sábado, abril 22, 2006

“Mr Woolf, mas que prazer mais inesperado…”


"- Não há obrigação nenhuma… eu suportei esta supervisão.
Suportei esta prisão.
Vivo rodeada por médicos, por todo o lado só vejo médicos que me informam dos meus inetresses!
- Sabem quais são!
- Não sabem não! Não falam em nome dos meus interesses.
- Compreendo que seja difícil para alguém com o teu…
- Com o meu quê, diz?
- …talento, pensar que pode não ser o mehor juiz do seu estado!
- Quem é melhor juiz?
- Tu tens um historial! Tens um historial de internamentos, e se te trouxe para Richmond foi por causa da série de ataques, de humores, das vozes que ouves!
Trouxe-te para te poupar ao irrevogável mal que tencionavas fazer a ti própria.
Já te quiseste matar duas vezes! Vivo diariamente sob esse ameaça e se montei a prensa, se a amontei cá não foi por ela mas para teres uma forma de absorção, de terapia.
- Como croché?
- Foi tudo feito por ti! Para ver se tu melhoravas! Feito por amor!
Se não te conhecesse chamava a isto ingratidão.
- Eu, ingrata? Estás a chamar-me ingrata?
A minha vida foi-me roubada.
Vivo numa cidade onde não sinto o menor desejo de viver, vivo uma vida que não me apetece nada viver. Como é q isto aconteceu?
Vai sendo altura de voltarmos para Londres. Londres faz-me falta. Faz-me falta a vida dela.
- Isso não és tu a falar Virgínia, é só uma faceta da tua doença. Não és tu, não é a tua voz.
- É a minha sim, só minha.
- É a voz que ouves.
- Não é nada, é a minha! Eu morro aqui metida!
- Se pensasses direito sabias que foi Londres que te deixou nesse estado.
- Se eu pensasse direito? Se eu pensasse direito…
- Trouxemos-te para Richmond para te dar paz.
- Se eu pensasse direito, Leonard, dizia-te que luto sozinha na escuridão, nas trevas absolutas e que só eu posso saber, só eu posso compreender o meu estado.
Vives sob a ameaça, dizes tu, sob a ameaça do meu desaparecimento.
Mas também eu vivio sob ela.
E esse é o meu direito, o direito de qualquer ser humano. Escolho não a sufocante anestesia dos subúrbios mas o vibrante abalo da capital. A escolha é minha. E à mais humilde paciente, à mais desgraçada, é permitida uma palavra a dizer sobre o seu tratamento.
É assim que ela define a sua humanidade.
Quem me dera, por ti, poder ser feliz nesta quietude."
THE HOURS
by Stephen Daldry

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