domingo, fevereiro 04, 2007

Vingança

E talvez por isto eu nunca tenha gostado de gatos...

"Não, comigo não brincam. E eu vingo-me sempre sabe. Fico à espera para me vingar. E depois vingo-me. Sempre. Sabe aquele de quem lhe falei? Aquela grande paixão? Grande amor? Ele foi-se embora e então eu disse a mim mesmo “espera aí, espera, vais ver meu rapaz, ainda me hei-de-vingar! Vais ver como elas te mordem!.” E assim foi. Não é que um dia estava eu muito sossegado na minha casa e ele foi lá e implorou-me para eu o deixar voltar! Sabe lá o que me custou, mas disse-lhe que não, que nunca, nunca mais o queria ver. Nem sonha o que me custou! Mas eu tinha de me vingar. E nunca mais o vi. Sofri muito, mas nunca mais o vi. E pronto. Agora adoro os meus gatos. E os meus amigos. Sou muito amigo dos meus amigos e os meus amigos são muito meus amigos. E quando me traem eu não perdoo. É que não perdoo mesmo. Aliás, eles sabem. Andam ali direitinhos. A amizade é como o amor. É tudo a mesma coisa. Odeio filhos da puta. É por isso que gosto tanto dos meus gatos. É que os gatos, sabe, não são filhos da puta e como eu cada vez mais me pareço com uma velha, uma velha macaca, aliás, é estranho mas pareço, os gatos afeiçoam-se a mim. Pensam que estão com uma velha, ou uma velha macaca, apesar da voz. É engraçado não é? Para lhe dizer com toda a franqueza nunca quis ser mulher. Sempre quis ser como sou e o que sou. Um homem. Uma mulher não. É isso que eu digo de manhã, ao espelho, quando hidrato a pele. “Tu és um homem.” E esse homem sou eu. E é assim que têm de gostar de mim. Ou de não gostar de mim. Mas é assim. Exactamente como eu sou. É claro que há um preço a pagar. Mas não faz mal. Eu pago o preço. Eu pago. Era o que o meu pai dizia. Mas como nunca gostei dele, pago o preço."

by Graça Lobo in SINCERAMENTE



Sinceramente é a história de uma mulher enterrada, de uma parede, de uma vingança. Sobem ao palco um actor, uma actriz e um basset. Temos um jantar, fala-se de felicidade, de direitos, de separação. Fala a Graça Lobo. Histórias breves, cortantes. São os dramas do pai, da filha, da irmã, do padrinho, um mundo inteiro em fúria, muita gente inquieta mas viva. Relatos de amor e humor, de uma outra mulher, de nome Graça Lobo, que por momentos desce do palco, redescobre o ofício de escritor, e se deixa monologar, assim, sinceramente.

Oficina do Livro
Set.2001

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