sexta-feira, janeiro 06, 2006

Chocolate IV


Voltei.
E no meu regresso encontro algo que me surpreende.
A loja mantém-se a mesma, a disposição das tentações também. O lojista não deu conta da minha ausência e muito menos se colocou em bicos dos pés quando me aproximei.
O que se terá passado na minha ausência? Nada…pura e simplesmente nada.
Entrei pela loja a dentro com a força de mil homens. Estava preparado para a grande viragem neste filme. Estava preparado para uma overdose de chocolate que iria desenhar um fim a este jogo… uma overdose de adrenalina.
Como podemos ser ingénuos no preparar das nossas armas.
Entrei… aproximei-me e nada.
Cansado da não reacção fiz o que caracteriza o meu corpo… provoquei reacção e caí. Caí de uma altura izurbitantemente alta. Mas a queda começa a saber bem.
Secretamente lancei a última cartada para procurar significantes e nem quis acreditar. O filme tinha-me sido roubado e eu nem dei conta. Esta já não era a minha história e o meu papel já não era o que deixei.
Foi-me explicado o meu significado mas assim descobri que o meu significante estava a milhas de distância do que sonhei ser neste enredo.
Fui, sou e, sob a proposta de continuar a ser, alguém que cumpre uma missão nesta loja. Era-me suposto amparar, acarinhar e proteger o chocolate feroz que me alimentava. Concretizei-o sem o saber e até recebi uma menção honrosa de “esforço e dedicação”. Irónico no mínimo…quem me diria a mim que estes ossos mundanos e este sangue envenenado ainda prestava, mesmo que silenciosamente, serviço social.

A verdade é muito simples.
Vivi sob o efeito de uma droga que algures me deixou despido. Essa droga, envolta num aspecto angélico e numa quantidade exagerada de corante, conservou-me os ossos em ferro e o sangue em vinho. Nunca, em momento nenhum, por mim…sempre em nome do tão aclamado chocolate.
Pois que sinto chegada a hora de partir.
Há muitos segundos atrás, algures no passado deste corpo, aprendi uma coisa que sempre estará presente. Nunca deixes que o teu público se esgote. Nunca esperes por um lugar vazio na plateia. Sai… abandona o espectáculo quando tu ainda fazes vibrar alguém e ainda quando as pessoas que te assistem te desejam. Foge em silêncio para que sintam a tua falta e nunca, mas nunca, sejas indesejado.

Hoje é um dia especial. É um dia em que abandono esta história. Sinto a angústia da confusão até porque saio sem perceber bem o que fui, o que sou e o que poderei ser para esse tão misterioso chocolate. Saio com a mesma água na boca com que entrei na loja até porque de alguma forma esta história não teve um fim. Eu é que acabei, eu é q cheguei ao fim como uma personagem que é subitamente assassinada a meio da história porque, por alguma razão, o seu dono já não precisa mais da sua presença.
Saio triste, melancólico, mas certamente feliz. Feliz porque a vida mais uma vez fez o favor de me surpreender e viver qualquer coisa que nunca tinha vivido antes. Feliz porque nos meses frios que se aproximam irei aprender muito com tudo isto e assim aquecer estes ossos que outrora cobriram o gelo.

Ao senhor da loja desejo uma boa história, à loja um cenário faustoso, e ao chocolate… bem ao chocolate resta-me dizer “Até um dia que o autor se lembre de nos fazer contracenar de novo fazendo de mim o protagonista que afinal nunca fui!”

A todos um grande bem haja
Saí de cena que este palco já não me pertence e este público já esteve mais longe de não me desejar.

1 comentário:

someofme disse...

Estou... sem palavras. É forte. É bonito. É triste. E ao mesmo tempo comporta uma felicidade que não sei descrever.
Fascina-me a escrita do "adeus" ou do "até sempre". Comporta sempre um misto de sentimentos que não sei explicar.
Coloca-se-me é sempre a questão se será o melhor... Maybe.