segunda-feira, outubro 16, 2006

Night Storm



O dia começara tarde.
A tarde anunciava aquela estação que Jacque sempre esperava com as malas feitas.

Ao anoitecer olhou-se no espelho e percebeu que tinha passado o dia, em repouso, sobre si mesmo, a pensar.
E que as conlcusões eram mais que muitas, ou se calhar até bem poucas, desde que verdadeiramente reais.

"E que tal um bom vinho acompanhado por uns bons queijos, nesta noite de trovoada?" Sugere Jacques ao seu bom e velho amigo de grande caminhadas.

E soube tão bem, tão verdadeiramente bem.
Existem perfumes que nos fazem ver tudo melhor, sabores que tudo nos recordam e pessoas que em tudo nos preenchem.

E com este sentimeno, sensação ou apenas frame de felicidade, a noite trouxe de regresso o manto de veludo que o bom vinho recordava.
Aquele manto deixado cair por momentos... em que Jacques vasculhava Teresa dentro de si.
"Não existe. Nunca existiu... Hoje sei e nem sequer sinto saudades. Existem lugares e momentos para tudo. E em mim,nunca coube ao que agora sei."

Abraça o seu amigo, e no calor de toda a verdade, faz anunciar o seu regresso.
E ao meter a chave à porta retorna o olhar para a tempestade. Fascinado com aquela grandiosidade recorda um texto que escrevera em tempos. E ao recordar o texto recordou a liberdade em si.
FuckMeHard foi o título que recordou.

Mas a chuva e a trovoada continuavam a fazer daquela uma fantástica noite de tempestade.
E em noites de tempestade sempre gostara de fazer mudanças e tomar decisões.

"E foi tão bom no aconchego de tudo o que me deste sem sequer dares conta de nada.
Sabes, algures naquela cama, enquanto o teu sono observava, cheguei mesmo a acreditar poder fazer-te felíz.
E digo-o sem qualquer pudor porque não sinto que tenha fracassado. Sinto que tentei, e com isso liberto de mim qualquer teia de dúvida sobre a nobresa dos meus gestos ou a veracidade de todos os verbos utilizados entre nós.
Mas hoje a noite recorda-me em mim, e mostra-me que não posso, não devo, nem quero semear a dúvida entre a insistência e o esforço, entre o certo e o errado, entre o emotivo e o exagero.
Não, não será assim... não quero.
Espero que essa vida em suspensão te traga um dia à terra e que te recordes do meu nome como prometeste.
Hoje, quando mergulhar ao adormecer, recordarei pela última vez o momento em que dizias: Dorme, dorme...que eu não deixarei que ninguém te faça mal.
Hoje será a última noite em que o faço até que um dia, se a vida assim o entender em ti, me o recordes tu.
Não espero resposta a esta carta...tu sabes. Acho que finalmente sei o que esperar de ti.
E se agora neste instante tu, ao ouvir-me, com aquele teu olhar de abandono, me perguntasses se eras uma desilusão?
Não sei...Dei comigo a pensar que às vezes o queres de tal forma que acabas por te tornar nisso,não sei.Mas hoje, agora, não. Não és uma desilusão porque isso ía-me obrigagar a tornar ilusão tudo aquilo que encontrei aí, em ti.
E por muito charmosa que fosse essa sentença em ti, permito-me eu a mim mesmo, a arrogância proclamada e não.
Ainda sei o que vejo... Mesmo que às vezes veja o que não deva e tenha que fingir que não vi, por cortesia, respeito ou até compaixão. Aqui, sei que o farei por afecto. Que fique claro.
Não te percas no medo de viver, vive.
Nunca te esqueças que por mais solitário que seja qualquer caminho, nada existe sem gente nem coisas para te criarem o espaço onde existes em ti.
Fecha os olhos e respira. Abre os braços e abraça as gentes lá fora.
E sorri, que te fica tão bem.
Até sempre, até um dia, até amanhã...

Amanhã regresso a casa e se me quiseres procurar sabes bem onde me encontrar.

Jacques. "



Escreveu então numa folha que nunca verá a luz o dia.

Sorriu para a noite, sorriu para si e mergulhou entre os lençois recordando a viagem e o amanhã.
Semi-serrou os olhos... e adormeceu.

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