamos serem as suas formas de manifestação e, mais frágil ainda, as nossas formas de um identificar, e este grande senhor que nos mostra que às vezes, a electricidade que chega ao grande neon não é mais do que um reflexo condicionado da pessoa responsável pelo iluminar.

Continuo fascinado com isto tudo e pelo meio tenho a perfeita convicção que afinal poderei mesmo ter dormido com Pavlov."

in POSH, LAS DIVINAS PALAVRAS (AO CONTRÁRIO)

sexta-feira, março 25, 2011

PUBLISHED

Photo by ©Tiago Veiga

Enquanto esperava no aeroporto decidi ir ver livros.
Pensamos sempre que o que levamos na mão será suficiente mas ainda assim acabamos por não resistir aos mil estranhos expostos nas bancas que nos seduzem logo no primeiro travo de cada folha de papel.

Estava com um livro na mão, uma reedição da Graça Lobo ou pelo menos uma capa diferente com o mesmo título que tinha em casa e não consegui evitar a sorriso. Aquela força. Aquela forma encantadora de gritar.

Olhei para o relógio e ainda faltava o tempo suficiente para viver uma vida ali. Também coloquei a hipótese de imaginar viver as dos outros. O velho hábito de ficar sentado em silêncio só a observar a coreografia de um aeroporto.
Desta vez, ao pousar o livro, o surpreendido fui eu.

Por debaixo de uma edição manhosa de um autor inglês qualquer descubro o livro.
Não queria acreditar.
Agarrei-me a ele e rapidamente digitei no telefone o número que sempre soube de cor.
Chamou e chamou e nada!
Liguei para a Sarah...

- Estou? Não vais acreditar..
- Onde estás? Estás bem? Ninguém sabe de ti à meses... estás em Portugal?
- Sim estou bem mas isso não interessa nada, depois explico-te. Não vais acreditar..
- Mas espera... onde estás?
- No aeroporto, mas...
- Em que aeroporto?
- Ai, já te explico, mas ela publicou o livro!
- O quê? Não estou a perceber nada, quem?
- A Isabelle, achas normal?
- NãO! Como? Onde estás?
- Como pergunto-te eu! E agora?
- Ai.. calma... deixa-me pensar... onde estás? vou para aí...
- Não... e ela não me atende o telefone. E eu vou ficar sem telefone... ai.
- Mas já viste o livro?
- Estou com ele na mão. Queres melhor?
- Mas já leste? É muito óbvio?
- Ainda não li, vou comprar agora mas... lembras-te naquela fotografia?É a capa, e queres melhor?
- Aiii... NÃO!
- E a bold diz: baseado numa história verídica.
E o silêncio instalou-se.
- Sarah...? Estás aí?
- Desculpa... nem sei o que pensar. Quer dizer... faço as malas, não é?
- Calma... eu estou de volta.
- Paris?
- Lisboa.
- Mas não estavas em Paris?
- Depois explico... vai-me buscar ao aeroporto às 16h.
- Ok... mas... mas e vens sozinho?
- Sim. Depois conto-te. Serei só eu e ninguém sabe que chego hoje.
- Ok... e... desculpa.
- Não faz mal, eu percebo. Hoje já percebo... mas... depois falamos.
- Desculpa...
- Beijo, vou ter que desligar.
- Beijo.

Comprei o livro e não o abri até já estar em velocidade cruzeiro a caminho de Lisboa.
Havia toda uma vida para reviver naquelas folhas e uma vida para preparar depois daquele objecto.

Estranha forma de regressar - pensei. Mas de que outra forma poderia ser se não esta por inteiro?



domingo, fevereiro 27, 2011

I'll Try Anything Once

Picture from Hello From Lisbon

Cheguei a casa e senti uma corrente de ar diferente.
Aproximei-me do meu quarto e a janela estava aberta.
O sol rasgava as paredes brancas e todo aquele espaço poderia fazer parte de um cenário realista qualquer a la Coppola.

Chego à janela e subi ao telhado.
A Lisboa com aquela luz incrível e o calor da chegada da Primavera serviam de baloiço a Matthew que estava estaticamente sentado sobre a água-furtada.

"Posso?" Perguntei eu já no telhado.
"Sim." Respondeu ele sem abrir os olhos.

Deitei-me ali a seu lado e aguardei que ele me contasse no momento que achasse que conseguiria.

"Dormi lá. Mas não aconteceu nada. E não consigo deixar de sentir que aconteceu tudo.
Falámos da vida nestes últimos anos desde que voltei. Falámos de amor. Do nosso amor.
Durante o sono os nossos corpos tomaram o controlo das nossas vidas. Lutámos para que nada de concreto acontecesse. Acordei com os primeiros raios de sol com a força do sexo que gemia entre os nossos poros. Senti-me em casa. Como se os anos não tivessem passado e ainda vivesse-mos juntos. Ainda fossemos quem éramos Fingi que nem me passou pela cabeça tomar banho a dois. Fingi que tudo aquilo tinha sido apenas reflexo de uma possível carência afectiva projectada numa pessoa que estava ali. Fingimos que não nos queríamos beijar. Fingi que aquela tosta não me recordou o sabor dos pequenos-almoços dos outros tempos. Segurei-me ao ser adulto e não consigo pensar noutra coisa senão em nós."

Sentei-me e perguntei: "Queres falar sobre isso? Não tem mal se vocês forem efectivamente os..."

Olhou-me nos olhos agora abertos e sorriu. Num tom baixinho disse apenas:
"Não. Vamos voltar a fechar os olhos e continuar a sonhar acordados com tudo isto aqui, pode ser?"


"Sim." Respondi eu e deitei-me novamente a seu lado.



Muzicons.com

***
"when i said ' I can see me in your eyes', you said 'I can see you in my bed', that's not just friendship that's romance too, you like music we can dance to, Sit me down, Shut me up, i'll calm down, and i'll get along with you,"
***
The Strokes

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Sometimes


"Às segundas começo a semana cheio de força. Tudo parece pronto a aceitar as minhas alterações.
Às terças sinto a tua falta.
Às quartas sinto que estou a meio da semana e percebo que não vou conseguir cumprir tudo o que agendei mentalmente para tão poucas horas por dia.
Às quintas sinto a tua falta.
Às sextas acho que o mundo pode desabar mas eu quero é dançar.
Aos sábados gosto de aproveitar as maravilhas de, mais uma vez, viver no coração de uma cidade da Europa e poder saborear tudo o que isso tem de mais surpreendente.
Aos domingos sinto a tua falta.
"

in POSH, Las Divinas Palabras

domingo, fevereiro 20, 2011

"Eu quero que você venha comigo (...)"


Acordou e deixou-se ficar nos lençóis quentes a admirar aquele sol que entrava pela janela e compunha sombras e formas inigualáveis naquele quarto.
Em câmara lenta sente os cantos dos seus lábios a elevarem-se transbordando um sorriso especial em si.
Deixa-se ficar... No silêncio daquela revisão da noite anterior.

Tenho saudades disto - disse ele ao olhar para um quadro no Braço de Prata.
Sorrindo entre o barulho de quem espera por uma bebida no bar ela sorri e busca-o com o olhar.
- Hum hum,.. Também eu. Disto.
Sorriu de volta e sente o calor que só ela se consegue transmitir. O entendimento perfeito e a telepatia intacta de um amor incondicional.
- Tenho mesmo... - De arte. - Sim. - Mas não é das outras coisas. É da arte. - Sim.

A bebida chega e ele continua a contemplar aquele quadro que estava na parede como tantas outras coisas. Não que o quadro fosse genial mas tinha sido o suficiente para o reportar à vida que teve e lhe faz falta.
Deixou-se ficar ali em silêncio com ela enquanto os restantes amigos aguardavam as suas bebidas e falavam de outras coisas.
- Sabes, ainda no outro dia disse uma daquelas coisas que te sai tão naturalmente que te obriga a confrontar a veracidade da espontaneidade em si. Do nada, ou num momento como este em que me lembro daquela época, olhei à volta e disse à Marta que sentia que no último ano me sentia mais bruto. De alguma forma aquilo ali "embruteceu-me". Ela, num segundo compreensivo passou para outro em que naturalmente, por suspeita e perspicácia, me questionou o porquê na certeza de acertar naquilo em que eu pensava.
Desviei o assunto porque não queria que ela me interpretasse de forma errada como incluída num bolo em que não a incluiu. Mas a verdade é que existe um facto com que acordei naquele dia. Precisava de me "afastar" mais um pouco de todo aquele universo e retomar o meu.
- Pois eu percebo-te. Mas talvez seja também porque agora tens menos tempo.
- A falta de tempo nunca foi desculpa naquele tempo, por isso não deveria ser agora.


Levantou-se e dirigiu-se à janela para ver o dia.
Estava ali a sentir o sol na cara quando o vizinho do prédio em frente liga a aparelhagem.
Caetano Veloso e Chico Buarque cantavam "Você não entende nada"
Tãoooo bom. Melhor era impossível. Acordar com a memória daquela conversa e sentir a confirmação da vida em si mesma com aquela música que era uma de muitas que serviam de banda sonora aqueles tempos.
Tãooo bom. Ficou ali, deixou-se ficar a aguardar a parte que sabia que adorava em que entre "Todo dia" do Caetano passamos para "Todo o dia ela faz tudo sempre igual" do Chico.
Tãooo bommm.

Viajou na vida e pela vida e o tempo perdeu qualquer valor no espaço ali.